13 de setembro de 2026
Cotidiano

Planeta Terra completa 100 dias de recorde de calor no oceano

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min
University of Maine

SÃO PAULO - Coroando uma sequência de marcas climáticas chocantes, os oceanos completaram, em 10 de setembro, 100 dias de recordes de calor. Desde então, a água segue muito mais quente do que o normal, mostram dados da agência climática dos Estados Unidos (Noaa, na sigla em inglês).

As temperaturas médias diárias dos mares em todo o mundo permanecem em níveis nunca antes registrados desde 2 de junho. A notícia vem após agosto empatar com junho de 2023 como o mês mais quente já registrado, além de ter tido também o recorde diário histórico de temperatura marinha.

O calor extremo é resultado da soma de um forte El Niño, iniciado em junho, à mudança climática. O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento acima do média da região tropical do Pacífico. Por sua vez, grande parte das emissões de gases de efeito estufa (30%) e do calor provocado por elas (90%) são absorvidos pelos oceanos.

"A temperatura da superfície do mar permanecer excepcionalmente alta por tanto tempo é um sinal muito importante do desequilíbrio energético do planeta", afirma a bióloga Marina Correa, especialista em conservação oceânica do WWF-Brasil.

A estimativa preliminar da temperatura global da superfície do mar fora das regiões polares para 10 de setembro é de 21,15°C. Na mesma data de 2015, ano de um El Niño muito forte, a temperatura dos oceanos era de 20,72°C.

O cenário atual ocorre após três anos em que as temperaturas da superfície marinha superaram, por ampla margem, os recordes anteriores.

Em poucas décadas, o "clima marinho" mudou de patamar. As temperaturas globais dos oceanos estão quase 1°C mais altas (0,94°C acima) do que a média de 1982 a 2010 nessa época do ano.

"Aumentar 1°C na temperatura do mar pode ter um efeito significativo sobre a biodiversidade. Em terra, podemos instalar ar-condicionado para nos refrescar, mas a adaptação dos mares e da vida marinha não é tão simples e é extremamente limitada", diz a pesquisadora da Universidade de Maynooth, Claire Bergin, em comunicado.

A recorrência destes eventos reduz o tempo disponível para as espécies se recuperarem de seus impactos. Além disso, a persistência do calor expõe as criaturas marinhas a estresse térmico por grandes períodos.

"Em muitas regiões, o intervalo entre grandes perturbações nos recifes de coral caiu cerca de 10 anos para 5 ou 6 anos", conta Correa, do WWF, citando dados do último relatório Estado dos Recifes de Coral do Mundo, lançado neste ano.

"No Brasil, a temperatura da superfície do mar aumentou 0,76°C entre 1985 e 2025 e houve uma redução de cerca de 34% na cobertura de coral duro entre 2016 e 2024. É um cenário extremamente preocupante", afirma a especialista.

Muito sensíveis às altas ondas de calor marinhas, corais sustentam um quarto de toda a vida marinha. Isso significa que a diminuição dos recifes impacta diretamente comunidades pesqueiras.

EVENTOS CLIMÁTICOS EXTREMOS

Espera-se que o oceano continue aquecido pelos próximos meses, em especial com o agravamento do El Niño.

Correa lembra que esse aquecimento não fica restrito ao mar. Um oceano mais quente fornece mais calor e umidade para a atmosfera e pode tornar chuvas e tempestades mais intensas. O calor também provoca a expansão térmica da água, aumentando o nível do mar.

"Para cidades costeiras, isso significa uma combinação particularmente preocupante: elevação do nível do mar, erosão, ressacas, inundações costeiras e maior exposição da infraestrutura e das populações aos eventos extremos", diz ela. "Essa é também uma questão de adaptação climática e de segurança das cidades."

Isso evidencia que a solução para o problema do calor no oceano é a mesma da mudança climática: cortar emissões de gases de efeito estufa produzidos pelas atividades humanas, principalmente por combustíveis fósseis e desmatamento.

Tom Pickerell, diretor global do Programa para os Oceanos do World Resources Institute, aponta que o oceano não é apenas uma vítima, mas pode fazer parte da solução para o aquecimento global.

"Se tecnologias como a descarbonização do transporte marítimo e as fontes renováveis offshore fossem adotadas em larga escala, poderíamos alcançar 35% das reduções de emissões necessárias até 2050", afirma, em comunicado.

"Esperamos que a COP31 realmente leve isso em consideração", acrescenta Pickerell, em referência à cúpula climática das Nações Unidas, que será realizada em novembro, na Turquia, em parceria com a Austrália. "Talvez vejamos o tema deixar as margens e passar a ocupar o centro das negociações."