Mais de 30 milhões de meninas e meninos podem ser expostos a dois ou mais riscos climáticos no Brasil com o avanço do El Niño, apontado como um dos mais fortes desde 1950, afirma análise inédita do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) divulgada nesta quinta-feira (8).
Preparado pelo Centro de Excelência sobre Crianças e Resiliência Climática do Unicef, sediado em Bangcoc, na Tailândia, o documento detalha como secas, calor extremo, incêndios florestais, chuvas intensas e inundações podem afetar saúde, nutrição, acesso à água, educação e proteção das crianças.
O estudo enfatiza que, diferentemente de desastres repentinos, a trajetória do El Niño pode ser prevista com meses de antecedência. Por isso, esperar os serviços colapsarem para agir significa chegar tarde e gastar mais dinheiro para remediar.
Dessa forma, o órgão defende que os governos aproveitem os próximos meses para preparar serviços essenciais antes que os riscos se agravem a ponto de não poderem ser contidos.
As ações a serem tomadas a curto prazo apontadas pelo documento são: fortalecer sistemas de alerta precoce; preparar profissionais e unidades de saúde; revisar planos de emergência das escolas; monitorar e proteger fontes de água; pré-posicionar medicamentos e insumos; identificar famílias e comunidades mais vulneráveis; e organizar mecanismos de proteção social e apoio financeiro antes de uma emergência.
No caso específico do Brasil, o estudo aponta como ferramenta central a aplicação do Protocolo Nacional para a Proteção Integral a Crianças e Adolescentes em Situação de Riscos e Desastres, idealizado pelo governo Lula (PT) em 2025, com o apoio do Unicef, articulando Defesa Civil, saúde, assistência social, educação e direitos humanos em uma rede contínua de proteção climática.
Como exemplo do que pode acontecer pela falta de planejamento, o órgão cita as enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024, também sob influência do El Niño. A tragédia afetou 741 mil estudantes, diz o documento. Na mesma época, a seca histórica na amazônia atingiu outros 436 mil, somando 1,17 milhão de alunos com aulas paralisadas.
Esses números, afirma o Unicef, não significam que os eventos de 2024 vão se repetir neste ciclo de El Niño nem permitem prever exatamente onde ocorrerão os maiores impactos. Eles mostram, porém, o que pode acontecer quando seca, calor, fumaça ou chuvas extremas atingem serviços dos quais meninas e meninos dependem.
"O dado meteorológico nos mostra onde pode chover mais ou menos e onde o calor ou a seca podem se intensificar. O papel do Unicef é olhar para o que acontece quando esse extremo chega à vida de uma criança", afirma Danilo Moura, especialista em clima e meio ambiente do Unicef no Brasil.
"Uma seca pode significar falta de água segura, fumaça, dificuldade para chegar à escola ou ao posto de saúde. Uma enchente pode significar escola fechada, vacinação interrompida ou perda da renda da família. E muitos desses impactos podem ser reduzidos se a preparação acontecer antes da emergência", afirma.
Para facilitar o trabalho de prevenção dos governos, a análise listou os riscos às crianças em diferentes áreas: saúde, alimentação e nutrição, água e saneamento, educação, e proteção e renda.
"Esperar a escola fechar, o posto de saúde ficar isolado ou uma comunidade perder acesso à água para começar a agir é chegar tarde. Nós já sabemos que há um El Niño forte em curso e conhecemos os tipos de impacto que podem atingir diferentes regiões. Preparar os serviços agora custa menos, permite responder mais rapidamente e, principalmente, evita que a emergência climática se transforme em uma emergência para as crianças", afirma Danilo.
O Unicef diz ainda que, como parte do esforço para ampliar a informação e a conscientização sobre os impactos do El Niño na infância, tem mobilizado influenciadores, comunicadores e jovens para levar o tema às redes sociais.
Entre eles estão a assistente social e comunicadora Giovanna Marinho, conhecida como Pitel, e jovens do programa de voluntariado online #tmjUnicef, que vêm produzindo conteúdos para aproximar o debate sobre clima, preparação e proteção de crianças e adolescentes de diferentes públicos.