15 de março de 2026
HISTÓRIAS DA CIDADE

Azarias Leite: mineiro veio desbravar o sertão e comandou Bauru

Por Priscila Medeiros e Alex Sanches Gimenez (historiador) | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Velório de Azarias Leite reuniu pessoas de toda a região

Na segunda metade do século 19, muitos mineiros fizeram de um lugarejo na "boca do sertão" paulista, denominado Bauru, sua morada. Entre eles estava Azarias Ferreira Leite.

Nascido em 8 de dezembro de 1866, em Carrancas, então município de Lavras, Azarias visitou o vilarejo de Bauru pela primeira vez em 1884, aos 18 anos. Retornou em 1888 ao lado de sua esposa Vicentina, filha do capitão João Batista de Araújo Leite (leia abaixo), que, além de tio, era sogro de Azarias.

Nessa época, Bauru era vila fazia parte do município de Espírito Santo da Fortaleza. Ao decidir fixar residência na região, Azarias Leite passou a integrar ativamente a vida política e social do então pequeno povoado, que ainda enfrentava os desafios típicos de uma área em processo de ocupação e desenvolvimento. Com o passar dos anos, consolidou-se como uma das principais lideranças locais.

Coronel da Guarda Nacional, Azarias exerceu forte influência política em Bauru até 1910. Foi eleito vereador por diversas legislaturas e, por escolha de seus pares, presidiu a Câmara Municipal em três períodos: de 1897 a 1898, de 1906 a 1907 e de 1908 a 1910. Sua atuação também alcançou o cenário estadual, evidenciada pelo apoio à eleição de Hermes da Fonseca à Presidência da República, em 1909.

Entre suas principais bandeiras estava a defesa do desenvolvimento institucional de Bauru. Azarias batalhou pela criação do Distrito de Paz, pela instalação de escolas e pela implantação da Comarca (limite geográfico de atuação de um juiz de primeiro grau, que organiza o atendimento da Justiça de forma mais próxima da população) na cidade. Em 1893, ao lado do capitão João Batista de Araújo Leite, viajou a São Paulo para apresentar às autoridades o crescimento da região e pleitear oficialmente a criação do Distrito de Paz de Espírito Santo da Fortaleza.

O esforço foi reconhecido no ano seguinte, quando João Batista de Araújo Leite foi eleito o primeiro juiz de paz da localidade, em 1894. Ainda assim, a consolidação administrativa da cidade enfrentou resistências políticas, especialmente em relação à disputa com Agudos pela sede da Comarca. Azarias tornou-se um dos principais defensores da instalação da estrutura judiciária em Bauru e mantinha estreitas relações com autoridades e lideranças políticas do Estado. Essa atuação, no entanto, provocou desconforto em setores contrários à mudança da sede do Judiciário para o município.

O cenário político tornou-se ainda mais tenso após denúncias feitas por Azarias contra o juiz Dr. José Pedro de Castro, da Comarca de Agudos, relacionadas a irregularidades envolvendo bens da família Carneiro. O conflito institucional se intensificou quando o então prefeito de Bauru, Álvaro de Sá, encaminhou ao Congresso uma representação solicitando oficialmente a criação da Comarca local. Em meio às disputas políticas, Azarias chegou a registrar em ata, em 1910, um protesto formal contra agressões que atribuía ao juiz de Agudos. Meses depois, no entanto, o conflito teria um desfecho trágico.

No dia 19 de outubro de 1910, Azarias Leite foi assassinado nas proximidades do Rio Bauru. O local exato do fato diverge entre os memorialistas da cidade. Alguns apontam que o crime ocorreu na área que posteriormente ficou conhecida como Baixada do Silvino. Outros afirmam que foi logo após a ponte sobre o Rio Bauru, onde hoje fica o quarteirão 1 da rua Araújo Leite. O autor do crime, Joaquim Honorato, foi preso no dia 25 de outubro e confessou que o assassinato havia sido encomendado meses antes pelo juiz da Comarca de Agudos, preocupado com a possível transferência da sede do Judiciário para Bauru.

