18 de setembro de 2026
AGORA VAI?

Campinas tenta reabrir disputa dos ônibus após anulação de leilão

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/Redes Sociais
Após TCE anular disputa de março, Prefeitura prepara novo edital dos transportes para outubro e prevê voltar à B3 em dezembro.

A Prefeitura de Campinas colocou uma nova data no calendário da longa e conturbada licitação do transporte coletivo. O edital que vai reabrir a disputa pela operação dos ônibus da cidade deverá ser republicado na primeira quinzena de outubro, com previsão de um novo leilão em dezembro, novamente na B3, em São Paulo.

Não será exatamente uma volta à estaca zero. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) preservou a modelagem, o conteúdo e as planilhas da concessão, mas determinou que a Prefeitura refaça a etapa de apresentação das propostas e, consequentemente, o leilão realizado em 5 de março. Nesta sexta-feira (18), o município publicará formalmente a anulação daquela fase do processo.

A determinação atingiu justamente o momento em que a licitação parecia ter atravessado sua principal barreira. Em março, depois de anos de tentativas frustradas, a disputa na Bolsa havia definido a Sancetur para o Lote Sul e o Consórcio Grande Campinas para o Lote Norte, resultado que posteriormente avançou até a habilitação dos dois grupos em maio.

TCE manda devolver prazo de 35 dias

O ponto que obrigou a repetição dessa etapa foi o prazo concedido às empresas depois de uma alteração no edital. A entrega das propostas estava inicialmente prevista para 10 de fevereiro, mas foi transferida para 25 de fevereiro. Com a mudança, os concorrentes tiveram 15 dias úteis para preparar e entregar a documentação. No julgamento de 19 de agosto, o TCE-SP entendeu que a alteração exigia a reabertura integral do prazo previsto, de 35 dias úteis.

Foi essa decisão que derrubou a etapa de propostas e o leilão de março, sem anular todo o edital. Na prática, novas empresas poderão entrar na disputa e os grupos que participaram anteriormente também terão de apresentar novamente suas propostas caso desejem continuar no certame.

Desde então, técnicos da Prefeitura trabalham na republicação. Além das adequações determinadas pelo Tribunal, foi necessário atualizar os preços utilizados na modelagem, porque os valores de referência têm validade de seis meses. A revisão alcança custos como diesel, peças, mão de obra, tecnologias e manutenção dos terminais.

Com a publicação prevista para outubro e os 35 dias úteis destinados aos interessados, a Administração trabalha com a perspectiva de levar a concorrência novamente à B3 em dezembro.

Uma licitação que atravessa anos

O novo calendário adiciona mais um capítulo a um processo que Campinas tenta concluir há anos. O primeiro edital da atual concessão foi lançado em dezembro de 2022. Em maio de 2023, o TCE-SP suspendeu a concorrência depois de uma série de questionamentos apresentados por interessados e determinou ajustes técnicos. Uma nova versão foi publicada em julho daquele ano, mas a abertura das propostas, em setembro, terminou sem qualquer interessado e a licitação foi declarada deserta.

A Prefeitura voltou então à fase de elaboração do modelo. Houve novas audiências públicas, consulta à população e alterações importantes nas exigências, incluindo mudanças na quantidade e no cronograma de introdução de ônibus elétricos, na bilhetagem e na estrutura dos lotes. Em 2025, a consulta pública recebeu mais de mil manifestações antes da versão definitiva do edital.

O documento finalmente foi publicado em 5 de dezembro de 2025. A concessão foi estruturada para 15 anos e estimada em aproximadamente R$ 11 bilhões, dividindo a operação em dois grandes lotes. Além dos ônibus convencionais, o contrato envolve o Programa de Acessibilidade Inclusiva (PAI), terminais, estações do BRT, bilhetagem, gerenciamento e monitoramento do sistema.

Março parecia ser o ponto de virada


Divulgação/PMC

Em fevereiro deste ano, a nova tentativa finalmente atraiu concorrentes. Cinco grupos apresentaram seis propostas na B3, rompendo com o cenário de ausência de interessados registrado em 2023.

No leilão de 5 de março, a Sancetur apresentou a melhor proposta para o Lote Sul e o Consórcio Grande Campinas venceu o Lote Norte. O resultado indicava uma mudança significativa no sistema, inclusive com a derrota de grupos que operam o transporte campineiro há décadas.

Mas a aparente definição deu lugar a uma sequência de questionamentos. Em abril, o TCE-SP determinou que a Prefeitura não homologasse o resultado enquanto fossem esclarecidas dúvidas sobre a composição e vínculos entre empresas que participaram da concorrência. O município iniciou diligências técnicas, inclusive visitas a sedes empresariais, análise de documentação, capital social e planilhas.

Em maio, mesmo nesse ambiente de disputa administrativa e judicial, a Prefeitura publicou a habilitação da Sancetur e do Consórcio Grande Campinas, mantendo o processo em andamento enquanto recursos e questionamentos continuavam sendo analisados.

Licitação também entrou no centro da crise política

Ao longo do ano, a concorrência deixou de ser apenas uma questão de transporte e passou a ocupar também o centro do debate político em Campinas.

Vídeos e investigações envolvendo encontros na sede da Smile Transportes, empresa relacionada a integrantes do grupo vencedor do Lote Norte, colocaram a licitação sob forte escrutínio político e institucional. Um dos episódios envolveu o então vereador Vini Oliveira (Cidadania), cuja presença na empresa passou a integrar a apuração que posteriormente resultou em Comissão Processante e cassação na Câmara.

Esses episódios, entretanto, são distintos da razão jurídica que levou o TCE-SP a determinar a repetição do leilão em agosto. A decisão mais recente do Tribunal está relacionada ao prazo insuficiente concedido para a apresentação das propostas depois da alteração do edital, e não representa anulação integral da modelagem.

Contratos atuais ganharam fôlego de até dois anos

Enquanto a nova concessão não é concluída, Campinas também criou uma espécie de colchão de segurança para evitar interrupção do serviço.

Em abril, a Câmara aprovou definitivamente autorização para que os contratos atuais do transporte sejam prorrogados por até dois anos, período destinado justamente à transição até a entrada dos futuros operadores. A proposta original da Prefeitura previa até três anos, mas o prazo foi reduzido durante a tramitação no Legislativo.

Isso significa que o novo calendário — edital em outubro e leilão em dezembro — ainda não representa uma data imediata para troca das empresas nas ruas. Depois da disputa, haverá novamente etapas de análise documental, habilitação, recursos, homologação e preparação operacional dos vencedores.

Dezembro vira a próxima data-chave

Se o novo cronograma for cumprido, dezembro colocará Campinas outra vez diante da B3, nove meses depois do leilão que agora será formalmente anulado.

A disputa continuará valendo um contrato bilionário e de longo prazo, destinado a definir quem operará o principal serviço público de mobilidade da cidade pelos próximos 15 anos.

Depois de uma licitação deserta, sucessivos ajustes, um novo edital, seis propostas, dois vencedores, questionamentos do TCE, diligências e a posterior anulação da etapa decisiva, a Prefeitura tenta agora chegar ao fim de um processo que se tornou um dos assuntos públicos mais acompanhados de Campinas nos últimos anos.