Essa é uma história real de uma mulher que, durante um bom tempo, foi minha cliente e que chamarei aqui na coluna do jornal, por motivos de privacidade, de “Clarice”. No entanto, devo enfatizar que esta história poderia ser sobre um homem e teria a mesma força e veracidade.
Clarice era uma esbelta senhora de meia idade, mas caso fosse mais jovem ou mesmo idosa, a história ainda assim poderia ocorrer. Poderia, aliás, ter qualquer forma corporal. Acredito até que poderia ser qualquer um a ocupar o lugar dela, pois a situação é mais comum do que se imagina.
Clarice tinha se casado muito cedo, deu à luz dois filhos ainda bem jovem e, tão súbito e rápido como foi o início do seu matrimônio, ele chegaria a um fim precoce, tão logo os filhos saíssem de casa e a vida de casal ficasse pesada demais. “Meio de repente” Clarice estava de frente para o futuro de uma maneira que nunca estivera antes, disponível para oportunidades e - por que não? - novos e empolgantes relacionamentos.
De fato, Clarice conheceu alguém. Um pouco mais jovem e simpático, parecia ser o que ela precisava para recomeçar.
Não tinha muita certeza do que queria, mas estava disposta a descobrir. Meses se passaram e comportamentos abusivos surgiram. Sentimentos de posse, intrigas para apartá-la da filha, sua confidente, e mesmo das antigas amigas. Queixas que fazia eram tratadas como exageros e pequenas chantagens, envolvendo inclusive “apoio” financeiro, começaram a acontecer.
Clarice, que precisava de amor e reconhecimento mais do que nunca, levou um bom tempo para perceber que sua fonte de amor, antes cristalina, estava ficando escura e lamacenta, imprópria para o consumo.
Esse era o cenário quando Clarice procurou ajuda para tratar o desânimo, o medo e a ansiedade que a impediam de dormir uma noite decente de sono há meses, dores nas costas, entre as escápulas, que nunca teve, mesmo se exercitando. O diagnóstico era depressão, mas sabíamos, ela e eu, que tratávamos um coração partido com muito medo de amar.
“Deixa disso, Clarice!”, disse eu, depois que ela motivada pelo fluxo da aplicação, aos prantos, disse que pensava muito nele e no porquê os dois não tinham “dado certo”. Puxão de orelha para mim, óbvio. Como estudioso da mente, deveria saber que não é tão fácil romper laços nos quais investiu tão profundamente, além do que, nosso cérebro é “programado” para fazer o que é familiar, conhecido, mas não para o novo e desafiador.
Clarice sempre conheceu sua felicidade conjugal atrelada à sua performance naquilo que ela podia fazer pela união e não baseada em quem ela simplesmente era, sem esforço. Não lhe era familiar ser feliz sem precisar “se entregar sem limites”, cenário em que sempre esteve, no primeiro, no segundo relacionamento e talvez até mesmo quando criança, observando e aprendendo com o relacionamento dos pais.
Clarice ficou bem, respirem aliviados todos. Dependeu de acupuntura, fitoterápicos e mesmo de medicações alopáticas por um tempo, mas o trabalho de construir a autoestima recompensou. Já teve alta e, até onde sei, vive feliz, em uma “trilha” bem diferente daquela que estava acostumada.
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina chinesa e osteopatia