A morte de Azarias Leite provocou grande repercussão em todo o país e gerou forte comoção entre os moradores da cidade e da região. Paradoxalmente, o assassinato acabou acelerando o processo político que ele próprio defendia. Poucas semanas após o crime, foi oficializada a criação da Comarca de Bauru, em dezembro de 1910. O funcionamento efetivo ocorreu em março de 1911, sob a condução do primeiro juiz da cidade, Rodrigo Romeiro.

Azarias também teve participação importante na chegada da estrada de ferro a Bauru. De acordo com relatos de memorialistas, em 1904, quando engenheiros da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil chegaram à cidade de Pederneiras para o início das obras da ferrovia, o então prefeito da cidade vizinha não compareceu aos festejos.

Questionado sobre o motivo da ausência, o prefeito respondeu de forma agressiva aos engenheiros e à população que o questionava. Para apaziguar os ânimos, Azarias (que estava presente) convidou os responsáveis pela ferrovia para passar alguns dias em sua fazenda, em Bauru.

Segundo os relatos, esse gesto teria influenciado o chefe da comitiva a decidir iniciar a implantação da estrada de ferro no sertão paulista pela cidade de Bauru. A ferrovia foi inaugurada em 1910. Símbolo do pioneirismo e da luta pelo desenvolvimento do município, Azarias Leite dedicou grande parte de sua vida à consolidação política e administrativa de Bauru. Sua trajetória permanece marcada como parte fundamental da história da cidade, assim como a de seu tio, Araújo Leite.

Ambos deram seus nomes a ruas de Bauru, hoje famosas e movimentadas, localizadas na região central e que abrigam residências e diversos estabelecimentos comerciais. A rua Araújo Leite é a via mais extensa do município, com 40 quadras, e correspondia à antiga estrada que ligava Bauru ao município de Agudos, figurando entre as primeiras abertas na cidade. Azarias Leite também deu nome a uma escola estadual localizada na rua Adante Gigo, no Jardim Carolina. A homenagem foi feita pelo então governador de São Paulo, Paulo Maluf, em 1980.

João Batista de Araújo Leite

Natural de Minas Gerais, João Batista de Araújo Leite era agricultor na cidade de Lavras. Na região, era reconhecido pelo caráter bondoso, pela humildade e pelo temperamento tranquilo, qualidades que lhe garantiam grande respeito entre os moradores. Uma de suas filhas casou-se com Azarias Leite. Inicialmente, Araújo Leite não demonstrava interesse em abandonar as terras onde nascera para investir em novas propriedades. No entanto, após muita insistência de Azarias (que acreditava nas oportunidades do sertão, bastante comentadas na época) decidiu aceitar a mudança em 1888.

Eles passaram então a adquirir terras em sociedade, somando cerca de doze mil alqueires. Ali estruturaram uma grande fazenda voltada principalmente ao cultivo de café e de diversos cereais, além da formação de pastagens e invernadas destinadas à criação de gado e de outros animais típicos da atividade rural.

Um dos pioneiros da região era José Ferreira Figueiredo, que havia formado uma fazenda próxima às terras dos dois mineiros. Encantado com o local, ele propôs uma troca de propriedades, acordo que acabou sendo aceito. Assim, Azarias e João Batista passaram para a fazenda criada por Figueiredo, enquanto ele assumiu a área dos mineiros, batizando-a de Val de Palmas (cuja casa sede existe até hoje). A nova propriedade recebeu o nome de Areiópolis, escolhido por Azarias e seu sogro em homenagem a uma de suas filhas, Áurea.

João Batista de Araújo Leite estabeleceu relações com moradores e lideranças políticas do vilarejo. Participava ativamente das decisões administrativas e apoiava o genro, que havia se filiado ao partido situacionista. Sua atuação foi importante para o desenvolvimento da vila, que crescia rapidamente.

Em 1894, tornou-se o primeiro juiz de paz eleito em Bauru. No entanto, permaneceu pouco tempo no cargo, pois faleceu no ano seguinte, em 1895.

Azarias e Araújo Leite estão enterrados no mesmo túmulo na rua principal do Cemitério da Saudade de Bauru, em um túmulo de mármore preto. O filho de Azarias, Américo Leite Sobrinho, falecido em 1980 também está enterrado ali.