Há mais de quatro anos fazendo sucesso em palcos pelo Brasil, a peça “A Última Sessão de Freud” será apresentada no Teatro Municipal de São José dos Campos, nos dias 15, 16 e 17 de maio, de sexta e sábado, às 20h, e domingo, às 17h.
Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp
Trata-se de uma história que conta um encontro fictício, mas não improvável, entre dois dos maiores pensadores do século 20: Sigmund Freud, o pai da psicanálise, e C.S. Lewis, escritor que se tornou um dos mais influentes defensores da fé cristã.
A peça coloca as duas mentes brilhantes num debate intenso e atual sobre crença, ciência e existência. Eles conversam sobre Deus, fé e a razão da vida. O encontro acontece no início da Segunda Guerra Mundial, em 1939.
Em cena, o ator Odilon Wagner dá vida a Freud, enquanto Marcello Airoldi interpreta C.S. Lewis, sob direção de Elias Andreato. Um dos grandes sucessos do teatro brasileiro desde 2022, o espetáculo já soma mais de 400 apresentações e quatro anos em cartaz, com turnês nacionais e plateias lotadas.
Com texto de Mark St. Germain, a montagem é baseada no livro “Deus em Questão”, escrito por Dr. Armand M. Nicholi Jr., professor clínico de psiquiatria da Harvard Medical School.
Na trama, Freud busca entender por que um ex-ateu, brilhante intelectual como C.S. Lewis, pode, segundo suas palavras, “abandonar a verdade por uma mentira insidiosa”, tornando-se um cristão convicto.
No gabinete de Freud, na Inglaterra, eles conversam sobre a existência de Deus, mas o embate verbal se expande por assuntos como o sentido da vida, natureza humana, sexo, morte e as relações humanas, resultando em um espetáculo que se conecta profundamente com o espectador através de ferramentas como o humor, a sagacidade e o resgate da escuta como ponto de partida para uma boa conversa.
O sarcasmo e a ironia rondam toda essa discussão. As ideias contundentes ali propostas nos confundem, por mais ateus ou crentes que sejamos.
“Essa peça é um elogio ao diálogo, tão necessário em nossos tempos. Saio do teatro todos os dias mais convicto que podemos e devemos conviver pacificamente com aqueles que pensam diferente de nós”, afirma Odilon Wagner.
O cenário assinado por Fábio Namatame (indicado ao Prêmio Shell de “Melhor cenário”) reproduz o consultório onde Freud desenvolvia sua psicanálise e seus estudos. Ele estava exilado na Inglaterra depois de ter fugido da perseguição nazista na Áustria, em plena Segunda Guerra Mundial, no ano de 1939.
Segundo o autor, a peça mostra um embate de ideias. Mas houve uma preocupação de que o espetáculo não se transformasse em um debate. “Por isso, pelo bem da ação dramática, situei o encontro entre Freud e Lewis no dia em que a Inglaterra ingressou na Segunda Guerra Mundial. São dois homens no limite, sabendo que Hitler poderia bombardear Londres a qualquer minuto”.
Já o diretor Elias Andreato optou por uma encenação que valoriza a palavra, construindo as cenas de modo que o texto seja o protagonista e as ideias estejam à frente de qualquer linguagem.
“A ideia do autor Mark St. Germain de provocar esse encontro entre Freud e Lewis cria um jogo teatral de ideias, crenças e visões de mundo profundamente distintas. O diálogo entre os dois personagens é, por vezes, irônico, por vezes violento, mas surpreendentemente sociável, e é justamente aí que reside sua força: na prova de que é possível conviver com as diferenças de forma inteligente, crítica e sobretudo, humana”, explica.
Odilon Wagner constrói um Freud de extrema humanidade, numa composição precisa, milimétrica, que torna seu trabalho inesquecível. Já Marcello Airoldi demonstra que o humor e a leveza podem existir mesmo quando as ideias se chocam e percorrem territórios perigosos, densos e provocadores.
