O Santuário Nacional de Aparecida tornou-se bastião de defesa da democracia e de crítica ao autoritarismo, ao ódio e ao populismo no país ao longo do governo do presidente Jair Bolsonaro (PL).
Não foi diferente neste 7 de setembro, quando foi celebrado o bicentenário da Independência do Brasil.
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Em Aparecida, a missa das 9h na Basílica nesta quarta-feira (7) recebeu a romaria dos trabalhadores e o Grito dos Excluídos, movimentos que lutam contra a desigualdade, a pobreza e a fome.
A missa foi presidida pelo arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, que assumiu a arquidiocese no começo de 2017 e se transformou no maior símbolo dessa defesa da fé combinada à vida.
O catarinense Brandes vem se destacando com sermões impactantes (e polêmicos) durante as festas da Padroeira do Brasil, em 12 de outubro, ápice da devoção a Nossa Senhora Aparecida no país. E também em outras celebrações, como neste 7 de setembro, quando fez uma defesa apaixonada da democracia, da vida e da paz.
“A vida está tão ferida, machucada em nosso país. Em primeiro lugar está a vida. Deus nos conduz à vida, que precisa do pão e da fraternidade. A corrupção mata a vida, o consumismo mata a vida. As pessoas querem a pátria definitiva, com justiça e fraternidade”, disse o arcebispo.
Brandes disse ainda que a independência do Brasil “não está completa”. “Há muita escravidão e colonizados. Precisamos continuar o processo de independência, com democracia e fraternidade. O Brasil deveria ser a pátria mais justa e fraterna do mundo”.
Na parte final da homilia, o religioso defendeu o voto com consciência. “Para mudar a pátria, temos que exercer o poder do voto. Não são outras coisas que vão decidir, mas o poder do voto, que é o poder do povo, isso é democracia. Votar é também uma missão. O voto tem o poder de mudar”.
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POLÊMICAS
Não foi diferente no ano passado, primeira festa com público presencial após a pandemia do coronavírus. Lá estava Brandes e seu discurso pela democracia e contra a corrupção, o ódio, as fake news e as armas, o que o tornou alvo de grupos bolsonaristas.
“Amar a Deus sem amar os irmãos, sem ter solidariedade com os marginalizados, estamos mutilando a metade do Evangelho”, disse Brandes.
A frase “a pátria para ser amada, não pode ser pátria armada” no sermão bastou para o arcebispo virar alvo de bolsonaristas. Ele foi chamado de comunista e excomungado.
Em 2020, com a Basílica sem público, Brandes disse no sermão que “temos que nos despir da idolatria, às vezes idolatrando pessoas autoritárias”. Falou ainda que é preciso “despir-se da arrogância, do armamento”.
“Na cintura, vamos usar a veste da verdade, não das fake news”, disse o arcebispo na ocasião. E completou: “Há dragões que querem acabar com a vida”. Também foi atacado.
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TRADIÇÃO
A maior polêmica deu-se em 2019, no primeiro ano do governo Bolsonaro. Também na homilia da missa solene da festa, Brandes criticou o “tradicionalismo” e disse que “a direita é violenta e injusta”. Na época, ele falou para mais de 40 mil pessoas que lotavam a Basílica de Aparecida.
“Nas escrituras, o dragão é o diabo, o demônio, o mal que se organiza no mundo. Temos o dragão do tradicionalismo. A direita é violenta, é injusta. Estamos fuzilando o papa, o sínodo, o Concílio Vaticano 2º, parece que não queremos vida”.
Dias depois, em entrevista para a Jovem Pan, Bolsonaro disse que discorda do religioso e citou passagem bíblica que, segundo ele, defende o armamento da população
“Eu quero citar uma passagem bíblica aqui: ‘Lucas 22:36: O que não tem espada, venda a sua capa e compre uma’. Então, a Bíblia fala em arma. Essa passagem tem a ver com traições, quando Judas traiu Jesus. Tem arma na Bíblia”, disse Bolsonaro.
Quase três anos depois e a pouco mais de um mês da próxima festa da Padroeira, Brandes manteve a pregação contra a violência e disse, na missa de 7 de setembro, que a pátria deve ser feita com “liberdade e respeito” e olhando “para os pequeninos”. “Precisamos nos tornar cidadãos, porque somos todos irmãos. Temos que exercer a cultura do cuidado”.