15 de março de 2026

Cuca natalina


| Tempo de leitura: 4 min
As louças e utensílios usados na produção desta receita foram fornecidas pela Espaço Casa
“Diz-se típico todo produto que pertence a um determinado grupo, afirmando a veracidade e reafirmando a similaridade étnica; tradição é o que um mesmo grupo social compartilha, passando e aprendendo de geração em geração, salvaguardando as artes e os ofícios dos saberes.” 
 
A partir desse comentário de Hobsbawm podemos perceber que a kuchen (palavra que significa bolo) é a invenção de uma tradição na culinária alemã, tornando-se típica dos estados onde a imigração germânica foi muito forte- como Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. No Brasil os imigrantes lhe incorporaram produtos que no seu país de origem não existiam. É o caso da banana, considerada hoje a mais procurada das cucas, mesmo entre imigrantes alemães. Dia desses ouvi o chef Rodrigo Hubert, que tem programa de culinária na TV, dizer que sua avó alemã adora variar as cucas, preparando-as com diferentes recheios, mas que a preferida dele e de toda a família é mesmo a de banana.
 
Além das frutas que não são mais apenas maçãs, peras, cerejas, ameixas e uvas, de forte tradição na gastronomia europeia, outros dois ingredientes foram logo substituídos em terras brasileiras. A manteiga cedeu seu lugar ao óleo e ao azeite, contrariando o costume que desde a Idade Média se mantinha: as elites europeias encontravam na primeira um meio de se distinguir do restante da sociedade e os registros de receitas da nobreza da época mostram o uso abusivo do ingrediente. Quanto ao fermento, o biológico foi trocado pelo químico, talvez pela condição deste último de agir de forma imediata, desobrigando espera pelo crescimento da massa quando a temperatura está mais baixa. Assim se reinventam e se reinterpretam receitas, nas cozinhas do mundo inteiro. Típica ou não; tradicional ou não; autêntica ou não, a kuchen tal e qual chegou ao século XXI é hoje um bolo onipresente no sul brasileiro.De vez em quando aparece nova receita, algumas vezes surpreendente para os mais conservadores. É o caso da cuca de morang
o- impensável em certo período da história em que os frutinhos tão bonitos eram considerados vulgares, pois rastejavam no chão, algo então ignóbil para um alimento.
 
Levada muito a sério, a cuca conferiu visibilidade à pequena Santa Cruz, cidade do interior gaúcho que criou um selo de origem semelhante ao dos doces de Pelotas. A cidade faz também uma festa anual em homenagem à guloseima. É a Festa das Cucas, que acontece nos primeiros dias do mês de julho e integra, desde 2001, o calendário oficial da cidade.
 
Procurei para os leitores uma receita de cuca com jeito de Natal. Pesquisei em sites, revistas especializadas e livros. Acabei encontrando numa pequena publicação do SESI que tem por título Ceia de Natal. Faz parte do Programa Alimente-se Bem e exibe autoria : Maria Lúcia Ferreira. Ela fez um mix interessante de frutas europeia (cereja) e tropical (maracujá), mais castanhas e uvas-passas. O maracujá entrou como suco, casca e sementes. O resultado ficou delicioso e a apresentação bonita. De preço baixo, rende 18 porções e pode ser preparada em uma hora.
 
Corte o maracujá e separe a polpa. Reserve. Cozinhe a casca, espere esfriar, descasque, descarte a parte amarela, corte a parte branca em pedaços pequenos. Reserve. Passe a polpa do maracujá pela peneira e reserve separadamente o suco e as sementes. Você terá então: suco, sementes e casca picada. No copo do liquidificador coloque os ovos, o açúcar, o óleo e o suco de maracujá. Bata bem. Em outro recipiente, coloque a farinha e o fermento peneirados juntos. Faça uma cova e despeje a mistura líquida sobre a seca. Mexa bem até transformar os ingredientes em uma massa homogênea. Acrescente a casca picada do maracujá, a castanha-de-caju, a uva-passa, as cerejas. Misture. Disponha a massa em forma de aro removível untada e enfarinhada. Misture os ingredientes da farofa e coloque por cima da massa antes de levar ao forno. Asse em temperatura média (160º) por aproximadamente 40 minutos. Retire do forno e coloque sobre uma grade para esfriar. Desenforme sobre prato de bolo e decore a gosto, com cerejas, laço de fita v
ermelha, pinhas colocadas ao lado... Coisas assim, que fazem a diferença quando lançamos nosso olhar sobre elas. 
 
ingredientes
 2 maracujás médios
 4 ovos
 1 xícara (chá) de açúcar
 4 colheres (sopa) de óleo
 2 xícaras (chá) de farinha de trigo
 1 colher (sopa) de fermento em pó
 1 colher (sopa) de castanha de caju picada
 8 cerejas picadas em 4 partes
 ½ xícara (chá) de uva passa embebida em rum ou pinga
 
Farofa
 1 xícara (chá) de farinha de trigo
 1 xícara (chá) de açúcar
 2 colheres (sopa) de manteiga gelada em pedacinhos
 2 colheres (sopa) de castanhas de caju picadas
 1 colher (sopa) de fermento em pó
 2 colheres (sopa) de sementes de maracujá
 
porção: 10
dificuldade: fácil
preço: econômico