De repente, o céu ficou laranja; o ar, difícil de respirar ou mesmo insalubre; e a visão, turva. Então, chegou a recomendação de diversas autoridades: se puder, não saia de casa; se sair, use máscaras.
A densa fumaça oriunda de incêndios florestais no vizinho Canadá, combinada com uma onda de calor que dificulta que as partículas se dissipem, disparou um alerta de saúde pública em regiões do nordeste dos Estados Unidos.
Desde a tarde de quarta-feira (15), ao longo desta quinta (16) e, potencialmente, no decorrer desta sexta (17), cidades como Chicago, Detroit, Minneapolis e Nova York adotam planos de emergência para mitigar os efeitos na população.
Nas três primeiras, o indicador nacional de qualidade do ar apontava para um índice perigoso. A escala mede a presença de ozônio, poluição por partículas, monóxido de carbono, enxofre e dióxido de nitrogênio; ela começa em 0 e, a partir de 301 pontos, a qualidade do ar é considerada a pior possível. Chicago, nesta quinta-feira, apresentava índice superior a 540.
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), as partículas inaláveis finas provenientes de incêndios florestais estão associadas a mortes prematuras e podem causar ou agravar doenças que afetam pulmões, coração, cérebro, pele, intestino, rins, olhos, nariz e fígado —especialmente quando a exposição é prolongada.
A fumaça de incêndios florestais, que pode permanecer no ar por semanas e viajar milhares de quilômetros, é mais tóxica do que a poluição atmosférica comum. Estudos a associam a taxas mais altas de infartos, derrames, câncer, complicações na gravidez e enfraquecimento das defesas imunológicas.
O Canadá registra incêndios florestais todos os anos, geralmente entre os meses de maio e outubro. Segundo o governo, a temporada começou mais lentamente neste ano em comparação a 2023 e 2025 —as duas piores temporadas para incêndios florestais-, mas alertou que os incêndios eram prováveis, devido às temperaturas mais quentes do que o normal.
Até a manhã desta quinta-feira, as autoridades canadenses contabilizavam 858 focos de incêndio no país, entre os quais 111 eram considerados fora de controle. A maioria deles se concentrava nas províncias centrais de Manitoba, Saskatchewan e Ontário.
Os dados do governo indicam que aproximadamente 2,4 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo nesta temporada de incêndios. Na avaliação de especialistas, o aumento das temperaturas está tornando essas queimadas mais frequentes e mais intensas.
Os incêndios chegaram a deixar dois pequenos grupos de crianças do estado americano de Minnesota presos no Canadá durante uma viagem de acampamento organizada pela associação YMCA, reportou o Minnesota Star Tribune, citando um funcionário da YMCA. Um dos grupos foi retirado de helicóptero em coordenação com as forças armadas canadenses
Um vídeo que viralizou nas redes sociais mostra um trem da Canadian National cercado por fogo perto de Armstrong, Ontário.
Funcionários da Canadian National na região e moradores de Armstrong foram retirados da área na noite de segunda-feira, segundo a operadora. A empresa suspendeu as operações ferroviárias perto de Armstrong, a mais de 500 quilômetros ao norte de Toronto, como medida de precaução devido aos incêndios florestais.
O nordeste americano já estava imerso em uma onda de calor, com temperaturas ultrapassando os 30°C, o que já tinha levado a alertas das autoridades. Essa junção dificultou a dissipação da fumaça na região e agravou as condições de saúde pública.
Na cidade de Nova York, o prefeito Zohran Mamdani pediu que as pessoas evitem sair de casa. "Deixem-me ser claro: no nível que estamos [de qualidade do ar], todos, não apenas aqueles com asma, problemas cardíacos ou mais velhos, todos podemos sentir efeitos na saúde", afirmou, em pronunciamento. "Portanto, todos devem tomar precauções. Limitem seu tempo fora de casa."
A prefeitura distribuiu máscaras N95. O item está disponível em bibliotecas, delegacias e instituições de saúde. O mesmo foi feito por outras administrações, como a Prefeitura de Newark, uma das cidades mais importantes do estado vizinho de Nova Jersey.
A onda de calor já havia levado a medidas emergenciais. A Prefeitura de Nova York abriu 600 dos chamados "centros de resfriamento" - locais com ar-condicionado para os quais os cidadãos podem ir caso não consigam resfriar seus próprios lares.
Diante da fumaça dos incêndios, a orientação é que aqueles que não possuem o aparelho em casa busquem um dos centros. Para os que têm o item, a orientação é que não saiam e, se possível, chequem a situação de seus vizinhos, em especial idosos.
Os EUA estão em plenas férias escolares, de modo que mais famílias estão nas ruas, em espaços públicos, para o lazer de crianças e adolescentes. Essa dinâmica também é alterada. Em Chicago, por exemplo, as autoridades fecharam o acesso às praias e piscinas públicas.
Neste fim de semana, a região metropolitana de Nova York sedia a final da Copa do Mundo, com a disputa entre Espanha e Argentina no domingo (19). A previsão é de que, até lá, a fumaça já tenha se movido, mas a onda de calor deve persistir.
Alguns políticos do Partido Republicano buscam usar o tema para criticar o governo canadense —que, lembre-se, tem se distanciado de sua aliança histórica com os EUA.
O senador Bernie Moreno, de Ohio, afirmou que "pautará um projeto de lei para sancionar o Canadá e as autoridades do governo canadense responsáveis por essa atrocidade", referindo-se ao impacto da fumaça. Lisa McClain, deputada republicana por Michigan, também abordou o tema: "ANO APÓS ANO a fumaça cruza a fronteira enquanto o Canadá não faz nada", escreveu. "Parem de exportar sua fumaça para os nossos céus."