O que faz uma pessoa cair no velho golpe do bilhete premiado, inocência ou ganância? Em Bauru, a Polícia Civil recebeu uma vítima de estelionato, nesta quinta-feira (13), que relatou ter sofrido um golpe de R$ 70 mil por conta de uma promessa, muito bem elaborada, com uso de chamada telefônica, inclusive, de receber R$ 600 mil de um suposto bilhete premiado. Este “conto do vigário”, como foi conhecido nas décadas de 30 e de 40, teve seus primeiros registros no Brasil há mais de 90 anos, em 1934, na Capital São Paulo.
Segundo o registro policial, uma mulher de 68 anos foi abordada na Vila Alves Seabra, por um indivíduo desconhecido, de aparência simples e forte sotaque caipira, que afirmava estar procurando uma pessoa vinculada a uma loja de malhas. Durante a conversa, outro homem aproximou-se e passou a interagir com ambos, demonstrando interesse em auxiliar o primeiro indivíduo. E é aí que o golpe se inicia, porque esses dois homens, que fingem não se conhecer, são cúmplices do golpe. Este segundo homem passou a narrar que possuía um bilhete premiado, através do qual teria sido contemplado por aproximadamente R$ 600 mil e uma televisão. Alegava, contudo, não ter condições de receber o prêmio em razão da ausência de documentos pessoais e da impossibilidade de comparecimento de sua genitora, que teria realizado cirurgia na perna. O comparsa, que fingia ter um interesse inicial, acabou dizendo que não poderia receber dinheiro de jogo, devido à sua religião.
Ainda segundo o relato da vítima, o estelionatário apresentou comprovantes e também uma ligação telefônica para uma suposta central de atendimento financeiro, ocasião em que uma mulher atendeu, sendo ela parte também desse grupo criminoso, e confirmou a existência da premiação e orientou que a vítima e o outro homem poderiam atuar como testemunhas para auxiliar no recebimento dos valores. Ainda segundo o relato, os autores apresentaram recibos aparentando ser emitidos por instituição financeira, na tentativa de dar credibilidade à história narrada. Após sucessivas conversas e manobras fraudulentas, a vítima foi convencida a disponibilizar recursos financeiros e depositar valores que somaram R$ 70 mil. A mulher também informou que, após a transferência dos valores, os autores continuaram mantendo contato e insistindo para que fossem providenciadas novas quantias em dinheiro, sob a alegação de que ainda seriam necessários mais recursos para a liberação do prêmio. Nesse momento, a vítima passou a desconfiar da situação e, ao refletir sobre os fatos ocorridos, percebeu que havia sido induzida a um golpe. O caso será investigado.
COMO ERA O GOLPE NA DÉCADA DE 30
A estrutura já era bastante parecida com a atual nos anos 30 e 40: um golpista se apresentava como uma pessoa simples e ingênua, geralmente dizendo que não sabia como receber o prêmio. Mostrava um bilhete supostamente premiado. Surgia um segundo personagem, o chamado “ajudante”, que confirmava a história e reforçava a autenticidade do bilhete. A vítima era convencida de que poderia ajudar o suposto ganhador e receber uma parte do prêmio. Para garantir a negociação, entregava dinheiro ou objetos de valor. Depois, os golpistas desapareciam.