05 de agosto de 2026
EXCLUSIVO

'Ninguém governa com este Congresso', afirma Simone Tebet

Por Pedro Dartibale | do Portal GCN / Rede Sampi
| Tempo de leitura: 9 min
Pedro Dartibale/GCN
Simone Tebet concedeu entrevista exclusiva à Rede Sampi

A ex-ministra do Planejamento e Orçamento e candidata ao Senado por São Paulo, Simone Tebet (PSB), afirmou que nunca imaginou ocupar cargos eletivos e atribuiu sua trajetória política ao combate às desigualdades sociais e à defesa da democracia. Tebet também denfendeu uma mudança de prioridades pelos parlamentares. "Ninguém governa o Brasil com esse Congresso."

Durante entrevista ao jornalista Corrêa Neves Jr., do Portal GCN/Rede Sampi, no podcast Arena GCN (assista na íntegra acima), na segunda-feira, 3, Tebet relembrou a passagem pela Prefeitura de Três Lagoas (MS), pelo Senado e pela disputa presidencial em 2022; defendeu o agronegócio sustentável, criticou a polarização política e o orçamento secreto, comentou a relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e apresentou as prioridades que pretende levar ao Senado caso confirme a candidatura por São Paulo.

'Nunca imaginei ter mandato'

Logo no início da entrevista, Tebet disse que sua entrada na política aconteceu de forma inesperada. Segundo ela, o plano inicial era seguir carreira no Direito e na docência.

"Eu nunca imaginei, nem nos meus melhores sonhos, que uma menina do interior do interior do Brasil chegaria onde chegou. Eu nunca sequer queria ser candidata a alguma coisa."

Natural de Mato Grosso do Sul, ela contou que ingressou muito jovem na faculdade e começou a lecionar ainda aos 22 anos.

Segundo a ex-ministra, sua motivação sempre esteve ligada ao combate às desigualdades. "A injustiça sempre foi o que mais me doeu. A injustiça da fome, da miséria, de uma mãe que não tem um teto para criar os filhos."

Ela afirmou que demorou cerca de quatro anos para aceitar disputar uma eleição porque acreditava ser uma pessoa reservada. "Eu achava que era tímida demais para a política. Meus alunos insistiam: 'Você tem que entrar para a vida pública'."

Apesar disso, lembra que já participava da vida política antes mesmo dos mandatos. "Eu fui aquela jovem de 15 anos com cartaz na rua defendendo as Diretas Já."

As 'primeiras vezes'

Ao recordar sua trajetória, Simone Tebet destacou que ocupou diversos cargos inéditos para mulheres em Mato Grosso do Sul e no Congresso Nacional.

Ela lembrou ter sido a primeira prefeita eleita de sua cidade, a primeira vice-governadora do Estado, a primeira presidente da Comissão de Combate à Violência contra a Mulher no Senado e também a primeira mulher candidata à Presidência do Senado em mais de dois séculos de história da Casa.

Segundo ela, a candidatura ao comando do Senado teve um objetivo claro. "Eu sabia que ia perder. Fui candidata para denunciar o orçamento secreto, as emendas secretas e tudo aquilo que ainda hoje continua acontecendo."

A candidatura à Presidência

Ao recordar a eleição de 2022, Simone Tebet disse que tinha consciência das dificuldades enfrentadas por uma candidatura de centro em um ambiente fortemente polarizado. "Claro que quem entra numa eleição quer ganhar. Mas eu sabia que a chance era muito pequena."

Ela explicou que aceitou disputar a Presidência para levar alguns temas ao debate nacional. Entre eles, citou a condução da pandemia e os ataques às instituições democráticas. "Eu queria ser uma voz feminina falando sobre o que aconteceu na pandemia, sobre a CPI da Covid e sobre o atraso das vacinas."

'Eu já sabia quem apoiaria'

Questionada sobre o apoio declarado a Lula no segundo turno, Tebet afirmou que essa decisão já estava definida durante a campanha.

