09 de julho de 2026
ESPIONAGEM

PF e Abin fizeram em conjunto diligência chave no caso do software espião

Por Ranier Bragon | da Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min
José Cruz/Agência Brasil/Arquivo
Sede da Abin (Agência Brasileira de Inteligência)

Apesar de nos bastidores estarem em embate, a Polícia Federal e a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) fizeram uma ação conjunta durante as apurações sobre o uso do software espião pela gestão de Jair Bolsonaro (PL).

Em 10 de maio de 2023, integrantes das duas corporações se reuniram com a empresa Cognyte, fabricante do software israelense FirstMile, e formalizaram em ata procedimentos para a recuperação e repasse de dados do uso da ferramenta pela Abin.

De acordo com dados compilados da comissão de sindicância investigativa instaurada pela Abin, e obtidos pela Folha de S.Paulo, o encontro resultou na entrega pela empresa à PF e à agência de inteligência de pendrives com os dados recuperados.

Em manifestação ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), a PF acusa a atual gestão da Abin de dificultar as investigações e promover um "conluio" interno com o objetivo de livrar servidores da punição.

De principal, a PF cita uma reunião da cúpula da Abin já sob Lula com servidores em que o número 2 da agência, Alessandro Moretti, teria dito que o caso tinha fundo político e iria passar.

A agência nega e diz ter colaborado desde o primeiro momento com as investigações da polícia. Integrantes da PF dizem nos bastidores acreditar que os indícios levantados na operação deflagrada na quinta-feira (25) mostram a necessidade de troca no comando da Abin. As duas instituições têm se estranhado desde o começo do governo Lula (PT).

O FirstMile é o software adquirido pela Abin no final da gestão Michel Temer (2016-2018) e que começou a ser usado no governo Bolsonaro, tendo ficado em operação de 2019 a 2021.

Atualmente, ele é alvo de investigação da Polícia Federal sob a suspeita de ter sido usado pela gestão Bolsonaro para espionagem ilegal de adversários políticos. O software fornece a localização aproximada das pessoas por meio dos sinais enviados por aparelhos às antenas de telefonia celular. Segundo pessoas com conhecimento da ferramenta, ela não acessa conteúdos de ligação ou de trocas de mensagem.

Apesar de a agência ter registro de parte dos números de telefones monitorados na gestão Bolsonaro, a grande precariedade do controle sobre a ferramenta levou PF e Abin a buscar recuperação de dados na própria empresa.

Duas operações solicitadas pela PF e autorizadas por Moraes já foram realizadas, em outubro passado e na última quinta-feira.

Em meio a essa última, o diretor-geral da Abin, Luiz Fernando Corrêa, convocou uma reunião de diretoria, o que foi visto pela PF como tentativa de atrapalhar a investigação já que, entre outros pontos, estava sendo cumprido mandado de busca e apreensão inclusive na sede da agência, em Brasília.

Após o jornal O Globo revelar a suspeita de uso ilegal do software, em março de 2023, a PF abriu inquérito e a Abin também instaurou uma comissão de sindicância investigativa.

A sindicância teve por objetivo formal aprofundar as apurações internas feitas pela agência ainda na gestão Bolsonaro, mas que tinha concluído apenas que faltavam normas claras de utilização da ferramenta, além de não haver mecanismos eficazes de registro do uso.

Durante a sindicância aberta pela atual gestão da Abin, foram ouvidos 69 servidores e ex-servidores, em um total de 79 depoimentos tomados.

A Abin ainda expediu informações à PF por meio de 11 ofícios, além de outros 3 enviados ao STF.

A agência diz que jamais deixou de fornecer informações, nem houve atraso. E também afirma que a PF jamais formalizou qualquer tipo de queixa de falta de resposta ou de tentativa de obstrução.

Procurada, a PF disse que não comenta investigações em curso.