27 de junho de 2026
SAÚDE

SUS inicia projeto com canetas em pacientes com obesidade

Por Eduardo Amaral | da Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min
Rafael Nascimento/MS
Guilherme Henrique Panichi, motorista de aplicativo de 39 anos, foi o primeiro paciente a receber caneta emagrecedora pelo SUS

O Ministério da Saúde (MS) apresentou nesta sexta-feira (26) o novo protocolo para uso de canetas emagrecedoras no SUS (Sistema Único de Saúde). O lançamento foi realizado no GHC (Grupo Hospitalar Conceição), em Porto Alegre, com a presença do titular da pasta, Alexandre Padilha.

A inserção da caneta emagrecedora de semaglutida faz parte do estudo Real- Bari, que acompanhará 250 pacientes do GHC na fila pela cirurgia bariátrica. A pesquisa conta com a participação do próprio hospital, da Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Faurgs) e da Novo Nordisk. As duas instituições privadas aportarão recursos ao projeto, cujo custo estimado é de R$ 1,2 milhão.

Inicialmente, o protocolo das canetas emagrecedoras será adotado apenas no GHC. Contudo, o mesmo estudo pode ser levado para outros estados.

O motorista de aplicativo Guilherme Henrique Panichi, 39, foi escolhido para representar o grupo que participará do estudo pelos próximos anos. "Desde os seis anos venho sempre ganhando peso e já tinha feito acompanhamento com nutricionista, mas nunca com um efeito prolongado. Nos últimos anos, comecei a ter complicações bem graves, desenvolver diabetes, hipertensão, que hoje elas estão controladas com uso de medicamentos", relata.

Guilherme é um dos pacientes que estava na fila para a cirurgia bariátrica. Com o uso das canetas, ele espera conseguir resultados que o ajudem a adotar uma rotina mais saudável. "Claro que isso aí também tem que ser uma coisa minha: de mudar essa chave, de mudar meu estilo de vida."

Médica do Serviço de Endocrinologia do GHC, Kátia Elisabete Pires Souto, avalia que o medicamento precisa estar acessível a toda população. "Que esse seja o passo inicial para que se possa colocar semaglutida e análogos que vem por aí para a população brasileira toda, porque a gente sabe que a obesidade é uma epidemia."

O protocolo adotado no GHC vai ter duração de dois anos, podendo ser ampliado. Foi elaborado pelas equipes do MS e do próprio hospital com a Faurgs e a Novo Nordisk. "Esse estudo foi pensado como se fosse uma coorte de acompanhamento de pacientes, mas com dados de vida real, no dia a dia, como os pacientes lidam com a medicação, isso é uma das questões importantes", explicou o coordenador do Núcleo de Avaliação de Tecnologia em Saúde do GHC, Fernando Anschau.

Padilha apontou a expectativa de redução nos custos de tratamento e nas intervenções cirúrgicas nos tratamentos contra obesidade com o uso das canetas emagrecedoras na rede pública. "Acreditamos que elas podem ter um impacto de reduzir a necessidade de cirurgia bariátrica, ou conseguir fazer a cirurgia bariátrica em pacientes que hoje não têm condições clínicas de fazê-la, como também o próprio impacto no sistema de saúde, à medida que você possa ter resultados positivos."

O Rio Grande do Sul é um dos estados com maior taxa de obesidade do país. Dados da Secretaria Estadual da Saúde (SES) apontou que mais de 33% dos adultos do estado com idade entre 20 e 60 anos estão com sobrepeso.

O protocolo adotado no GHC vem sendo negociado há cerca de um ano com a Novo Nordisk, farmacêutica que produz o Ozempic (para diabetes) e o Wegovy (para obesidade). A escolha de uso das canetas emagrecedoras busca oferecer uma alternativa aos pacientes que aguardam na fila por uma cirurgia de redução de estômago e não se encaixam nas exigências médicas para a intervenção.

Do total de pacientes na fila da cirurgia bariátrica no GHC, apenas 47% estão aptos a passar pelo procedimento. Os participantes do estudo receberão nos próximos dois anos 2,4 miligramas da semaglutida por semana para se enquadrarem nas condições clínicas para a cirurgia. Nesse período, a equipe que comanda a pesquisa avaliará questões como perda de peso, qualidade de vida do paciente, condições para a cirurgia, entre outros.

No dia 20 de março a patente do Ozempic expirou. Dessa forma, abriu-se espaço para que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) avaliasse o pedido de registro de outros medicamentos de semaglutida sintética, mesmo princípio ativo do Ozempic e do Wegovy. A autorização para a fabricação nacional do Ozivy, da EMS, foi concedida no dia 26 de maio. Segundo a Anvisa, o novo remédio não se trata de um genérico, mas "uma cópia em versão sintética de um medicamento originalmente biológico registrado na Anvisa".

Na quarta (24), foi publicado na página da CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos) o protocolo oficial com uma nova caneta de semaglutida, que aguarda registro sanitário. Trata-se do Semavy, que será distribuído pela farmacêutica Hypera Pharma.

Padilha diz defender a produção nacional dos medicamentos como forma de viabilizar a distribuição para a população. "Senão você não tem sustentabilidade dessa oferta. Por isso, é o segundo desafio que já estamos enfrentando quando o Ministério da Saúde e a Anvisa convocam empresas para registrar esse produto aqui."

Sem milagre

O Ministro da Saúde demonstrou preocupação com o atual uso indiscriminado e contrabandos das canetas emagrecedoras para o Brasil. "Muita gente tem usando esse tipo de produto como se fosse um milagre estético. Estamos falando de uma medicação que surgiu para diabete, que vai se observando cada vez mais que ela pode cumprir um papel para o enfrentamento da obesidade."

Padilha diz que a produção nacional das canetas emagrecedoras será justamente a medida que pode regular melhor a aplicação.