A dramaturgia brasileira perdeu nesta terça-feira (18) uma de suas maiores intérpretes. A atriz Glória Menezes morreu aos 91 anos, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela família. Ela estava em casa e, até o momento, a causa da morte não foi divulgada.
Nascida Nilcedes Soares Guimarães, em Pelotas (RS), em 19 de outubro de 1934, Glória Menezes construiu uma das carreiras mais longevas e respeitadas da televisão brasileira. Foram mais de seis décadas dedicadas à arte, com trabalhos no teatro, no cinema e na televisão.
Sua trajetória começou ainda nos palcos e, posteriormente, ganhou projeção na televisão. Na Globo, onde estreou em 1967, em “Sangue e Areia”, a atriz participou de mais de 40 novelas.
Ao longo dos anos, Glória Menezes transitou com naturalidade entre o drama, a comédia, o romance e personagens de forte densidade psicológica. Entre seus trabalhos mais lembrados estão novelas como “Irmãos Coragem”, “Guerra dos Sexos”, “Brega & Chique”, “Rainha da Sucata”, “Deus nos Acuda”, “A Próxima Vítima”, “Torre de Babel”, “O Beijo do Vampiro”, “Senhora do Destino”, “A Favorita” e “Totalmente Demais”, sua última novela.
Um dos traços mais marcantes de sua carreira foi justamente a capacidade de não ficar presa a um único tipo de personagem. Glória Menezes foi protagonista, vilã, personagem cômica e dramática, mostrando uma versatilidade que a colocou entre os nomes mais importantes da história da teledramaturgia brasileira.
Em “Rainha da Sucata”, por exemplo, viveu Laurinha Figueiroa, uma de suas personagens mais populares. Já em trabalhos como “Guerra dos Sexos” e “Brega & Chique”, explorou com enorme sucesso o humor e a comédia.
Sua carreira também foi marcada pela disposição para se transformar em função dos personagens, chegando a raspar os cabelos para determinados trabalhos. A dedicação ajudou a consolidar a imagem de uma atriz que não tinha medo de se reinventar.
Antes de se tornar um dos rostos mais conhecidos da televisão, Glória também deixou sua marca no cinema.
Um dos momentos de destaque foi sua participação em “O Pagador de Promessas”, filme dirigido por Anselmo Duarte que conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. A produção se tornou um dos grandes clássicos do cinema brasileiro e ajudou a projetar internacionalmente a dramaturgia nacional.
No teatro, sua formação e seus primeiros trabalhos ajudaram a construir a base de uma carreira que posteriormente se estenderia por gerações.
A trajetória artística de Glória Menezes também se confunde com uma das histórias de amor mais conhecidas dos bastidores da televisão brasileira.
Ela foi casada durante 59 anos com o ator Tarcísio Meira, morto em 2021. Os dois formaram um dos casais mais admirados da dramaturgia nacional e dividiram inúmeros trabalhos na televisão.
Glória e Tarcísio estiveram juntos em produções como “Irmãos Coragem”, “Guerra dos Sexos”, “A Favorita” e “Páginas da Vida”, além de projetos que exploraram a própria relação dos dois diante das câmeras.
A morte de Tarcísio, em agosto de 2021, encerrou uma parceria pessoal e profissional que atravessou décadas. Nos anos seguintes, Glória passou a ter uma vida mais reservada, com aparições públicas cada vez mais raras.
Mais do que a quantidade de novelas, filmes e peças em seu currículo, Glória Menezes deixa como herança a contribuição para a consolidação da dramaturgia brasileira como uma das mais importantes do mundo.
Ela pertence a uma geração de artistas que ajudou a transformar a televisão em um dos principais espaços de expressão cultural do país. Sua carreira acompanhou praticamente toda a evolução da teledramaturgia brasileira, desde os primeiros anos da televisão até a era das grandes produções e das plataformas digitais.
Premiada diversas vezes, recebeu reconhecimento por sua atuação e por sua trajetória artística, incluindo o Troféu Oscarito, do Festival de Gramado, e o Troféu Mário Lago.
Glória Menezes deixa, portanto, muito mais do que uma coleção de personagens. Deixa uma escola de interpretação, uma história de dedicação ao ofício e uma galeria de personagens que permanecem na memória de milhões de brasileiros.
A atriz que durante décadas entrou diariamente na casa do público agora deixa definitivamente os palcos e as telas. Mas, como acontece com os grandes artistas, sua presença permanece registrada na memória afetiva de várias gerações.