“O espetáculo dialoga com o público de maneira sensível e direta. Seu sucesso nasce da atualidade do tema e da urgência em discutir questões profundas e delicadas que atravessam o nosso cotidiano, especialmente em um Brasil cada vez mais dividido. O teatro mostra, mais uma vez, ser o veículo ideal para falar da violência com poesia, reflexão e escuta, abrindo caminhos para a transformação”, afirma Andreato.
Para Odilon Wagner a experiência de interpretar Freud tem um significado especial nesses seus 56 anos de profissão. “Tem sido uma das experiências mais fascinantes de minha carreira, é um privilégio poder representar uma personagem tão potente como Freud, um dos grandes pensadores do século 1920. Nesses últimos quatro anos em que estivemos em cartaz, já rodamos o país três vezes e repetiremos a turnê em 2026”, afirma o ator de 72 anos.
Segundo ele, a reação do público, sempre tão entusiasmada, e os encontros e debates que ocorrem nos teatros e nas universidades enriqueceram muito a experiência e trazem a confirmação da atualidade do pensamento Freudiano em nosso século.
“O espetáculo estimula a nossa reflexão sobre a necessidade de praticarmos uma cultura de paz, nos provoca a exercer nossa humanidade com mais fervor e atenção, para que não se repita a história deletéria da segunda guerra mundial, vivenciada por Freud”, completa.
Segundo Marcelo Airoldi, o teatro “nunca é feito de facilidades e não há fórmulas para o sucesso de um projeto”. Mas quando este acontece, saltam aos olhos detalhes que evidenciam a existência de cuidados especiais, seja na produção, direção ou qualquer outro aspecto técnico do espetáculo.
“Num mundo dominado por algoritmos da superficialidade, é maravilhoso encontrar plateias sedentas pelo bom debate, humor de qualidade, poesia e pela história de bons personagens como estes, que a dramaturgia juntou na mesma página”, conclui o ator.
Confira a entrevista que o ator Odilon Wagner concedeu a OVALE sobre a peça.
Sigmund Freud e C.S. Lewis eram muito diferentes?
Eles tiveram muitas semelhanças, por exemplo, perderam as mães muito jovens, crianças, tinham um problema com os pais, eram ateus, porque a religião era uma pressão muito forte para eles e optaram pelo ateísmo. Mas num determinado momento, o Lewis se converteu ao cristianismo, se transformou nos maiores defensores da fé cristã e o Freud continuou na sua batalha ateísta. E foi assim a vida inteira.
No livro, o tema central é esse: Deus existe mesmo? Qual é o sentido da vida? Tem vida após a morte? Sexualidade entrando também porque é um tema da bastante comum no trabalho do Freud.
Aí um dramaturgo lá da Broadway (EUA) leu esse livro e falou: "Ah, vamos botar os dois conversando". Essa é a beleza do teatro. Junta pessoas que não necessariamente estiveram juntas. Poderiam estar? Poderiam. Freud já morava em Londres, porque ele juntou o Freud com Lewis em 1939.
Portanto, olha aqui a beleza da dramaturgia e da arte e da cultura, o que é que ela pode fazer? Como é que eu vou fazer esses dois conversarem? Definiu que eles se encontrariam porque o Freud chegou em Londres fugido da Áustria do nazismo em 1938. Lewis morava na Inglaterra, em Londres, então era professor de Oxford, famoso, já tinha escrito a parte das Crônicas de Nárnia.
Aí ele falou assim: "Bom, vou botar ele e escolheu o dia 3 de setembro de 39". Por quê? Porque é o dia que praticamente começa a Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha nazista invade a Polônia. E a Inglaterra declara guerra contra a Alemanha. Começa a Segunda Guerra Mundial. Lembra aquele filme “O Discurso do Rei?”. Que é o rei gago. É nesse dia. Inclusive, um pedacinho do discurso entra no final da peça.
