Jundiaí, que gera 12 mil toneladas de lixo por mês, especialmente resíduos recicláveis, tem capacidade de produzir Combustível Derivado de Resíduos (CDR) e gerar renda a partir dos resíduos sólidos. Essa notícia foi dada durante o evento realizado pelo Fórum Regional de Comércio, Indústria e Serviços de Jundiaí e Região (Forcis). Segundo adiantou o diretor da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), Antônio Januzzi, o montante de resíduos gerados é o suficiente para gerar energia para 11 mil pessoas.
De acordo com ele, o município tem condições de produzir CDR que é uma tecnologia que transforma parte do lixo em fonte energética. “São 12 mil toneladas de resíduos que equivalem a cerca de 2.000 MWh de energia, evitando a emissão de 9 mil toneladas de carbono, o que corresponde ao plantio de 63 mil árvores”, explicou.
O processo consiste na separação de materiais com alto poder calorífico, como papel, plástico, madeira e tecidos. Segundo ele, essa é uma tendência mundial que permite substituir combustíveis fósseis e dar nova destinação ao lixo. “O CDR é justamente aproveitar as frações mais secas do resíduo, que têm potencial de combustão, e transformá-las em combustível”, afirma.
Apesar do potencial, especialistas alertam que a implantação da tecnologia depende de uma série de fatores. O advogado ambientalista e ex-promotor de Justiça do Meio Ambiente de Jundiaí, Claudemir Battaglini destaca que o aproveitamento energético é apenas uma das alternativas dentro de um conjunto mais amplo. “Temos que pensar em reduzir a geração de lixo, ampliar a reciclagem e trabalhar a economia circular. O que não for possível reaproveitar pode, sim, gerar energia”, diz.
Battaglini ressalta ainda que a viabilidade de uma usina depende de critérios rigorosos. “É necessário estudo de impacto ambiental, licenciamento e escolha adequada da área. Não pode ser próximo à Serra do Japi, mananciais ou áreas residenciais. Além disso, a tecnologia precisa garantir que não haja poluição atmosférica”, explica.
Atualmente, Jundiaí não possui aterro sanitário próprio e envia seus resíduos para Cajamar e Paulínia, o que gera custos com transporte. Segundo o gerente da Cetesb em Jundiaí, Domenico Tremaroli, o cenário exige novas soluções alinhadas à legislação nacional. “O plano nacional prevê que, até 2040, até 50% dos resíduos deixem de ir para aterros e passem a ser aproveitados como energia, combustível ou insumo”, afirma.
Ele também aponta que soluções regionais podem ser mais viáveis. “Jundiaí tem potencial, mas a integração com municípios da região pode fortalecer o projeto e torná-lo financeiramente mais viável”, ressalta.
No estado de São Paulo, a discussão ganha ainda mais relevância diante do volume expressivo de resíduos: são cerca de 42 mil toneladas por dia. A expectativa é que o novo Plano Estadual de Resíduos Sólidos, em elaboração, amplie o aproveitamento desses materiais e incentive a geração de energia a partir do lixo. Para os especialistas, o desafio agora é transformar o potencial em realidade. “O lixo deixou de ser apenas um problema. Hoje ele é um ativo, tem valor econômico e ambiental. Precisamos avançar nesse debate o quanto antes”, conclui Domenico.