Segundo ela, havia apenas um candidato comprometido com a democracia. "Eu tinha convicção de que as urnas não colocariam dois democratas no segundo turno."

Ela voltou a criticar Jair Bolsonaro pelas críticas ao sistema eleitoral e pelos acontecimentos posteriores às eleições. "Bolsonaro não era democrata. E os fatos de janeiro mostraram isso."

'O que me une ao Lula é maior do que o que me separa'

Questionada sobre as dificuldades enfrentadas pelo governo, Simone Tebet afirmou que nunca deixou de apresentar divergências ao presidente.

Segundo ela, o compromisso com a democracia e a defesa da soberania nacional sempre falaram mais alto. "O que me une ao presidente Lula é infinitamente maior do que o que me separa: a democracia e a defesa da soberania brasileira."

Ainda assim, reconheceu que há pontos que considera equivocados. "Eu não acho que tenha sido um erro só. Acho que foram vários."

Para Tebet, o principal problema da gestão Lula foi a comunicação. Segundo ela, o governo deixou de dialogar com uma parcela significativa da população. "Desde o começo eu dizia ao presidente: nós estamos falando só para a nossa bolha."

Ela contou que fez esse alerta pessoalmente a Lula. "Eu falei para ele: 'Presidente, a culpa é do senhor'."

Na sequência, explicou o motivo.

Segundo Tebet, os programas sociais implementados desde os primeiros governos petistas ajudaram milhões de brasileiros a ascender economicamente, mas o discurso do governo continuou focado apenas nos mais pobres.

"O senhor transformou uma grande parte da população pobre em classe média. Hoje a maioria dos brasileiros é classe média, mas o senhor não fala com essa classe média."

Ela afirmou que políticas públicas voltadas a esse grupo existem, mas não são comunicadas adequadamente. "O senhor faz pela classe média, mas não fala para a classe média."

Como exemplo, citou a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. "O governo deu isenção para quem ganha até R$ 5 mil e não comunica isso."

Também lembrou iniciativas como o Desenrola Brasil. "O Desenrola também foi pensado para a classe média, mas isso quase não aparece."

Segundo Tebet, Lula reconheceu o problema. "Ele concordou comigo. Disse que realmente precisava mudar essa comunicação."

'Nunca votei em Bolsonaro'

Ao comentar as críticas recebidas por setores conservadores, Tebet afirmou que sua posição sempre foi coerente. "Eu nunca votei em Bolsonaro."

Ela lembrou que, em 2018, apoiou a candidatura do MDB e, em 2022, disputou a Presidência. "Você não vai encontrar uma foto minha fazendo campanha para Bolsonaro."

Segundo a ex-ministra, sua posição sempre esteve relacionada à defesa dos direitos humanos e das mulheres. "Na economia eu sou liberal. Mas, na pauta dos direitos humanos, dos direitos das mulheres e das minorias, eu sempre votei da mesma forma."

Ela afirmou ainda que sua ligação com o agronegócio acabou levando parte do eleitorado a classificá-la como uma política conservadora. "Eu sou do agro, mas sempre fui do agro que acredita na sustentabilidade."

Para Simone Tebet, o Brasil vive uma crise de desinformação. Segundo ela, parte da população passou a acreditar em informações falsas repetidas continuamente nas redes sociais. "Eles falam tantas vezes uma mentira que começam a acreditar que ela virou verdade."

Ela citou como exemplo os ataques às urnas eletrônicas. "Se as urnas não são seguras, como eles foram eleitos? Bolsonaro foi eleito presidente, Flávio Bolsonaro foi eleito senador."

Na avaliação da ex-ministra, esse tipo de discurso enfraquece as instituições democráticas.

'O problema está no Congresso'

Simone Tebet afirmou que o próximo presidente da República terá dificuldades para governar caso não conte com maioria no Congresso Nacional.

Segundo ela, a solução depende diretamente das eleições para deputado federal e senador. "Ninguém governa o Brasil com esse Congresso."

Ela defendeu que os eleitores observem também quem disputa vagas no Legislativo. "Precisamos eleger deputados e senadores comprometidos com revisão de gastos, moralidade e responsabilidade fiscal."

