06 de agosto de 2026
TRANSPORTE

Ferroviários aceitam proposta e encerram greve nas linhas da CPTM

Por Clayton Castelani, Francisco Lima Neto, André Fleury Moraes e Leandro Machado | da Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/TV Globo
Ônibus lotado por conta da greve dos metroviários, nesta quarta-feira

SO Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil decidiu em assembleia extraordinária nesta quarta-feira (5) encerrar a greve que afeta parcialmente o transporte sobre trilhos na Grande São Paulo desde a terça-feira (4).

A categoria protestava contra a concessão das linhas e as falhas apresentadas pela Trivia Trens após a empresa assumir as linhas que eram da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

Com a decisão tomada em assembleia, o serviço nas linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade começou a ser retomado integralmente. Eles permanecem em estado de greve, podendo voltar a interromper a operação a qualquer momento mediante nova votação.

A quantidade de trens circulando ainda estava muito abaixo do normal por volta das 18h desta quarta, mas o número de passageiros também era menor, possivelmente, porque muitos decidiram não utilizar o sistema.

Na estação Brás, a plataformas para embarcar nas linhas 11 e 12 não tinham a lotação observada na véspera nesse mesmo horário.

Apesar das plataformas ligeiramente mais vazias, os trens chegavam à estação lotados. Usuários que habitualmente embarcam no local e que chegam de metrô preferiram fazer a integração em paradas anteriores, como Luz e Palmeiras-Barra Funda.

"Todo dia é difícil de entrar e hoje, apesar da plataforma mais vazia, o vagão já está chegando ainda mais lotado", conta a analista de vendas Geovana Almeida, 20.

Moradora de Guaianases, na zona leste, ela retornava do trabalho em Santo Amaro, na zona sul. O trajeto, normalmente percorrido em duas horas, estava levando três horas nestes dois dias de greve.

Na estação Engenheiro Goulart (zona leste), alguns trens da linha 12-Safira passaram a fazer o trajeto completo até Calmon Viana, na cidade de Poá, pouco antes das 19h. Isso rapidamente esvaziou a plataforma, dando aspecto de normalidade ao serviço.

Também por volta das 19h, a linha 13-jade havia voltado a operar entre Engenheiro Goulart e a cidade de Guarulhos.

Nos dois casos, porém, a circulação ainda estava com intervalos mais longos. A retomada lenta era necessária para aguardar movimentações de composições que estavam paradas em trechos à frente, disse um funcionário da CPTM.

Na linha 11-coral, às 19h30, passageiros foram informados pelo sistema de som no interior do vagão lotado que o trem seguiria até a estação Estudantes, em Mogi das Cruzes, em vez de ter a circulação interrompida em Guaianases. O aviso sonoro indicava, portanto, que o serviço voltava ao percurso habitual.

Os ferroviários também decidiram que funcionários da Trivia não poderão mais entrar nas cabines dos trens para observar a operação dos funcionários da CPTM.

Hoje, os empregados da empresa privada estão acompanhando a operação, como uma espécie de novo treinamento. É como se tivessem repetido de ano, porque já fizeram o treinamento, e agora estão refazendo a lição, disse um trabalhador.

O diretor sindical Luiz Junior disse que irá encaminhar essa deliberação à direção da CPTM. Isso não significa que a CPTM irá deixar de operar os trens no período determinado pelo governador após as falhas das últimas semanas.

A proposta de retorno ao trabalho, conforme o sindicato, recebeu 131 votos favoráveis; outros 26 trabalhadores votaram pela continuidade da paralisação.

"A deliberação ocorre após o Governo do Estado apresentar uma proposta que contempla avanços nas reivindicações da categoria, especialmente em relação às garantias buscadas pelos ferroviários durante o processo de concessão", disse a categoria em nota na tarde desta quarta.

O protesto dos trabalhadores envolve as ferrovias privatizadas. As linhas 11, 12 e 13 foram concedidas à empresa Trivia Trens no fim de junho. O serviço ainda permanece sob operação do governo, porém, porque falhas no início da operação privada levaram a Artesp (agência reguladora) a devolver os ramais para a CPTM por 90 dias.

A votação do sindicato tinha como principal tema uma proposta da Justiça do Trabalho para encerrar a greve. O desembargador Francisco Ferreira Jorge Neto, vice-presidente do TRT-2, propôs que o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) garantisse não apenas os empregos dos trabalhadores das vias paralisadas, como o governador já havia prometido, mas também dos funcionários da linha 10-Turquesa, que não foi concedida à iniciativa privada.

Mais cedo, Freitas havia afirmado, em entrevista no Palácio dos Bandeirantes, que pretende enviar um projeto de lei à Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) para a manutenção dos atuais trabalhadores.

A Justiça do Trabalho também aumentou a multa diária para R$ 5 milhões caso 90% dos funcionários das linhas não trabalhassem em horário de pico, e 70% nos demais horários, mas também aceitou cancelar as multas de R$ 400 mil já aplicadas pelos dois dias de greve caso o sindicato aprovasse a sua proposta.

Usuários dos trens metropolitandos encararam por dois dias um cenário de tumulto e longas esperas para chegarem aos seus destinos.

Os ônibus da operação Paese (Plano de Atendimento entre Empresas em Situação de Emergência) se mostraram insuficientes e houve empurra-empurra entre quem esperava para embarcar.

Na manhã desta quarta, o cenário era de dificuldade para os passageiros. Às 8h33, o pedreiro Erasmo Carlos da Mata, 58, apontou para a tela do celular. "Estou três minutos atrasado", disse, "e nem sei a que horas vou chegar".

Ele aguardava um trem na estação Engenheiro Goulart, na zona leste, terminal que opera as linhas 12-Safira e 13-Jade da CPTM. Ambas foram afetadas pela greve.

Morador de Itaquaquecetuba, ele saiu às 5h de casa e ainda estava a 16 quilômetros de seu local de trabalho, o bairro Chácara Klabin, quando conversou com a Folha de S.Paulo.

O trajeto costuma levar uma hora e meia para ser concluído em dias comuns, mas se estendeu por mais de quatro horas nesta quarta-feira. "Ontem eu avisei que não deu para ir. Hoje eu tive que me virar. O patrão não vai abonar meu dia", afirmou.

O analista de trade marketing Gustavo Fagundes, 23, saiu de casa em Guarulhos por volta das 6h e ainda não havia chegado ao trabalho, no Tatuapé, quando conversou com a reportagem. "Geralmente levo meia hora; hoje já são mais de duas", disse.

O mesmo aconteceu com o autônomo Gilson Pereira Souto, 57, morador de Itaquera. "Eu saí de casa um pouco mais cedo e ainda não cheguei a São Miguel Paulista, onde trabalho", diz. A greve, na avaliação dele, "está prejudicando o povo que trabalha".