E então, o autor bota os dois conversando sobre se Deus existe, sentido da vida, questões filosóficas no dia em que está começando uma guerra mundial. Então, na peça tem a urgência dessa conversa, mas tem a urgência do rádio, toda hora o homem liga lá, tem o rádio, vê as notícias o que está acontecendo. Tem sirenes que tocam, bombardeios. Então, toda hora o Freud vai lá e liga para ver se tem notícia.
Ele ouve e isso vai mudando o rumo da história do encontro entre os dois. Esse encontro fictício, mas não impossível, porque ambos viviam em Londres nesse período. E a discussão é justamente essa: Deus realmente existe? Qual é o sentido, o que a gente tá fazendo aqui e tal. E a peça tem uma linguagem muito acessível. Ela não é para iniciados. Ah, só para os estudiosos de Freud, não. Nem do Lewis. São dois homens que mudaram o pensamento científico filosófico do século 20 com as suas ideias.
Mas eles falavam como pessoas e essa peça, o autor foi tão feliz, porque não é um tratado, é uma conversa entre duas pessoas com muito bom humor. Tem gargalhadas enormes na peça. Porque são dois homens brilhantes. E todo homem brilhante é bem humorado, né?
E o Freud, naturalmente, defeito de profissão, já começa a analisar o Lewis. E o Lewis dá uns trocos, com bom humor, retruca, ele depois também o analisa. Então, uma peça muito bem-humorada, fácil e hoje esse tema da religião, religiosidade está muito forte no mundo todo, mas aqui no Brasil, particularmente, a questão religiosa ocupou os espaços até políticos.
Por outro lado, a psicanálise e a psicologia têm também um crescimento gigante nos últimos anos, a ponto de se tornar o curso que mais forma profissionais no Brasil, que é psicologia. Já passou direito, medicina, já há muito tempo. Ali é no mundo, não é só no Brasil não. Ou seja, o movimento em busca da saúde mental muito grande, a questão religiosa se tornou importante. Então, isso traz uma um interesse muito grande do público. Porque justamente a peça é acessível, não é aquela coisa que fica filosoficamente discursando hora fechada. Uma conversa como a gente tá tendo aqui.
Como o senhor se envolveu com essa peça?
Meu sócio já tenta fazer esse espetáculo há 11 anos. Tentando fazer. E os direitos estavam com outras pessoas e não conseguiam. Essa peça já caiu na mão do [Antônio] Fagundes. Disse que ia fazer, ia fazer, não fez. Caiu na mão de vários outros colegas, não fizeram e eu agradeço eles por não terem feito. E finalmente ele conseguiu os direitos e aí na pandemia, pré-pandemia, a gente estava com outros espetáculos e aí programando coisa para fazer, veio a pandemia e aí a gente falou: "Olha, agora é o momento de fazer". Começamos a nos estruturar no período da pandemia. Estreamos em março de 2022, quando tinha recém aberto, ainda tinha que ter separação nos teatros. Não podia estar grudado, todo mundo em máscara.
Nós estamos entrando em 2026 e foram mais de 200 mil pessoas que já assistiram, mais de 400 sessões. Um sucesso impressionante por onde passa. A peça tem mais de seis indicações de prêmios, é uma coisa impressionante. E a gente fala assim: "Mas eu nunca entendi por que é esse sucesso". No começo a gente falava assim: "Ah, isso é uma peça boa, tal. Alguns meses em cartaz. Ah, um ano aí. Sucesso absoluto”. Um ano é a média de um grande sucesso de teatro. E aí a gente foi vendo que desde o primeiro dia era lotado, lotado, lotado.
Um teatro pouco menor, 300 lugares, passou para um de 500, pode ter um de 600, tinha uns teatros de 1.000 e poucos lugares. É impressionante. Então, a gente sempre pergunta assim: "Mas por que, né?, afinal de contas são só dois homens conversando”. Mas só aqui é uma dramaturgia, dois homens brilhantes e uma dramaturgia inteligente que faz o público ficar atento 1 hora e meia, você não vê ninguém disperso, e quando acaba é um entusiasmo, parece show. Parece show de rock, eles gritam, eu falo, eu subo.
