“É uma angústia para o pai, para a mãe, para a família toda. Incansavelmente, a gente sempre procurava.”
José Pereira, de 56 anos, pai de Tiago Gomes Pereira, de 26 anos, recordou o período sem respostas pelo jovem e como foi a dinâmica que resultou na localização dos restos mortais na manhã deste domingo, 23, na região da Cachoeira Cascata Grande, no Parque Estadual Furnas do Bom Jesus, em Pedregulho. O jovem estava desaparecido desde 21 de junho, quando saiu de casa levando uma bicicleta, uma pochete e uma sacola com dois pães.
Durante cerca de dois meses, José e outros familiares percorreram áreas de mata, grotas e precipícios em busca de Tiago. Mesmo trabalhando durante a semana, eles aproveitavam os fins de semana para continuar as buscas.
No domingo anterior, dia 16, a família chegou a caminhar cerca de 15 quilômetros pela região, mas não encontrou nenhuma pista. Na manhã deste domingo, José e os familiares decidiram retornar a uma área de precipícios.
Ao passarem por uma grota, José sentiu um cheiro desagradável e percebeu a presença de urubus. A partir daquele momento, a família decidiu intensificar as buscas naquele trecho.
“Aí sentimos um cheiro desagradável lá embaixo. Aí falei pro meu filho (irmão de Tiago): ‘ó, tá por aqui o cheiro desagradável’.”
Eles seguiram em direção à cachoeira e, ao se aproximarem, encontraram os restos mortais. “Quando chegamos perto da cachoeira, nós vimos o corpo dele lá, o resto dele.”
Os restos estavam em avançado estado de decomposição. José acredita que animais possam ter mexido no corpo, hipótese que, segundo ele, também foi considerada pela perícia.
Apesar do tempo transcorrido, alguns objetos de Tiago foram encontrados no local. Entre eles estavam o celular, que permanecia no bolso, uma bateria portátil e os óculos de grau.
José acredita que Tiago possa ter sofrido uma queda enquanto explorava a região. Segundo o pai, o jovem tinha interesse por biologia e era uma pessoa curiosa.
“Eu acredito que, pelo que ele fazia, que é biologia, tinha muita curiosidade. Ele foi averiguar embaixo, mas não foi pro lado certo. Ele escorregou e caiu.”
Um galho encontrado próximo ao local também chamou a atenção da família. José acredita que o filho possa ter tentado se apoiar nele antes da queda. “Eu acho que, no último momento, ele tentou se apoiar nele e soltou-se junto.”
Após a localização, equipes do Corpo de Bombeiros realizaram os procedimentos necessários no local. José acompanhou o trabalho e afirmou que a área era de difícil acesso, com uma ladeira que, segundo sua estimativa, teria cerca de 60 metros de altura ou até mais.
A confirmação de que Tiago havia sido encontrado - segundo a identificação da família - trouxe sentimentos contraditórios para José e toda a família. Depois de dois meses sem respostas, a dor da descoberta se misturou ao alívio de finalmente saber onde o jovem estava. “É um alívio. É um alívio pra família.”
José descreveu o momento em que encontrou o filho como um dos mais difíceis de sua vida. Ele estava acompanhado de Carlos, irmão de Tiago. Os dois se abraçaram e choraram.
“Você vê o filho da gente saindo pronto para a vida e vê ele todo desfigurado. É muito triste. Eu abracei o Carlos, nós choramos muito.”
Mesmo diante da dor, José afirmou que o fim das buscas encerra uma angústia que acompanhava a família desde o desaparecimento. “Mas, em certo sentido, tem alívio. A gente tem um alívio em saber que encontrou ele, porque a angústia danada era a gente nunca encontrar.”
Ao falar sobre Tiago, José se emocionou ao lembrar das qualidades do filho, descrito por ele como um jovem honesto, inteligente e simples. “Ficam as boas lembranças de um menino bom, um rapaz bom.”
“Ele não gostava de nada errado. Era um menino muito inteligente, sempre procurava obter as coisas dele com simplicidade”, finalizou.