O repasse do complexo de Interlagos à iniciativa privada voltou a avançar na Prefeitura de São Paulo nesta quarta-feira (10), desta vez focado no kartódromo Ayrton Senna, onde o premiado piloto estreou, ainda na adolescência, na zona sul.
A proposta é de concessão pública por 15 anos, com pagamento inicial de ao menos R$ 2,6 milhões, aval à cessão de "naming rights" e exigência de obras para atendimento a padrões exigidos para corridas de kart da FIA (Federação Internacional de Automobilismo).
A proposta está em consulta pública até 13 de julho. Essa é a terceira consulta pública de concessão aberta pela gestão Ricardo Nunes (MDB) em uma semana, juntando-se à da implantação de arena de eventos na Marginal Pinheiros, zona oeste, e ao repasse à iniciativa privada da Praça Franklin Roosevelt, no centro.
A prefeitura quer que a vencedora do edital realize as principais intervenções obrigatórias em até um ano, estimadas em R$ 13,6 milhões. Ao longo do contrato, deverá repassar 6% da receita bruta semestral ao município, assim como arcar com um "aluguel" de R$ 881.
A estimativa é que concessionária tenha receita anual de R$ 9,3 milhões, advinda de aluguel de pista, karts e equipamentos, exploração de espaços gastronômicos, cobrança de estacionamento, publicidade e outras fontes.
Em comunicado sobre a consulta pública, a gestão Nunes apontou que a infraestrutura do kartódromo precisa de melhorias de operação, segurança e compatibilidade com normas de competições oficiais. Também defendeu o potencial para ampliação do uso e maior inserção no calendário de eventos esportivos, culturais e turísticos.
Hoje, o Estado de São Paulo tem outras pistas mais inseridas no circuito de eventos de karting, como em Cotia, na região metropolitana da capital, e Birigui, no interior. A única disputa brasileira no calendário da FIA de 2026 será realizada em Imperatriz, no Maranhão.
Kartódromo deverá ser isolado por gradil
A proposta determina que todo o perímetro do kartódromo seja isolado com gradil em relação ao restante do complexo de Interlagos. Exige também a demolição da atual e a construção de uma nova arquibancada (com cobertura), a implantação de novas lojas, a reforma de parte das lanchonetes e intervenções de acessibilidade.
Para obter a homologação da FIA, a concessão deve impor o alargamento e o reasfaltamento da pista com material de alta performance, a ampliação da iluminação e novas construções, como de armazém de pneus, torre de cronometragem, sala de controle e outras.
A cessão de "naming rights" permitirá a inclusão de nomes de marcas e instituições, exceto no casos de jogos de azar (incluindo as "bets"), bebidas alcoólicas, cigarro e outras excepcionalidades. O repasse à prefeitura deverá ser de 20% da receita.
Audiência pública está marcada para 1º de julho, de forma virtual. Já as contribuições à consulta pública deverão ser feitas por e-mail. Mais informações sobre a participação no certame estão em página da prefeitura, neste link.
A proposta inclui, ainda, a exigência da disponibilização de parte do espaço para a realização do Grande Prêmio São Paulo de Fórmula 1 e outros eventos considerados estratégicos. Também aponta funcionamento mínimo seis vezes por semana (com 12 horas diárias).
O valor estimado do contrato é de R$ 90,7 milhões, o que inclui custos de intervenções, operação e manutenção ao longo dos 15 anos. A concessão será aberta a empresas, instituições financeiras, fundos de investimento e consórcios.
Prefeitos defenderam liberação de prédios no espaço
Na última década, diferentes prefeitos tentaram privatizar ou conceder uma parte ou a totalidade do complexo. Chegou-se a discutir, em 2017, na gestão João Doria (então no PSDB), o aval para a construção de prédios em parte do espaço, o que poderia afetar a área do kartódromo.
Em 2019, os vereadores liberaram o repasse à iniciativa privada, mas por período determinado, não venda. O edital foi publicado na sequência, na gestão Bruno Covas (PSDB), mas foi alvo de suspensão pelo TCM-SP (Tribunal de Contas do Município).
A gestão Nunes já havia sinalizado a concessão apenas do kartódromo em 2023, com uma consulta pública sobre as condições do espaço. As contribuições apontadas por frequentadores à época incluíram a necessidade de melhorias nos banheiros, nos boxes dos karts, na iluminação e nas opções de alimentação.
O kartódromo representa cerca de 7% da área do complexo do autódromo, com 68.145 m², de um total de 1 milhão de m². Foi inaugurado em 1970, duas décadas após o autódromo. Sua última grande reforma ocorreu em 2015.
A denominação em referência a Ayrton Senna foi instituída em 1996, dois anos após a morte do piloto. Pela mesma pista, também passaram outros conhecidos nomes do automobilismo brasileiro, como Emerson Fittipaldi, Walter Travaglini, Paulo Carcasci e Ruben Carrapatoso.
Hoje, o espaço está com contrato de permissão de uso assinado em 2024, sem tempo mínimo de vigência. Recebe tanto atividades profissionais quanto amadoras e de lazer.