A peça toca em pontos muito interessantes. Fora o tema central dela, se eu pudesse definir a peça, eu diria que é um exercício do um elogio ao diálogo, que hoje falta muito no nosso mundo, Brasil, mas no mundo. Duas pessoas que pensam completamente diferentes, visões de mundo diferentes, embates firmes, veementes, mas não passam a linha do respeito, jamais se atacam pessoalmente. É um debate de ideias. Essa é uma coisa que chama muito atenção das pessoas, como eu vou falar, o recado que chega para as pessoas, a reflexão. Dá para se conviver com pessoas que pensam diferente da gente, que tem visões de mundo.
Hoje em dia nem na família a gente consegue. A gente tem que conviver com pessoas diferentes. E quando a gente recebe ideias diferentes, a gente só acrescenta pontos de vista que a gente pode adotar ou não, mas que vão enriquecer o nosso universo.
E a questão da guerra é outro ponto que também traz muita reflexão, porque quando a gente estreou, tinha acabado de começar a guerra da Ucrânia. Aí veio Gaza, no meio da temporada veio Gaza e agora essa no Irã, Israel, Estados Unidos. Certo. E é uma reflexão que fica muito forte, porque na peça esse debate da guerra é muito forte. O Freud fala da perseguição que teve pelo nazismo, então ele toca muito nesse tema. Eu acho que é um dos motivos que faz o sucesso da peça. A peça que faz as pessoas pensarem, olharem para o seu cotidiano.
Dizem que o ideal de um livro ou de uma peça ou o que seja é plantar mais perguntas do que respostas na cabeça das pessoas. Você acha que essa peça faz isso?
Sem dúvida nenhuma. E eu também. Imagina, a gente está há 400 e tantas sessões pensando, refletindo até hoje eu e Marcelo. Tem momentos que a gente diz, que a gente para e fala assim: "Puxa vida, não tinha pensado nisso. Olha que o esse texto pode ser entendido também desta forma”.
Então, é impressionante, mas eu vou te contar só um bocado para você entender o que ela causa nas pessoas. Eu encontrei uma pessoa que me abordou na rua um dia e falou assim: "Olha, eu assisti a Última sessão de Freud”. Legal. “Mas você me causou um problema”. Perguntei o motivo. Ele disse que estava se formando para ser pastor. “E na minha teologia...”, ele disse. Eu falei: "Ah meu Deus, o cara vai querer discutir teologia agora". Mas ele disse “Problema é que eu saí da peça gostando mais do Freud do que do Lewis”. E deu uma gargalhada. Com isso ele quis dizer, naturalmente, que ele não deixou de crer ou nada, mas ele falou: "A peça me trouxe muitas reflexões".
A peça tem tanta reflexão cotidiana que a gente começou a fazer o hábito de ter debates no teatro uma vez por semana, sempre na sexta-feira, como vai ter aqui em São José dos Campos, na sexta-feira, dia 15 de maio. Um debate após o espetáculo. O público, a gente tem dois convidados especiais, um psicanalista, um psicólogo ou um religioso. Para ampliar um pouquinho esse debate.
E tem sido encontros maravilhosos, inspiradores, porque não é para confrontar. Eles falam sobre a peça, mas aí vai para os temas. Um dos temas da peça é a finitude. Tem esse debate também da finitude, também entram muitas questões que todo mundo se questiona um momento ou outro da vida. Por isso que é rico e no debate com psicanalista e psicólogos e religiosos, isso amplia mais.
O público sai encantado e a gente faz também online, pelo nosso canal do Instagram, vai para o YouTube também, os debates são disponibilizados. Então, tem sido momentos assim, eu diria que é um dos momentos mais ricos da minha carreira.