A histórica sessão no STF (Supremo Tribunal Federal) desta terça-feira (15) foi marcada por trocas de ofensas e bate-boca entre as autoridades do Judiciário.
Ainda nas primeiras horas de sessão, os ministros do Supremo usaram termos como "aprendiz de feiticeiro", "leviano" e "pixuleco". Mais tarde, o debate foi interrompido por uma nova discussão entre André Mendonça e Gilmar Mendes, que culminou em pedido de vista (mais tempo para analisar o caso) de Flávio Dino.
O último bate-boca começou quando Paulo Gonet, procurador-geral da República, negou ter relação de proximidade com Vorcaro. Ele afirmou ter falado apenas uma vez, de forma "brevíssima e banal", com o ex-banqueiro num evento com várias autoridades em 2024, e disse "ficar feliz" por Mendonça ter reconhecido que "nada foi colhido pela Polícia Federal que pudesse induzir alguma prática de ilícito" por parte dele.
Mendonça, relator do caso Master, pediu a palavra para rebater Gonet, mas foi interrompido por Gilmar Mendes.
"É impressionante que uma pessoa da altura de Paulo Gonet sofra esse tipo de ilação. Isso, sim, é leviandade. É um sujeito [Mendonça] investido de um sentimento policialesco", disse o decano do STF. "É impressionante a desfaçatez desse sujeito!", exclamou, ao que Mendonça gritou: "A desfaçatez de vossa excelência! Me respeite."
O presidente do tribunal, Edson Fachin, interrompeu a discussão. Ao fundo, Gilmar dizia: "Pode chorar". Mendonça rebatia: "Não estou chorando, não. Aqui não tem choro, não". Flávio Dino, então, afirmou que iria pedir vista e classificou a condução da sessão por Fachin como desastrosa. Mendonça disse: "Eu estou sendo agredido".
O bate-boca interrompeu o que, até então, estava sendo um debate técnico e marcado por uma cordialidade não vista na primeira parte do julgamento. Alexandre de Moraes, objeto da sessão por sua suposta ligação com Vorcaro, protagonizou uma discussão acalorada com Mendonça pouco antes do plenário ser interrompido para intervalo.
Enquanto os ministros do STF falavam sobre a atuação da PF na investigação, Moraes pediu para que sua postura fosse analisada junto à de Mendonça e acusou o colega de parcialidade na condução do caso.
"Não há como julgar hoje sem julgar terça [da semana que vem, que pautará a conduta de Mendonça na relatoria do caso Master]", disse Moraes. "Por isso eu pergunto: Quem tem medo da Polícia Federal?"
"Não é questão de medo, não", respondeu Mendonça, ao que Moraes disse: "Eu não estou perguntando à vossa excelência". Mendonça rebateu: "Mas eu estou lhe respondendo".
Moraes prosseguiu, dirigindo-se a Fachin: "Quem tem medo da Polícia Federal? Quem chamou a Polícia Federal e exigiu que a Polícia Federal colocasse um colega na colaboração premiada. E vamos trazer aqui, presidente [Fachin], e chamar aqui testemunhas que eu vou indicar. Não só policiais, mas advogados. Testemunhas. Eu tenho testemunhas que o ministro André, em reunião, disse: 'Peçam isso'."
Mendonça interviu: "Isso é mentira. Mentira."
"Vamos chamar as testemunhas, então? Pode chamar quem quiser", rebateu Moraes.
"Isso é mentira. Pode chamar quem quiser, vão mentir", disse Mendonça, que repetiu "mentira" nove vezes durante a fala do colega.
Moraes prosseguiu dizendo que Mendonça "está a serviço de um grupo político que quis dar um golpe neste país", em referência aos ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. "Ah, senhor presidente [Fachin]", suspirou Mendonça. "Eu não vou responder. No meu momento de fala eu respondo."
Na sequência, Gilmar Mendes afirmou que há um viés eleitoral por trás das decisões de Mendonça, citando a revelação da suposta relação de Vorcaro com Moraes às vésperas do feriado de 7 de setembro, abraçado pela direita bolsonarista como símbolo de demonstração política patriótica.
"O relator [Mendonça] aguardou a chegada do período eleitoral para encomendar o relatório, que muito provavelmente implicaria exatamente quem ele buscava implicar. Mais grave do que isso, antes que a questão fosse efetivamente submetida ao plenário, monocraticamente levantou o sigilo do relatório, a fim de constranger qualquer posição contrária à sua atuação. O que está parecendo mesmo? Que o intuito aqui é jogar com o caos", afirmou o decano.
"Até as pedras sabem que há um viés político eleitoral." Enquanto falava, Mendonça interrompeu: "Vossa excelência está sendo leviano". Gilmar prosseguiu a fala, enquanto Mendonça falava ao fundo: "Leviano, leviano."
Então, Gilmar pediu silêncio ao colega. "Vossa excelência não tem a palavra e vai escutar com tranquilidade. Há evidente condução político-eleitoral", gritou. "Isto não se faz. Pessoas decentes não fazem isso."
"Não aponte o dedo para mim. Não está falando com qualquer um. Respeite este tribunal", rebateu Mendonça, ao que Gilmar disse: "Quem não se dá respeito não merece respeito".
O decano prosseguiu dizendo que a tentativa de envolver o STF em disputas políticas é uma manobra irresponsável. "Se deram muito mal, porque são aprendizes de feiticeiro. Tentar arrastar o Supremo Tribunal Federal para esse tipo de prática e pensar que iriam ficar imunes e impunes é de uma desfaçatez de corar frade de pedra. Em nome de Deus já se fez muita patifaria, repito", afirmou, em provocações de cunho religioso para criticar a atuação de Mendonça, que é pastor evangélico na Igreja Presbiteriana do Brasil.
Gilmar ainda chamou Mendonça de "pixuleco" e considerou a decisão do colega de afastar Andrei Rodrigues da diretoria-geral da PF um "vexame". Ele também afirmou que a apuração de Mendonça é parcial e que "até a máfia tem ética".
Em silêncio até ser convidada a votar, Carmen Lúcia lamentou os desenvolvimentos do julgamento e disse estar em "profunda consternação e tristeza". A corte, segundo ela, gerou um mal-estar cívico nos cidadãos. "Eu me sinto até envergonhada de no momento, a menos de 20 dias das eleições, estarmos voltados a questões do STF", afirmou.
"Se fui omissa, peço desculpas a todos os colegas por não ter ajudado a superar isso de maneira mais rápida. Acho que todos nós aqui queríamos a mesma coisa, que as questões fossem resolvidas, mas não foram resolvidas e cresceram demais", completou