Adriele da Silva Pinto, 31, entrou no Hospital Vida, em Ilhéus, no sul da Bahia, no início da manhã do dia 25 de agosto para fazer quatro procedimentos estéticos: mastopexia (levantamento da mama) com prótese de silicone, lipoescultura, remodelamento costal (retirada de costelas) e jato de plasma (tratamento na pele para estimular colágeno). Por volta da meia-noite, sua tia recebeu a notícia que ela havia morrido durante a cirurgia.
Quatro anos antes, Petrina Fonseca, 43, saiu de Itabela em direção a Porto Seguro, ambas cidades no sul baiano, para fazer uma lipoaspiração. Sete dias depois, o primeiro ponto da sutura se rompeu. Ela diz que o cirurgião afirmou que era normal e pediu para que continuasse tomando remédios. Meses depois, ela tinha entre a barriga e a virilha um buraco sem pele preenchido por líquido branco. "Achei que fosse morrer", diz.
No início daquele mesmo ano, Mirela (nome fictício) percorria de ambulância o caminho entre as cidades de Itajú do Colônia e Itabuna, na mesma região, quando morreu. Na certidão de óbito, a médica socorrista identificou como causas "insuficiência respiratória aguda, embolia pulmonar, trombose venosa profunda e cirurgia plástica". A reportagem teve acesso ao processo, que está sob segredo de Justiça, por isso optou pelo nome fictício.
As três mulheres tiveram como médico o cirurgião plástico Rossini Tebaldi Ruback. O caso de Adriele é investigado pela Polícia Civil, o de Petrina teve sentença judicial de primeira instância contra o cirurgião e o de Mirela teve inquérito policial encaminhado para o Ministério Público.
O caso mais recente, de Adriele, também é acompanhado pelo MP-BA de forma extrajudicial. "O MP acompanha as investigações policiais em curso e está analisando informações sobre o histórico do profissional investigado para tomada de outras providências cabíveis".
A secretaria de Saúde da Bahia também agiu interditando de forma cautelar o Hospital Vida, que não tinha alvará sanitário para o centro cirúrgico.
A assessoria jurídica do médico diz em nota que não é correta a associação entre episódios independentes e que os dois casos de óbito constituem fatos "absolutamente distintos, com circunstâncias clínicas, temporais e fáticas próprias".
A clínica de Ruback fica em um bairro nobre de Itabuna, também no sul da Bahia. Genro do ex-deputado federal Ronaldo Carletto (Avante), o médico adota o lema "viabilizando sonhos". Ele atende ainda nas cidades de Vitória da Conquista, Porto Seguro, Eunápolis e Salvador.
O registro profissional (CRM) e o registro de qualificação de especialista (RQE) de Ruback estão ativos no site da SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica), em que ele aparece como membro especialista associado.
A morte de Adriele trouxe à tona uma série de relatos de erros médicos envolvendo o profissional em 2023. À época, um grupo de ao menos 30 mulheres se juntou para delatar casos que consideram erro médico, negligência e falta de cuidado pós-operatório.
As pacientes relatam suturas sem anestesia, cirurgias sem estrutura e pós-operatório com dor, necrose, abertura de pontos e deformações. Em comum, elas afirmam que o médico costumava dizer que as queixas eram normais ao pós-operatório e não eram culpa dele, mas da reação de seus próprios corpos ao procedimento feito.
"Foi um pesadelo que eu vivi. Inicialmente não quis processar para não ter que relembrar desse momento", diz Petrina.
Há 29 ações para responsabilizar Ruback por danos morais e estéticos no Tribunal de Justiça da Bahia atualmente. Em 2023, antes de o caso ser divulgado no Fantástico e em outros veículos de imprensa, eram dez.
O advogado Gustavo Azevêdo representa 12 mulheres que afirmam que foram vítimas de Ruback. Segundo ele, um caso teve decisão favorável ao médico. Outros, ajuizados em 2023, até hoje não tiveram a primeira audiência. Apenas um, o de Petrina, teve sentença contrária ao cirurgião.
Petrina conta que, reticente a processar, recebeu uma ligação do advogado para incentivá-la. "Ele disse: ‘Ele fez isso com várias pessoas. Você é só mais uma. Isso vai ficar até quando?’."
