Manto sagrado.
Com a força de Zito, a sabedoria de Aymoré Moreira, o talento quase divino de Pelé e a resiliência de Ronaldo Fenômeno, o Vale do Paraíba está presente na rota da trajetória da Seleção Brasileira na história das Copas do Mundo. E também na série 'O Vale na Copa', de OVALE, em seis capítulos.
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Entre promessas, o "evangelho perdido" do Rei do futebol, milagres futebolísticos, treinos escondidos na Serra da Mantiqueira, com a presença de Mané Garrincha e companhia, e histórias perdidas pelo tempo, a nossa região ajudou a costurar -- fio por fio -- as cinco estrelas da camisa brasileira.
Quer contar a saga da Seleção em Copas? Então, com todo respeito ao mister Carlo Ancelotti, é indispensável escalar os seis capítulos desta história que têm o Vale como protagonista. Episódios de bola no pé e fé na bola.
Está no azul da camisa de 1958, inspirado no manto de Nossa Senhora Aparecida. Está no gol decisivo de Zito, filho de Roseira, na final da Copa de 1962. Está nos treinos da Seleção em Campos do Jordão, antes do bicampeonato mundial. Está na passagem quase folclórica de Pelé por Taubaté, onde o Rei escreveu uma redação que virou lenda. E reaparece anos depois, nas promessas de Ronaldo Fenômeno à Padroeira do Brasil antes do penta de 2002.
Tudo isso atravessou o tempo. Porque Copa do Mundo, no Brasil, nunca termina no apito final.
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Vestindo o manto de Nossa Senhora, o Brasil conquista o mundo pela primeira vez | Foto: Reprodução
Didi, Vavá, Garrincha, Zito, Pelé e... Nossa Senhora Aparecida.
Ainda assombrado com o fantasma do Maracanaço, oito anos antes, quando perdeu a decisão do Mundial para o Uruguai, em casa, a Seleção voltava a decidir uma Copa do Mundo. Os adversários? A Suécia, dona da casa, que também tinha o amarelo como cor do uniforme e o usaria na finalíssima.
E agora? Depois de 1950, o Brasil havia abandonado o uniforme branco, adotando o amarelo. Para os supersticiosos atletas brasileiros, às vésperas da decisão em Estocolmo, deixar a cor canarinho era sinal de azar. Mas a história mudou graças a uma oração.
Como os suecos também vestiam amarelo, a Seleção precisou improvisar um novo uniforme às pressas. Desesperado, o então chefe da delegação, Paulo Machado de Carvalho, buscava uma solução quando encontrou inspiração na imagem de Nossa Senhora Aparecida.
O manto azul da Padroeira do Brasil deu origem à camisa que se tornaria símbolo eterno da Seleção -- e deu confiança aos jogadores.
Naquela noite, integrantes da delegação correram pelas ruas de Estocolmo atrás de camisas azuis. O escudo foi costurado manualmente às pressas.
No dia seguinte, o Brasil atropelou a Suécia por 5 a 2. Pelé marcou duas vezes. Nascia ali não apenas o primeiro título mundial brasileiro, mas também uma camisa cercada de fé.
Zito sobe e marca de cabeça na final de 1962 | Foto: Reprodução
Entre os campeões de 1958 havia um volante sério, que era o dono do meio de campo e era o xerifão do Santos de Pelé: José Ely de Miranda, o Zito. Nascido em Roseira, Zito iniciou a carreira no Taubaté antes de virar lenda no Peixe.
Na final da Copa do Mundo de 1962, disputada no Chile e que teve como rival a Tchecoslováquia, foi dele o gol da virada brasileira.
Aos 24 minutos do segundo tempo, Zito apareceu de cabeça para colocar o Brasil em vantagem na vitória por 3 a 1 que garantiu o bicampeonato mundial no Chile. VEJA O GOL
Décadas depois, a Fifa homenagearia o gol do volante nas redes sociais. No Santos, a braçadeira de capitão eternizou a letra “Z” em homenagem ao líder daquela geração. Um homem simples do Vale.
Um bicampeão do mundo pelo Santos e pela Seleção Brasileira. Após parar de jogar, Zito passou a trabalhar nas categorias de base do Santos, revelando craques como Neymar. Morreu em 2015, aos 82 anos.
Pelé segura menino no colo em Campos | Foto: Hotel Vila Inglesa
Antes da conquista no Chile, a Seleção Brasileira se refugiou em Campos do Jordão.