Na avaliação da ex-ministra, somente um Congresso disposto a enfrentar privilégios permitirá ampliar investimentos em áreas prioritárias. "O dinheiro que hoje vai para privilégios, supersalários, fundos bilionários e excesso de emendas é o dinheiro que está faltando para reduzir filas de exames, fazer obras e melhorar a vida da população."

Por que São Paulo?

Ao ser questionada sobre a mudança de Mato Grosso do Sul para São Paulo, Tebet afirmou que a decisão foi tomada após uma conversa com Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).

Segundo ela, o presidente defendia uma candidatura capaz de dialogar com o eleitor moderado do interior paulista. "O presidente Lula me chamou e disse: 'Nós precisamos de uma frente ampla em São Paulo. Precisamos de alguém que dialogue com o agro, com as mulheres mais conservadoras e com o interior do estado'."

Ela afirmou que, inicialmente, ficou surpresa com o convite. "Eu perguntei: 'Presidente, o senhor tem certeza?'. E ele respondeu: 'Tenho absoluta certeza'."

Segundo Tebet, São Paulo foi o estado onde obteve um dos desempenhos mais expressivos na disputa presidencial de 2022. Ela acredita que isso demonstra uma identificação do eleitor paulista com candidaturas de centro.

'São Paulo é todos os Brasis'

Na avaliação da ex-ministra, São Paulo reúne características que justificam sua decisão de disputar o Senado pelo estado.

Ela lembrou que sua família tem ligação histórica com cidades paulistas, que o marido nasceu no interior do estado e que as filhas vivem há anos na capital. "São Paulo é a terra da oportunidade. São Paulo é todos os Brasis dentro de um único estado."

Segundo Tebet, o estado acolhe pessoas de diferentes regiões e culturas. "Meu avô veio do Líbano. Meu marido é de Birigui. Minhas filhas estudam em São Paulo. Eu conheço esse estado há décadas."

Ela também afirmou que percebe um desgaste crescente da polarização. "São Paulo talvez seja o primeiro estado a demonstrar um cansaço dessa polarização."

As prioridades para São Paulo

Questionada sobre quais pautas defenderá no Senado, Tebet afirmou que pretende priorizar temas ligados ao desenvolvimento econômico.

Segundo ela, São Paulo reúne condições únicas para liderar uma nova revolução industrial. "Só São Paulo tem esse conjunto de universidades, centros de pesquisa, mão de obra qualificada e capital."

Ela destacou setores que considera estratégicos. "Estou falando de biotecnologia, inteligência artificial, data centers, energia renovável, ciência e inovação."

Na avaliação da ex-ministra, esses investimentos terão impacto sobre toda a economia. "Essa indústria vai ajudar o agronegócio, vai ajudar a indústria calçadista e todos os setores produtivos."

Ela acredita que o estado pode irradiar esse crescimento para o restante do país. "São Paulo pode ser uma espécie de bomba positiva de desenvolvimento, irradiando inovação para todo o Brasil."

Antes de encerrar a entrevista, Simone Tebet afirmou que continuará tratando a pauta feminina como prioridade nacional. Segundo ela, a igualdade entre homens e mulheres ainda representa um dos maiores desafios do país.

"Se você me perguntasse qual é minha prioridade para o Brasil, eu responderia sem hesitar: igualdade salarial entre homens e mulheres."

Também voltou a defender medidas de combate à violência contra a mulher. "A luta contra o feminicídio continuará sendo uma das minhas principais bandeiras."

Ao concluir a entrevista, Tebet reafirmou que pretende exercer um mandato voltado aos municípios paulistas e à construção de consensos. "Não existe outra razão para eu estar longe da minha família trabalhando todos os dias se não for para servir as pessoas."

Segundo ela, a política precisa voltar a ter como foco a resolução dos problemas concretos da população. "Eu quero ser uma senadora municipalista, trabalhando pelos 645 municípios e pelos interesses de São Paulo."