23 de agosto de 2026
POLÍTICA

Flávio Paradella: Chedid joga pressão no colo de Dário

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 6 min
Divulgação/PMC
Após ter vitória anulada pelo TCE, Sancetur oferece 320 ônibus a Campinas e Marquinho Chedid aumenta pressão sobre Dário Saadi.

A tinta da decisão do Tribunal de Contas do Estado que derrubou o leilão do transporte coletivo de Campinas praticamente nem secou e Marquinho Chedid já tratou de ocupar o espaço político aberto pela nova crise. Representante da Sancetur, vencedora do Lote Sul na disputa anulada, o empresário ofereceu à Prefeitura até 320 ônibus novos e seminovos para uma eventual operação emergencial do atual sistema. É uma proposta empresarial, claro, mas também um movimento político dos mais evidentes: Chedid colocou o problema no colo do prefeito Dário Saadi.

A posição da Sancetur nesta história é bastante confortável. A empresa perdeu, por decisão do TCE, uma vitória que havia conquistado na B3, mas não foi ela a protagonista das principais polêmicas que atingiram os vencedores do certame nos últimos meses. Também não participa da operação atual, marcada por milhares de quebras, veículos envelhecidos, superlotação, atrasos e incêndios. Portanto, consegue olhar para o caos de fora e dizer: tenho ônibus, tenho estrutura e estou disposto a entrar.

Foi exatamente o que fez.

No ofício enviado ao prefeito, a empresa colocou à disposição até 320 veículos fabricados entre 2024 e 2026, além de estrutura operacional e pessoal. Para justificar a oferta, ainda utilizou números que são particularmente dolorosos para a administração: mais de 24 mil ocorrências de ônibus quebrados somente no primeiro semestre deste ano e dezenas de milhares de multas aplicadas aos operadores.

Chedid encontrou um terreno perfeito para seu conhecido estilo de enfrentamento. Em vez de assumir a posição de empresário prejudicado pela anulação de um leilão que havia vencido, preferiu apresentar-se como alguém capaz de oferecer uma resposta imediata para um problema que a Prefeitura não consegue resolver há anos.

Se é juridicamente possível colocar essa proposta em prática, é outra discussão — e uma discussão fundamental.

Não basta uma empresa dizer que possui centenas de ônibus disponíveis para que a Prefeitura simplesmente autorize sua entrada no sistema. Uma eventual contratação emergencial precisa respeitar as regras legais, técnicas, operacionais e administrativas aplicáveis, além de evitar qualquer situação que possa representar vantagem futura na nova concorrência. A própria Sancetur fez questão de registrar que sua oferta não pretende antecipar o resultado do próximo leilão.

Mas politicamente o movimento já produziu efeito antes mesmo de qualquer parecer técnico.

Se a Prefeitura disser que não pode aceitar a proposta, terá de explicar por quê. E fará isso para uma população que diariamente enfrenta um sistema deteriorado e que acaba de assistir ao TCE mandar refazer uma licitação aguardada há anos. A pergunta mais simples — e também a mais perigosa para o governo — será inevitável: se existem 320 ônibus mais novos disponíveis, por que eles não podem atender Campinas?

Pode haver uma resposta jurídica absolutamente consistente. O problema é que o desgaste político não necessariamente acompanha a complexidade do Direito Administrativo.

E Chedid sabe disso.

O empresário foi além durante entrevista à Jovem Pan News Campinas. Confirmou que pretende colocar a Sancetur novamente no leilão e tentar vencer outra vez o lote conquistado em março. Portanto, ninguém deve interpretar sua movimentação apenas como gesto desinteressado diante das dificuldades enfrentadas pelos passageiros. Existe um contrato bilionário novamente em disputa e a empresa continua interessadíssima nele.

Ao mesmo tempo, Chedid aproveitou para aumentar a temperatura contra a administração municipal e, especialmente, contra o presidente da Emdec, Vinícius Riverete. Ao comentar a possibilidade de a nova concorrência ocorrer rapidamente, ironizou: “Porque vai ter uma licitação em setembro, outubro. O presidente da EMDEC é mágico?”

É uma provocação que atinge um ponto sensível.

Depois da decisão do TCE, a Prefeitura terá de reorganizar a etapa de propostas, atualizar valores e cumprir os procedimentos necessários para realizar novamente o leilão. Tudo isso em um processo que já mostrou como qualquer erro pode custar meses de atraso.

Prometer velocidade agora também significa assumir o risco de produzir mais uma frustração.

E aqui aparece talvez o maior problema para Dário Saadi. O prefeito não enfrenta apenas um empresário disposto a explorar politicamente o momento. O governo perdeu boa parte de sua capacidade de reclamar da pressão porque o revés que permitiu essa ofensiva nasceu de falhas apontadas pelo próprio Tribunal de Contas na condução municipal do certame.

Foi a Prefeitura que organizou a licitação. Foi o procedimento municipal que acabou considerado irregular na etapa das propostas. E é a administração que agora precisa voltar algumas casas e reorganizar uma concorrência apresentada durante anos como a solução para o transporte de Campinas.

Chedid apenas enxergou a oportunidade.

Sua oferta tem uma construção política inteligente: se for aceita, a Sancetur coloca seus ônibus dentro de Campinas e demonstra capacidade operacional justamente às vésperas de disputar novamente a concessão; se for rejeitada, o empresário pode dizer que ofereceu uma alternativa para melhorar o sistema e que a Prefeitura não quis ou não pôde aceitá-la.

É uma situação em que o governo terá dificuldade para sair sem algum arranhão.

Isso não transforma Chedid em salvador do transporte campineiro, como a própria movimentação pode sugerir. A Sancetur é uma empresa privada que disputa um negócio gigantesco e age de acordo com seus interesses. Mas também não elimina a enorme fragilidade política em que a Prefeitura se colocou depois de mais um fracasso na tentativa de renovar o sistema.

Dário agora precisa administrar simultaneamente um transporte velho, uma licitação anulada, um novo leilão a ser organizado e uma empresa que apareceu oferecendo 320 ônibus praticamente na porta do Paço Municipal.

E o representante dessa empresa ainda avisa que estará novamente na disputa.

Marquinho Chedid perdeu uma vitória no TCE, mas rapidamente encontrou uma maneira de transformar a derrota jurídica em ofensiva política.

Agora a bola está com Dário.

E, nesta interminável novela do transporte de Campinas, quase tudo o que chega ao colo do prefeito ultimamente parece chegar pegando fogo.

Ironia do destino


Reprodução/EPTV

Interessante como a realidade mostra que, mesmo que se coloque em um pedestal de salvador, Chedid não escapa de problemas similares com a sua empresa. O grupo comanda o transporte em vários municípios da região, com nomenclara SOU.

Em Indaiatuba, uma roda se soltou de um ônibus do transporte público enquanto o veículo estava em movimento e atingiu um carro estacionado na tarde de quarta-feira, no bairro Recreio Campestre. O caso aconteceu na Alameda Comendador Doutor Santoro Mirone. Imagens de câmeras de segurança mostram o coletivo seguindo pela via quando a roda se desprende, atravessa a pista e vai em direção ao automóvel parado.

Segundo a empresa responsável pelo transporte, o ônibus estava sem passageiros e a caminho da manutenção no momento do incidente. A Sou Indaiatuba informou que, antes de chegar à manutenção, houve o desprendimento da roda e o carro estacionado acabou danificado.

Ninguém ficou ferido.

A proprietária do veículo atingido relatou que a empresa entrou em contato para providenciar o orçamento dos reparos. A concessionária informou que vai assumir os custos do prejuízo causado ao automóvel.