Entre março e abril de 1962, Pelé, Garrincha, Didi e companhia ficaram hospedados no Hotel Vila Inglesa e treinavam diariamente no campo da Abernéssia. A ideia era adaptar os jogadores ao clima frio semelhante ao chileno. Deu certo.
A “Suíça Brasileira” recebeu os craques como celebridades. Milhares de torcedores acompanhavam os treinos. Em uma das atividades, mais de 6 mil pessoas lotaram o campo para ver de perto os campeões mundiais.
Entre um treino e outro, Garrincha e companhia ainda participaram da tradicional Festa do Pinhão. Campos virou, por algumas semanas, a casa da Seleção Brasileira.
Aymoré (com a bola na mão) durante a campanha de 1962 | Foto: Reprodução
Outro elo improvável entre o Vale e a Seleção atende pelo nome de Aymoré Moreira.
Técnico campeão do mundo em 1962, ele assumiu o Taubaté logo após levantar a taça com a Seleção Brasileira. Pouca gente lembra, mas o treinador conciliou por um período o cargo na Seleção com o comando do Burro da Central.
Parecia ficção: o técnico campeão do mundo caminhava à beira do gramado do antigo Campo do Bosque poucos meses depois de conquistar o planeta.
Mesmo sem repetir o sucesso no clube, Aymoré eternizou seu nome na história do futebol brasileiro -- e também do Vale.
Na prática, era a segunda passagem dele pelo Burro da Central - já havia treinado a equipe na década de 1950. E, durante a campanha taubateana no Paulista de 1962, Aymoré ainda conseguiu conciliar o clube com o cargo de técnico da Seleção Brasileira, com a qual ficou até 1963.
Pelé fazendo prova nos tempos de Madureza | Foto: Reprodução
Mas talvez nenhuma história seja tão cinematográfica quanto a passagem de Pelé por Taubaté em 1970.
Poucos meses antes da Copa do México, o Rei do Futebol viveu dias como um cidadão comum na cidade para realizar os exames do Madureza, equivalente ao supletivo da época.
Hospedado em uma pensão simples na rua das Palmeiras, Pelé lavava as próprias roupas no tanque e caminhava anonimamente pelas ruas. O maior jogador do planeta era apenas Edson.
Na prova de Português, recebeu um tema inevitável: a Copa do Mundo. Ali nasceu uma redação histórica. O texto tinha um título quase profético: “Só com muito esforço poderemos vencer.” A redação, hoje desaparecida, virou uma espécie de “evangelho perdido” das Copas do Mundo.
Naquele papel, Pelé antecipava o espírito da Seleção que conquistaria o tricampeonato mundial no México, considerada até hoje por muitos como a maior equipe da história do futebol. Com Jairzinho, Gérson, Rivellino, Tostão e Carlos Alberto Torres, o Brasil encantou o planeta.
Em 2002, o Vale voltou a cruzar o caminho da Copa do Mundo. E de maneira fenomenal.
Ronaldo ao lado de sua estátua em Aparecida, em 2016, com o 'joelho de cera' | Foto: A12
Desta vez através da fé. Antes do Mundial da Coreia e do Japão, Ronaldo Fenômeno fez uma promessa à Nossa Senhora Aparecida: queria apenas que seus joelhos suportassem a competição. O atacante havia sido desenganado para o futebol após problemas no joelho.
Meses depois, o atacante voltou ao Santuário Nacional para agradecer. Levou uma camisa da Seleção, uma bola e até uma réplica de cera do joelho, hoje guardados na Sala das Promessas. Naquela Copa, Ronaldo marcou oito gols (dois deles na final contra a Alemanha) e conduziu o Brasil ao pentacampeonato mundial.
“Agradeço a Deus e a Nossa Senhora Aparecida pela minha vida e nisso incluo futebol, mas também por fazer o que gosto e por ter filhos saudáveis. Quando venho aqui eu procuro mais agradecer do que pedir”, afirmou Ronaldo, em 2016.
O Fenômeno, que havia enfrentado graves lesões, ajoelhou-se diante da Padroeira do Brasil após conquistar o mundo. Até hoje, a camisa do camisa 9 está presente na Sala das Promessas, em Aparecida, assim como o uniforme de Márcio Santos, zagueiro campeão na Copa de 1994.
E a história do Vale do Paraíba com a Seleção Brasileira continua. Cotado para ser o capitão do time, o volante Casemiro, de São José dos Campos, está convocado para o Mundial e pode erguer a taça. E para você, torcedor, o Hexa vem?