Alunos de uma escola estadual de Caçapava, no interior de São Paulo, tiveram aulas de comandos militares ministradas por monitores do modelo cívico-militar, com registro de erros de grafia no quadro, no início do ano letivo. A Secretaria da Educação do estado afirmou que a situação foi pontual, ocorreu no primeiro dia de implementação do programa e não faz parte da rotina prevista.
Durante a atividade, palavras como "descançar" e "continêcia" foram escritas de forma incorreta no quadro. As grafias corretas são "descansar" e "continência". Após ser alertado, o monitor corrigiu os termos ainda durante a aula.
A atividade fazia parte de uma apresentação inicial relacionada à ordem unida, conjunto de movimentos padronizados comuns à formação militar, e foi conduzida por policiais militares aposentados que atuam como monitores no modelo cívico-militar adotado pela rede estadual.
O episódio levantou questionamentos sobre os limites da atuação desses profissionais, uma vez que a secretaria havia informado anteriormente que os monitores não entrariam em sala de aula e não ministrariam atividades pedagógicas.
Segundo a pasta, os monitores militares não devem atuar em sala de aula exercercendo função pedagógica, e não faz parte da rotina entrarem na sala. A pasta reforçou ainda que todo o conteúdo pedagógico é elaborado e aplicado pelos docentes da escola. E, neste início de implementação, os monitores estão passando orientações sobre as atividades de disciplina e promoção de valores cívicos.
Todos os monitores do Programa Escola Cívico-Militar, de acordo com a gestão estadual, serão submetidos a processos semestrais de avaliação de desempenho para verificar adaptação e permanência em cada unidade escolar.
Em nota, a pasta reiterou que o conteúdo pedagógico segue sob responsabilidade exclusiva dos professores. Os monitores atuam no apoio à rotina escolar, com foco em disciplina, respeito e valores cívicos.
A Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) repudiou o modelo cívico-militar, que classifica como inconstitucional.
A entidade voltou a criticar a contratação de militares aposentados sem debate com a comunidade escolar e afirmou que, mesmo sem ministrar aulas, os monitores mantêm contato direto e diário com alunos sem formação pedagógica adequada.
Ao todo, 11 escolas estaduais do Vale do Paraíba iniciaram 2026 no modelo cívico-militar, distribuídas em dez cidades da região. A nova rotina passou a vigorar nesta semana, com o início do ano letivo.
Em todo o estado, o programa alcança cerca de cem escolas da rede paulista. Ao todo, 208 policiais militares aposentados passaram a atuar como monitores nas unidades participantes, que atendem aproximadamente 53 mil alunos, o equivalente a cerca de 1,5% das matrículas da rede.
À Folha, o secretário executivo da Secretaria Estadual de Educação, Vinicius Neiva, afirmou que a quantidade de monitores por escola ainda está em avaliação e será definida conforme a realidade de cada unidade. Segundo ele, a implantação do modelo não altera a proposta pedagógica da rede estadual.
"Os militares não entram em sala de aula para interferir no conteúdo pedagógico. O modelo prevê apoio à rotina escolar e a oferta de uma disciplina no contraturno voltada à cidadania", disse Neiva.
Promessa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o programa das escolas cívico-militares deveria ter começado em 2025, mas foi adiado após decisões judiciais. A implementação tem custo estimado de R$ 17 milhões por ano, destinados ao pagamento dos militares aposentados.
Eles recebem uma diária de R$ 301,70, valor que pode chegar a cerca de R$ 6.000 mensais, somado à aposentadoria, caso cumpram carga máxima de 40 horas semanais. A maioria dos selecionados é composta por praças, para os quais não é exigido ensino superior.
A Apeoesp afirmou que o modelo parte do "falso pressuposto" de que a presença de militares é necessária para impor disciplina e promover civismo nas escolas, papel que, segundo o sindicato, cabe aos professores, por meio da formação pedagógica e do trabalho transversal em sala de aula.