Na semana passada, conta a empresária, quando ela viu a notícia sobre a morte de Adriele no telejornal local, disse para o marido: "Era isso que não podia ter acontecido. Esperar chegar uma morte para ver se eles tomam alguma providência".
A morte de Mirela, em 2022, não foi amplamente divulgada. Segundo inquérito policial obtido pela reportagem, a paciente foi internada em um hospital de pequeno porte de Itabuna, voltado para cirurgias oculares, em dezembro de 2021, para realizar abdominoplastia, lipoaspiração de tronco e lipoenxertia de glúteo com Ruback. Ela recebeu alta no dia seguinte e começou a sentir dor de cabeça e falta de ar, sem conseguir se deitar.
A família diz que, em consulta de retorno, Ruback considerou os sintomas normais, receitou remédios e liberou Mirela. Os sintomas persistiram e, 22 dias depois, ela desmaiou. Ruback estaria em Vitória da Conquista, em outra cirurgia, quando soube do caso. A secretária dele, após ser informada da morte, não teria feito mais contato.
Em junho, o MP-BA solicitou informação complementar das instituições de saúde e aguarda retorno para decidir se fará a denúncia.
O Cremeb (Conselho Regional de Medicina da Bahia) foi informado sobre o caso, mas afirma que "não há expediente de sindicância ou processo ético-profissional em tramitação no Tribunal de Ética Médica que cite o médico em questão".
Em 2023, havia pelo menos sete representações sendo investigadas no conselho. Todas foram indeferidas ou arquivadas.
Se um médico for condenado em um processo ético-profissional, a lei prevê cinco penalidades em ordem crescente de gravidade: advertência confidencial, censura confidencial, censura pública, suspensão do exercício por até 30 dias e cassação do registro.
A SBCP só pode instaurar processos para investigar um médico e expulsá-lo da sociedade se houver alguma condenação tanto pelo conselho regional, quanto pela Justiça. Eles avaliam mudar o estatuto para analisar casos individualmente.
O escritório de advocacia LARC, que defende Ruback, afirma que é necessário distinguir a denúncia de responsabilidade efetivamente reconhecida. "A simples existência de reclamações ou procedimentos de apuração não constitui prova de erro médico." O cirurgião, diz a nota, possui mais de 3.000 procedimentos cirúrgicos realizados ao longo de sua carreira, "com expressivo número de pacientes satisfeitas".
Quanto às ações na Justiça, afirma a defesa, Ruback já obteve decisões favoráveis na maioria dos processos apreciados, com apenas duas sentenças desfavoráveis, às quais está recorrendo.
Adriele morava nos Estados Unidos e veio passar uma temporada com a família em Ituberá. Ela aproveitou para realizar os procedimentos estéticos que queria por cerca de R$ 50 mil.
Segundo o advogado da família, Néry Santana, Adriele chegou ao hospital às 7h, foi internada às 10h e tinha exames pré-operatórios normais. Durante o dia, afirma, a equipe deixou de informar a tia dela, que a acompanhava. À meia-noite, um funcionário comunicou a morte e um médico assinou o atestado de óbito.
O hospital estava fechado, afirma Santana, e o irmão da acompanhante, também tio de Adriele, quebrou uma porta para entrar. A família encontrou o corpo em um saco no centro cirúrgico sem a equipe médica. A polícia foi chamada e o removeu para necropsia.
A defesa de Ruback não explica por que ele não comunicou a morte à família e atribui sua ausência à invasão do tio. "Após o grave episódio de violência e depredação ocorrido nas dependências do hospital, o médico e a equipe foram orientados, por questão de segurança, a permanecer em local protegido e aguardar a chegada da autoridade policial." Além disso, diz que a anestesiologista da equipe, que acompanhou a intercorrência, assinou o atestado de óbito.
Em nota, o advogado do médico atribui a morte a hipertermia maligna, reação rara e grave a alguns anestésicos. A defesa não diz se o hospital tinha dantroleno, medicamento que reverte a condição e é exigido pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) em locais com anestesia.
Petrina afirma que conhece mulheres operadas por Ruback que tiveram sucesso nos procedimentos. "O problema dele não é com quem dá certo. O problema é com quem começa a dar alguma coisa errada. Ele não tem o pós-operatório. Na hora dos erros, ele dá aquele pulo para trás. Deixa meio que abandonada a pessoa."