01 de março de 2026
INVESTIGAÇÃO

Fornecedora do SUS captou R$ 30 mi com empresa investigada

Por Mateus Vargas e José Marques | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução
Empresa foi alvo na Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal

Alvo de investigações por suspeita de ocultar patrimônio e lavar dinheiro do crime organizado, a Insight Participações S.A. emprestou cerca de R$ 30 milhões para uma distribuidora comprar medicamentos que seriam fornecidos ao Ministério da Saúde.

O aporte custeou a primeira entrega de imunoglobulina da Farma Medical ao SUS. A distribuidora diz ter captado o recurso sem conhecer as suspeitas contra a financiadora e depois de receber negativas de crédito dos bancos tradicionais.

Os lotes chegaram ao Brasil em outubro de 2023, mas foram interditados após a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) identificar falhas no controle de temperatura no transporte do medicamento. O ministério decidiu então romper o contrato com a Farma Medical, que não recebeu o pagamento do governo federal --o que também barrou os planos da Insight de financiar todo o contrato de R$ 87,63 milhões, que previa novas entregas do medicamento.

Quase dois anos depois, em agosto de 2025, a Insight foi alvo de busca e apreensão na Operação Carbono Oculto, que mirou a atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital) na economia formal.

Diretor e fundador da empresa, Himad Abdallah Mourad é primo de Mohamad Hussein Mourad, que está foragido e é apontado como um dos líderes da organização criminosa que teria infiltrado o PCC no mercado de postos de gasolina.

A ação policial cumpriu mandados em edifícios na avenida Faria Lima, em São Paulo, coração do mercado financeiro, onde funcionam gestoras de investimentos e bancos, além de empresas como a Insight. Até o momento, as operações feitas como desdobramento da Carbono Oculto não tiveram como foco o financiamento de grandes contratos do SUS.

Selecionada pelo ministério sem licitação em abril de 2023, a distribuidora Farma Medical, que tem sede registrada em Manaus (AM), assinou em junho uma nota comercial com a Insight prevendo que os recursos seriam usados pela distribuidora para pagar o fabricante chinês da imunoglobulina.

Feito à base do plasma sanguíneo, o medicamento é indicado para pacientes com o sistema imunológico comprometido, inclusive em casos específicos associados ao HIV.

Na nota comercial, a Insight foi representada pela Reag, gestora de recursos que também foi alvo da Operação Carbono Oculto. A administradora acabou liquidada após vir à tona a relação dela com o Banco Master, de Daniel Vorcaro.

O contrato previa que a Insight custearia toda a compra de imunoglobulina. Em troca, receberia o valor emprestado para a Farma Medical com correção pela taxa Selic, além do equivalente a 85% do lucro líquido da entrega ao SUS.

Em nota, o Ministério da Saúde disse que atua "com rigor" na fiscalização e que aplicou uma multa de US$ 1,69 milhão por descumprimento de contrato. O valor, porém, foi cobrado da Prime Pharma LLC, que também ficou impedida de participar de licitações por dois anos. A empresa com sede nos Emirados Árabes era representada pela Farma Medical no Brasil.

O ministério não informou se a multa já foi paga. A pasta disse que o contrato foi firmado muito antes da operação policial e cumpriu regras previstas para todos os concorrentes. "Não há previsão legal de investigação criminal prévia de pessoas físicas, nem interferência na escolha por parte das empresas de seus representantes", disse a Saúde.

Nos documentos ligados à contratação da Farma Medical pelo governo, não há menção à Insight. A empresa investigada também não recebeu pagamentos da Saúde.

Na representação que embasou a Operação Carbono Oculto, o Ministério Público de São Paulo afirma que Himad era um dos "principais expoentes" do grupo liderado por Mohamad Mourad, conhecido como "primo". O dono da Insight se mostra "fundamental para a blindagem patrimonial e a lavagem de capitais da organização, utilizando uma complexa rede de empresas e fundos de investimento", diz o documento.

A representação afirma que a Insight foi inicialmente criada por Himad para abrigar imóveis pertencentes aos investigados. Diz ainda que a empresa teve movimentação financeira de R$ 18,5 bilhões "em comunicações atípicas", considerando créditos e débitos. O documento não detalha o período das transações.

O Ministério Público também afirma que Himad comandaria uma rede de mais de 100 postos de gasolina que seriam usados no esquema criminoso. Os endereços dele e da Insight foram alvos de buscas. Os bens e imóveis de Himad foram bloqueados. Ele ainda é mencionado nas investigações da operação Tank, deflagrada no mesmo dia da Carbono Oculto.

Em outubro, Himad foi alvo da operação Octanagem, um desdobramento da Carbono Oculto que mirou postos de combustível, sob suspeita de que os estabelecimentos estariam por trás de um esquema de adulteração de gasolina e lavagem de dinheiro.

O empresário Silvio Pereira, que controlava a Farma Medical em 2023, disse que a empresa não tinha recursos suficientes para bancar toda a operação de quase R$ 90 milhões, que envolvia pagamento antecipado ao fornecedor chinês, entre outros custos logísticos e tributários.

"A antiga gestão conversou com alguns bancos e, na época, não se encontrou nenhuma instituição com linha de crédito específica para este tipo de contrato que pudesse financiar em tempo hábil", diz nota encaminhada pelo escritório Kojoroski Advogados.

O empresário afirmou que recebeu a proposta de linha de crédito da Insight por meio de nota comercial e que "não havia absolutamente nenhum conhecimento por parte dos controladores da Farma Medical sobre qualquer investigação envolvendo os cotistas".

Em janeiro de 2024, a holding Bozovic, ligada ao empresário Marcus Silva, assumiu o controle acionário da Farma Medical. Os novos controladores levaram à Justiça e para a polícia acusações de que a gestão anterior fraudou balanços da empresa ao lançar como ativo, em vez de dívida, o valor do empréstimo da Insight. Silvio nega as acusações e afirma que a Bozovic tinha pleno conhecimento das transações.

A imunoglobulina que seria entregue ao SUS não tinha registro da Anvisa. O ministério optou por essa compra excepcional sob o argumento de que não havia oferta da indústria regularizada no Brasil.

A Farma Medical foi escolhida por um chamamento público de empresas, feito de emergência para evitar desabastecimento.

A distribuidora apresentava poucos contratos federais, somando cerca de R$ 4,5 milhões em pagamentos da Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), Ministério da Defesa e outros órgãos quando foi escolhida. A Farma Medical representou a Prime Pharma LLC, que receberia o pagamento do governo em Dubai, e comprou a imunoglobulina da chinesa Harbin Pacific.

A distribuidora entregaria 90 mil frascos, mas o contrato foi travado com a interdição das primeiras 31 mil unidades. Os produtos chegaram ao Brasil sem o equipamento usado para monitorar a variação da temperatura durante o transporte. Como a imunoglobulina é um produto biológico, deve ser mantida entre 2°C e 8°C em todo o trajeto.