Uma tosse seca que não passa e chega a ser incapacitante, impedindo alimentação, hidratação e sono, este é o principal sintoma da coqueluche, doença respiratória causada por bactéria e que também é conhecida como “tosse comprida”. A coqueluche tem vacina, mas a imunização, que existe há algumas décadas, não abrangeu toda a população. Por conta disso, de tempos em tempos, há aumento de casos. Isso acontece agora.
Na cidade de São Paulo, até abril, havia 17 casos de coqueluche registrados. Já nesta terça-feira (11), o número havia subido para 105. Em Jundiaí, de acordo com a Unidade de Gestão de Promoção da Saúde (UGPS), neste ano, há dois casos suspeitos de coqueluche. O município aguarda confirmação do diagnóstico. Em 2023 e em 2022, um caso foi registrado em cada ano.
Caso confirmado de coqueluche em Jundiaí neste ano, Marina, de 15 anos, filha do professor Rafael Porcari, teve dificuldade para ser diagnosticada com a doença. “Ninguém pensa em diagnosticar como coqueluche, porque ‘não existe mais’. A doença começa como um resfriado, você vai tratando como uma gripezinha, mas é uma bactéria, que vai aumentando, e tem uma tosse que aumenta, inclusive o pessoal chama de tosse comprida. Eu até cheguei a brincar, falar que parecia coqueluche, e era isso mesmo”, conta Rafael.
Para ele, houve uma saga até que a doença fosse identificada. “Eu levei ela a dois pneumologistas. A primeira médica não considerou que fosse, porque nunca tinha tratado coqueluche, e o diagnóstico leva de 10 a 15 dias. Depois, ela foi a outro pneumologista e trocou o antibiótico, mas a bactéria já tinha certa resistência, então ela precisou ser internada. Ela já vai para 10 dias tossindo e tosse muito, chega a vomitar, porque engasga, pode perder a respiração. Ela não consegue nem beber água, é tudo pela veia agora e não tem como tirar do hospital. Ela tem 15 anos e está com a vida travada”, lamenta.
Porcari alerta sobre a importância da vacinação. “Nosso pneumologista disse que a eficácia da vacina da coqueluche é em torno de 85%. A pessoa é vacinada e, se está nos 85% pode pegar a doença, mas os sintomas são minimizados. Por outro lado, se for entre os 15%, passa por isso que a minha filha está passando. Ela é vacinada, tomou a vacina quando era criança, mas com certeza pegou de alguém que não se vacinou”, diz ele, reiterando que há volta de doenças por causa da baixa cobertura vacinal.
O professor diz que o acesso ao imunizante, no entanto, também não é tão fácil para adultos e idosos. “Fui saber da vacina porque meus pais são idosos, mas o pessoal do posto de saúde está perdido ainda, não tem vacina fácil. Acho importante conscientizar as pessoas sobre a vacinação. A irmã mais nova da Marina tem sete anos, elas dividem quarto e ela não teve nada, porque a vacina dela funcionou. Também é importante, ao perceber os sintomas, já pedir o diagnóstico, porque o tratamento fica mais difícil conforme o tempo passa, a bactéria fica mais forte”, conta.
Pediatra, Saulo Duarte Passos diz que a coqueluche geralmente é transmitida por pessoas mais velhas. “É uma bactéria transmitida pelo ar, mas pode ser prevenida, com vacina. É uma doença que tem sazonalidade, a cada cinco ou dez anos, tem picos. Com a vacinação, deixaram de surgir casos diretamente pela bactéria. Só que pessoas com mais de 50 anos não foram imunizadas e, com a imunização, a bactéria deixou de circular, então quem não foi vacinado tem falta de estímulo para a imunidade. Hoje a transmissão acontece por um adulto mais velho tossidor”, comenta.
O médico explica que não há uma medicação específica. “É uma tosse prolongada crônica, sempre muito grave para bebês, porque pode faltar oxigênio e o bebê chegar a ter convulsão. Por isso, bebê com coqueluche sempre tem que ser internado, porque precisa de oxigênio. Os chineses têm até um ideograma para coqueluche que significa ‘tosse dos 100 dias’. E não tem tratamento específico, o antibiótico ajuda a diminuir a carga de bactéria no organismo, mas contribui mais para que não haja transmissão. A pessoa vai melhorando com o tempo. É desolador, mas é verdade.”
Saulo também reforça a importância da vacinação, não só para crianças. “Não é doença só de criança e não fica imune se pegar uma vez, então tem que ter vacinação sempre. A proteção é de 85% se a pessoa tiver três doses e o reforço, porque a vacina é antiga, feita com a bactéria, por isso tem que manter a vacina sempre em ordem. A cobertura vacinal está horrível no Brasil nos últimos anos, então a tendência é voltar todas as doenças. É importante que não só crianças, mas adultos e idosos também busquem a imunização”, orienta.
A Unidade de Gestão de Saúde informa que coqueluche é uma doença de notificação compulsória. Todos os serviços de saúde públicos e privados notificam os casos suspeitos à Vigilância Epidemiológica e coletam o exame para confirmação ou descarte. Além da oferta do tratamento em tempo oportuno ao paciente, é efetuada a busca de comunicantes íntimos (moradores da mesma residência) para quimioprofilaxia e reforço vacinal (caso estejam com a vacinação atrasada).
A vacina contra coqueluche faz parte do Calendário Nacional de Imunização. Aos dois, quatro e seis meses, é aplicada a Pentavalente, que protege contra tétano, difteria, coqueluche, hemófilos e hepatite B. Ainda são aplicados dois reforços aos 15 meses e quatro anos com a vacina DTP, que protege contra tétano, difteria e coqueluche. No Município, as doses estão disponíveis em todas as unidades básicas de saúde (UBSs), novas UBSs e clínicas da família, no horário de atendimento das salas de vacinas.
Não há informação sobre a disponibilização da vacina dTpa (versão acelular da DTP) em Jundiaí. De acordo com o Instituto Butantan, a dTpa é indicada para maiores de sete anos que não tomaram a DTP, para profissionais de saúde e para grávidas até o terceiro trimestre de gestação. Levando em conta que a doença não traz imunidade a quem contraiu, ou seja, quem foi infectado pode voltar a tê-la, a recomendação é que adultos recebam doses de reforços da dTpa a cada cinco a 10 anos. Ela é disponibilizada pelo SUS para gestantes, puérperas e profissionais da área da saúde, mas também pode ser encontrada em clínicas particulares.