O homem aprendeu a conversar bioquimicamente com as células, podendo modular suas funções in vivo ou em vitro nos laboratórios. Temos três mecanismos para detectar e destruir células defeituosas no dia a dia que poderiam gerar um câncer, como mostramos no artigo anterior:
1º) São as poderosas células NK ou “natural killer” que têm permissão para matar se desconfiar de que algo estranho em uma célula.
2º) O gene p53 que fica atento internamente. Se a célula ficar defeituosa, ele a obriga ao suicídio chamado apoptose.
3º) Se a célula defeituosa escapar das NK e do p53, ainda temos os linfócitos T do sistema imune que irão matá-las.
Os mecanismos falham mais quando não se alimenta bem, é sedentário, não dorme bem e ou vive estressado. Aí as células atípicas sobrevivem, se sentem poderosas e livres para proliferar sem controle do organismo.A grande quantidade de mitoses no dia a dia, as mutações herdadas e as causas externas, favorecem o aparecimento de um clone celular atípico.
O REVIDE DO ORGANISMO
Estamos em plena oportunidade de evoluir na terapêutica das neoplasias malignas. Para entendermos como, podemos simular a conversa entre a mente subconsciente do paciente ou do cientista, e as células atípicas que agora constituem um câncer. Elas vieram de uma célula atípica que escapou da vigilância constante. Eis a conversa.
- Vocês conseguiram escapar e driblaram o reconhecimento da estranheza de suas proteínas pelo organismo. Agora, no paciente, vamos pegar as células T, mas podem ser as células NK, e as “re-nsinaremos” como reconhecer você e suas proteínas estranhas em laboratório. Daremos capacidade funcional para elas corrigir esta falha. Essas células T serão geneticamente modificada para isto, serão células CAR-T ou “linfócitos T com receptor quimérico de antígeno”.
- Assim que readquirirem esta capacidade funcional, vamos reproduzir e reintroduzi-las no organismo inicial com a neoplasia maligna. Elas irão atuar agora contra as células neoplásicas malignas e em muitos pacientes e certos tipos de cânceres, isto vai curar o paciente.
É um verdadeiro revide para as células imunológicas que foram enganadas e uma forma de terapêutica oncológica com mais eficiência e poucos efeitos colaterais. O nome mais conhecido desta tecnologia é células CAR-T ou CAR-NK.
Esta tecnologia está dominada pela USP de Ribeirão Preto, onde fica o Nutera-RP ou Núcleo de Terapia Avançada de Ribeirão Preto, o maior centro de produção ou “fábrica” de linfócitos T geneticamente modificados.
Estas pesquisas e tecnologias, a USP faz junto com outras universidades, hospitais conveniados e representa um alto investimento dos governos estaduais e federal, via Fapesp, CNPq e Finep, sem contar que a iniciativa privada participa ativamente. São feitas por cientistas brasileiros e também com grupos transnacionais de pesquisa.
REFLEXÃO FINAL
Na juventude, eu via e ouvia professores e cientistas viajando nestas ideias que pareciam distantes e ia junto, como na época fazia o jovem Drauzio Varella. O tempo passou e a pandemia e sofrimentos sensibilizaram a colocação destas ideias na prática. Sem contar que ainda temos a fabricação em laboratório de anticorpos específicos para certas neoplasias, com efeitos colaterais bem menores que os quimioterápicos.
A mim parece que o futuro chegou, mas para quem está chegando a pouco no planeta, parece que sempre foi assim! A ciência nos dá esta sensação de progresso para todas as gerações.