15 de março de 2026

Aprenda e se delicie com o 'Salaminho de chocolate'


| Tempo de leitura: 5 min
Infância - Guloseima de criança pode virar sobremesa e se tornar tema para muitas lembranças de adultos saudosos do tempo que se foi
Paladar e olfato são dois sentidos que caminham na maioria das vezes juntos. No âmbito da degustação, saborear uma fatia de abacaxi pressupõe sentir também seu cheiro peculiar. O perfume de uma maçã a torna mais apetecível. Uma mexerica sem o odor cítrico intenso não seria a mesma fruta. O que dizer de uma banana inodora? De um arroz doce sem canela? Doce de mamão ralado sem cravo-da-índia? Não dá. Degustamos também o cheiro, assim como comemos com os olhos. 
 
Cheiros e gostos estão muito imbricados e podem ser responsáveis pela fixação de memórias que se associam a acontecimentos significativos. O escritor Marcel Proust mostrou isso de forma maravilhosa ao erguer uma catedral de lembranças a partir de um perfume e de um gosto específicos. O protagonista de Em busca do tempo perdido, um dos maiores romances do século XX e de todos os tempos, começa a evocar seu passado a partir de uma experiência só aparentemente prosaica. Enquanto saboreia um biscoito chamado madeleine, recém mergulhado numa xícara de chá de tília, áreas da memória do narrador são despertadas. Acessadas de forma imediata, as lembranças remotas possibilitam a ele recuperar o menino que fora nas tardes silenciosas de Combray, na casa da tia Léonie. 
 
Proust é o primeiro exemplo que nos vem à lembrança quando falamos das memórias que nunca morrem, que permanecem em estado de espera, bastando um acontecimento fortuito para que sejam despertadas. Todos nós temos algo à mesa que pode desembrulhar o passado como se ele estivesse bem próximo. E os pratos que um dia nos alimentaram o corpo e acariciaram a alma possuem o condão de nos afagar em horas de inquietação. Tenho uma amiga que ao ficar gripada anseia pelo escaldado de fubá que a avó lhe fazia nestas ocasiões. Outra, se lhe acontece alguma melancolia que ameaça lhe minar as forças, apela para os bolinhos de chuva com que uma tia a surpreendia nos dias de férias. Mingau de aveia cura algumas angústias, me diz um amigo. Sopa de macarrão miúdo cozido no caldo de feijão pode ser revigorante para quem anda desalentado, garante outro. Panqueca ocupa lugar de destaque neste ranking de comidas a que os de língua inglesa chamam muito apropriadamente de “comfort food”. É expressão perfeita para definir esses pratos simples, macios, reconfortante e perfumados que lembram colo e carinho. 
 
Descobri recentemente que o salaminho de chocolate, alegria de muitas crianças na década de oitenta, faz parte deste pacote de comidas emocionais. Acho que foi uma invenção da Nestlé, que misturou bolachas, chocolate, nozes, ovos e manteiga e desenvolveu uma receita de extrema praticidade. Os amigos de meus filhos, ambos na casa dos quarenta, lembram-se desta guloseima e um deles, o Danilo Chedid, levou-nos num desses domingos em que almoçamos em grupo na casa do Junior, um salaminho de chocolate, feito por ele, que também gosta de incursões à cozinha. Ali na bandeja, nos seus contrastantes tons de marrom e branco, a sobremesa me fez lembrar de antigas casas e diferentes fogões. Achei curioso que tivesse interessado à minha neta Julia, pois em matéria de comida ela escolhe a dedo o que vai consumir. E pela rapidez com que as fatias desapareceram da mesa, percebi que a aceitação fora unânime. 
 
Dias depois fui atrás da receita. Eu já tinha feito este salaminho há muito tempo mas não me recordava mais de todos os ingredientes nem da forma exata de inseri-los. Não consegui localizar Danilo e, então, me pus a pesquisar nos meus livros, em cadernos e, claro, no Google. Descobri que há pelo menos vinte receitas diferentes. Umas levam leite condensado, vão ao fogo e devem ficar parecidas com brigadeiro. Outras substituem as nozes por amendoim. Há aquelas que nem levam frutas secas. Deparei-me algumas vezes com a inclusão de licor de laranja ou de essência de baunilha. Deduzi que cada um que faz acresce algo que singulariza. Mas o básico encontra-se em todas as listas de ingredientes: bolacha doce, chocolate, manteiga, açúcar e ovos. Na minha versão inclui nozes, pois gosto muito. Dobrei a receita que você tem aqui, o que rendeu dois salaminhos. Congelei um deles, para oferecer à Júlia e ao João no dia em que eles aparecerem em casa.
 
Então vamos ver como se faz. É tão simples que nem vai ao fogo. Coloque as bolachas num saco plástico e usando um martelo quebre-as grosseiramente. Faça o mesmo com as nozes. Numa tigela misture ambas. Passe o chocolate por uma peneira fina para dissolver todos os grumos e os incorpore à mistura de bolachas e nozes. Se pode substituir o chocolate por achocolatado? Pode, mas neste caso diminua um pouco do açúcar. Numa tigela à parte bata bem os ovos. Acrescente-os à mistura seca e mexa bem para incorporar. Ponha a manteiga numa vasilha que possa ir ao micro-ondas e derreta-a por dois minutos ou até ferver. Distribua a manteiga fervente sobre a mistura da tigela e mexa até perceber que foi toda absorvida. É ela que vai cozer os ovos. Unte uma folha de papel vegetal com manteiga e distribua a massa sobre ela, no formato de um cilindro. Com as mãos apoiadas no papel vá acertando as laterais até que a massa tome a forma de salame. Acabe de enrolar no papel, dobre as pontas, disponha numa travessa e leve à geladeira por três horas- no mínimo. No momento de servir, desembale, salpique nozes e açúcar, corte em fatias. 
 
Passo a passo
 
1 - Misture numa tigela bolachas e nozes quebradas, chocolate, açúcar e ovos
 
2 - Misture  a manteiga derretida no micro-ondas e volte a mexer
 
3 - Sobre uma folha untada formate o cilindro e leve à geladeira
 
4 - Depois de três horas desembale numa travessa de servir
 
5 - Decore com nozes picadas e açúcar de confeitiero