Recebi, pelas redes sociais, um pedido de socorro para a Serra do Japi. Não posso me recusar a atender. Tenho falado continuamente sobre ela. Sou testemunha da luta por seu tombamento, sempre enalteci o heroísmo de Aziz Ab’Saber (1924-2012), o maior geógrafo brasileiro, que alertou a cidadania sobre o valor de nosso maior patrimônio.
Profundo conhecedor das questões ambientais e estudioso dos impactos que nossa atividade provoca nesta frágil natureza, convenceu o Poder Público a “tombar” a Serra do Japi. Há poucos dias, exatamente a 8 de março, comemorou-se o marco de 43 anos do tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológica e Turístico do Estado de São Paulo – Condephaat.
A data foi celebrada com o evento “Café com Ação e Inovação”, com abordagem sobre o monitoramento tecnológico da Serra e a atuação das brigadas voluntárias, com vistas à adoção das melhores estratégias de preservação e prevenção de riscos desse tesouro.
O pedido de socorro diz que a proibição de novas construções no sopé da Serra termina em 2026. Se isso vier a ocorrer, a volúpia da construção civil que “vende” a Serra para atrair compradores, mas ao mesmo tempo atua para a sua destruição, vai nadar de braçada.
Isso significa mais desmatamento, elevação da temperatura, piora de um trânsito que já parece insuportável e, o que é muito mais grave, gera um risco imenso para a água, que é o insumo imprescindível para garantir a vida.
Por que ocorreu o tombamento da Serra do Japi?
Porque esse conjunto de Mata Atlântica, último remanescente do que um dia já foi o Estado de São Paulo, está sobre uma base de quartzo. Se for eliminada a vegetação e a rasa camada de terra que a abriga, o resultado será um deserto árido, inóspito e de elevada temperatura.
A Serra do Japi é o mais valioso bem que uma cidade como Jundiaí pode ostentar. Garante um microclima favorável. Enfeita o nosso skyline, é referência para o último trecho das rodovias Anhanguera, Bandeirantes e Estrada Velha, até chegar à grande conurbação que praticamente destruiu toda a sua cobertura vegetal e hoje é a maior cidade do Brasil.
Quero crer que a gestão municipal, que celebrou os 43 anos do tombamento, esteja atenta à questão e não permita que se abra essa porteira para a devastação, porta de entrada à implementação de um indesejável deserto.
Diz a mensagem que existe um PL 1183/2026, destinado a garantir mais dez anos de proteção. Que ele seja aprovado, portanto. É urgente preservar nossa mais icônica parcela de mata nativa, tudo o mais já foi detonado, para erguer uma cidade pavimentada, que mais serve ao automóvel do que às pessoas.
O poder da cidadania é incontestável. Lembro-me da tentativa de converter uma área da Toca em zona urbana, para receber um conjunto habitacional e do movimento que meus amigos alunos fizeram junto ao então Prefeito Miguel Haddad, que agiu corretamente. Vetou o PL da Câmara daquela época.
Apoiar o PL 1183/2026, fazer abaixo-assinados, endereçar e-mails e WhatsApps ao prefeito, aos vereadores, motivar a população a se manifestar, tudo é válido quando o que está em jogo é proteger a população. Principalmente os que ainda não nasceram, e pelos quais somos responsáveis por força do disposto no artigo 225 da Constituição da República.
Não deixemos destruir a única dádiva que nos permite distinguir das cidades cor-de-cinza que se transformaram em lugares impróprios, insalubres, desprovidos de verde e nocivos à saúde humana. Unamo-nos e ajamos.
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo