As mudanças climáticas afetam todo o mundo e com graves consequências. Pessoas com hipersensibilidade sensorial vivenciam essa realidade de forma ainda mais acentuada.
Dados de São José dos Campos, quantificados por estudantes, demonstram como isso acontece na cidade. O trabalho virou projeto de lei municipal.
Chuvas torrenciais, enchentes, secas e ondas de calor extremo já são a realidade em diversas regiões. Esses fatores podem ser ainda mais devastadores para pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista).
Para quem possui hipersensibilidade sensorial, fenômenos como o barulho de trovões ou a fumaça de queimadas não são apenas incômodos, mas gatilhos para crises agudas de desregulação emocional.
Em São José, essa interseção entre clima e neurodivergência foi quantificada por estudantes do Instituto Alpha Lumen, por meio de um trabalho acadêmico orientado pelo jornalista científico Julio Ottoboni. O estudo serviu como base para a elaboração de um projeto de lei em tramitação na cidade.
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Os jovens pesquisadores de 17 anos, Gabriella Lourenço e Felipe Idesti, com base em estudos bibliográficos e entrevistas com 117 familiares e 108 profissionais, quantificaram dados que revelam o cenário joseense na relação TEA x Clima.
Segundo o trabalho, 91,5% das famílias atípicas da cidade já vivenciaram eventos climáticos extremos, e 60,7% delas relataram um impacto considerado "alto" ou "muito alto" na organização comportamental das pessoas com TEA.
Entre os profissionais, 61,1% já prestaram atendimento a essas pessoas em contextos de desastres, mas 77,8% afirmaram que as políticas públicas atuais são insuficientes para lidar com essas situações. A ausência de protocolos específicos foi apontada como uma das maiores barreiras ao atendimento adequado.
Os dados apresentados pelo projeto dos estudantes serviram de base para a elaboração de um projeto de lei (PL 65/2026) já em tramitação na Câmara de São José.
O PL prevê a criação de protocolos de acolhimento que incluem a identificação de "salas calmas" para regulação sensorial, o treinamento de servidores para reconhecer sinais de sobrecarga e a disponibilização de abafadores de som nas escolas.
Gabriella compartilha suas expectativas dizendo que a ideia é criar estruturas básicas de apoio e preparo das escolas e "um mínimo de acolhimento sensorial" quando esses eventos acontecem."Só isso já faz diferença: diminui crises, reduz riscos e dá mais segurança para as famílias", afirma.
A proposta ainda sugere que os alertas meteorológicos da Defesa Civil contenham orientações específicas para famílias atípicas, visando minimizar o impacto de interrupções bruscas na rotina, que afetam majoritariamente crianças e adolescentes.
Felipe acredita que pequenas atitudes, quando aliadas a políticas públicas, podem transformar a vida desse grupo e a de seus familiares.
“Para as famílias, isso significa maior tranquilidade e suporte em momentos de crise, reduzindo a sobrecarga emocional e prática que normalmente recai sobre elas. Já para a comunidade, representa um avanço na construção de uma cultura inclusiva, que reconhece a diversidade e fortalece redes de apoio. No fundo, o impacto maior é tirar essas pessoas da invisibilidade…”, diz ele.
A expectativa dos estudantes é de que o projeto seja aprovado pela Câmara de São José e que a lei seja posteriormente sancionada pelo prefeito Anderson Farias (PSD), beneficiando as famílias atípicas da cidade e servindo de inspiração para políticas públicas e outras localidades.