Na briga pelo controle e tentativa de abrir caminho para um novo investidor, o Botafogo associativo acionou um gatilho para reduzir a participação da Eagle e passar a ser o acionista majoritário da SAF alvinegra.
O clube acusa John Textor de ter feito uma simulação de uma das parcelas do aporte de capital previsto no acordo de acionistas e recorreu a um dispositivo contratual chamado bônus de subscrição. Isso envolve R$ 100 milhões.
Ao acionar o bônus de subscrição, o Botafogo associativo aponta que se tornou detentor de 51% das ações - e não mais só 10% -, reduzindo a participação da Eagle a 49%.
A diretoria do clube associativo enviou no fim de semana a notificação à Cork Gully, empresa que virou responsável pela liquidação da Eagle Bidco na Inglaterra, diante das dívidas criadas sob o controle de Textor. O documento é assinado pelo presidente João Paulo Magalhães.
É com a Cork Gully que a GDA, empresa de Gabriel de Alba, vinha negociando para finalizar a compra das ações da SAF Botafogo. Mas entraves mais recentes levaram o clube associativo a tentar uma nova estratégia, diante da alegação de que Textor não fez devidamente o pagamento de um dos aportes previstos no acordo de acionistas de 2022.
A diretoria do associativo identificou que a terceira parcela do aporte, na prática, não ficou no Botafogo.
Segundo documento obtido pela reportagem, o clube descreve que "jamais houve cumprimento da obrigação de aporte, mas, apenas, uma sucessão de atos simulados, fraudulentos e prejudiciais à SAF Botafogo, que jamais teve à sua disposição os valores para efetivo investimento".
E qual foi o "pulo do gato", segundo o alvinegro?
Em 20 março de 2024, o Lyon fez um repasse de 10,9 milhões de euros (R$ 58,8 milhões), como integralização de capital. Esse dinheiro seria parte do aporte.
Esse movimento foi registrado no Banco Central e significa transferir efetivamente o valor ou os bens que os sócios prometeram para o nome da empresa. Só que no mesmo dia, houve uma transferência de 10 milhões, como forma de um empréstimo, do Botafogo para o Lyon.
No mês seguinte, ainda segundo o Botafogo, o Lyon fez mais dois movimentos financeiros. Mandou R$ 55 milhões à SAF Botafogo em 5 de abril. E mais R$ 677 mil no dia 17 do mesmo mês. Em tese, seria o cumprimento total do aporte de R$ 100 milhões necessários.
Mas novamente ocorreram transferências - novamente na forma de empréstimo - mandando o dinheiro de volta ao Lyon, nos dias 8 e 18 de abril, respectivamente.
Esse dinheiro que saiu do Botafogo para o Lyon como empréstimos fazem parte do emaranhado de valores que o lado brasileiro afirma não ter recebido de volta até nesta segunda-feira (13).
É por isso que o Botafogo apertou o botão do bônus de subscrição, entendendo que as movimentações da empresa à época controlada por Textor "jamais teve a intenção de cumprir a obrigação de aporte e, por isso, criou operações fraudulentas com o intuito de burlar as disposições do Contrato de Investimentos".
Na notificação à Cork Gully, o clube associativo reforçou que jamais discutiu à época essas movimentações financeiras feitas por Textor.
Com o bônus de subscrição acionado, o Botafogo entende que tem direito a vender 41% das ações à GDA por um valor específico. E a Eagle se torna obrigada a repassar os seus 49% por esse mesmo valor. Sendo assim, o clube associativo voltaria a ter 10%, mas os 90% que até agora estavam com a Eagle poderiam "voar" para a GDA.