A Polícia Federal deflagrou uma operação nesta quinta-feira (10) contra 29 pessoas ligadas ao filme "Dark Horse", sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, que teriam participado de um esquema de desvio de recursos de emendas parlamentares para a produção.
A ação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), no âmbito da investigação que apura o uso indevido de recursos públicos para o filme. O caso chegou à corte por meio de uma representação feita pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP).
Alguns dos alvos da operação são o deputado Mario Frias (PL-SP), autor das emendas, e Karina Gama, da Go Up Entertainment, produtora do filme. À coluna Mônica Bergamo, Karina afirmou que a aplicação dos recursos foi correta. "Não tenho nada para delatar", disse. A defesa de Frias não foi localizada. O parlamentar foi proibido por Dino de sair do país.
Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Ceará e no Distrito Federal. A PF divulgou imagem que mostra sete armas apreendidas --elas estão registradas no nome de Frias, mas haverá investigação de posse ilegal porque os artefatos foram localizados em endereço diferente do que deveriam estar.
"Dark Horse" (azarão, em inglês) é um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado e preso. As primeiras notícias sobre o longa surgiram em outubro de 2025, quando as filmagens começaram a ser feitas em São Paulo.
A produção foi idealizada pelo ator Mario Frias, deputado federal (PL-SP) e ex-secretário especial da Cultura do governo Bolsonaro, e retrata episódios da trajetória política do ex-mandatário e da campanha à Presidência em 2018, como a facada que o então candidato levou durante um ato em Juiz de Fora (MG).
A direção é do cineasta americano de origem iraniana Cyrus Nowrasteh, cuja carreira é marcada por filmes de teor religioso e político, como "O Apedrejamento de Soraya M." (2008), "O Jovem Messias" (2016) e "Infidel" (2020). Bolsonaro é interpretado por Jim Caviezel, ator católico conservador que encena Jesus no filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson, e apoia o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
"Dark Horse" protagoniza um dos desdobramentos do caso do Banco Master desde maio deste ano, quando o portal The Intercept Brasil revelou que o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho de Bolsonaro e candidato à Presidência, pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção.
O dono do Master pagou US$ 10,6 milhões (cerca de R$ 54,2 milhões na cotação atual) dos US$ 24 milhões (hoje, aproximadamente R$ 122,7 milhões) negociados com o primogênito do ex-presidente, segundo o Intercept.
Mas em setembro deste ano, reportagem da revista Piauí apontou que Vorcaro fez um repasse adicional de pouco mais de US$ 1,6 milhão (R$ 8,2 milhões na cotação atual) ao fundo Havengate Development Fund em setembro de 2025. Assim, o montante pago pelo ex-banqueiro foi elevado para US$ 12,3 milhões (hoje, cerca de R$ 62,9 milhões).
O valor repassado por Vorcaro supera o orçamento de "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, e "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, que representaram o Brasil nas duas últimas edições do Oscar. A cifra total negociada (US$ 24 milhões) é maior que a de produções como "Valor Sentimental", norueguês que levou a estatueta de melhor filme internacional neste ano.
Flávio admitiu ter pedido dinheiro a Vorcaro e negou ter recebido vantagens do dono do Master. "O que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai", disse. Ao assumir a solicitação, o presidenciável contradisse declarações anteriores em que negou ter qualquer contato com Vorcaro.
Apesar da confirmação de Flávio, a Go Up Entertainment, produtora de "Dark Horse", negou à Folha, em maio, o recebimento de repasses do ex-banqueiro. Na ocasião, Karina Gama, sócia-administradora, afirmou que a empresa tem apenas investimentos estrangeiros, sem ligação com Vorcaro, e disse não poder revelar a fonte de captação de recursos para o filme devido a um acordo de confidencialidade.
Em dezembro de 2025, o portal The Intercept Brasil revelou que o Instituto Conhecer Brasil, ONG de Karina Gama, recebeu R$ 2 milhões de emendas parlamentares -R$ 1 milhão via Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação numa ação de letramento digital e R$ 1 milhão para implantar um projeto de artes marciais. O deputado Mario Frias (PL-SP) foi responsável pela aprovação das duas verbas.
O Instituto Conhecer Brasil também recebeu R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo, gerida por Ricardo Nunes (MDB), para instalar 5.000 pontos de wifi na capital paulista. A gestão municipal afirma que a contratação foi feita "por meio de chamamento público transparente e sem contestações" e que "a organização social cumpriu todas as exigências previstas no edital".
Endereços ligados à produtora e à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia da Prefeitura de São Paulo foram alvos de operação da Polícia Civil de São Paulo em junho deste ano, como parte de um inquérito que apura se houve irregularidades e desvios de recursos do contrato municipal para a equipe de "Dark Horse".
Em agosto, o ministro Flávio Dino autorizou o acesso da PF às provas coletadas pela corporação paulista sobre a Go Up Entertainment. Agora, Dino levou ao STF a investigação que já era feita sobre o filme.
A revelação dos repasses feitos por Daniel Vorcaro para "Dark Horse" é um dos principais pontos de desgaste da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência.
O senador não é alvo da operação desta quinta. Durante ato de campanha em Boa Vista (RR), ele criticou o ministro Flávio Dino, que autorizou a ação da PF.
"Não tem absolutamente nada de errado com esse filme, não tem um centavo do dinheiro público. Pode revirar do avesso. O que tem é uma tentativa de interferência política mais uma vez, agora do ministro Flávio Dino, sobre as eleições", disse.