15 de março de 2026

Sorvete na cestinha


| Tempo de leitura: 4 min
Faz um tempão que a humanidade toma sorvete, alimento de que quase todo mundo gosta; o “quase” vai por conta das exceções que acabam confirmando a regra
Pelo clima tropical e grande população seria de se esperar que o consumo per capita de sorvete no Brasil fosse dos maiores do mundo. Engana-se quem assim pensa; ele ainda é pequeno quando comparado a países mais ricos e de temperaturas mais baixas. Quer saber? Enquanto por aqui a média individual é de 6,2 litros por ano, na Nova Zelândia, recordista no consumo, é de 26,3 litros. Outras posições invejadas pelos fabricantes nacionais destacam EUA, 22,5; Canadá e Austrália, 17,8; Suíça, 14,4; Suécia, 14,2; Finlândia, 13,9; Dinamarca. 9,2; Itália, 8,2. Os dados são confiáveis, oriundos de pesquisa levada a cabo em 2014 pela Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes. 
 
Muitas vezes costumo lembrar por aqui a etimologia das palavras que nomeiam pratos porque tal exercício acaba fatalmente por revelar quem o criou e destinou ao mundo. Em se tratando de sorvete, o nosso substantivo português é uma evolução de sharbat, que no idioma persa significa algo como “ mistura de suco de frutas, mel e gelo.” Ao tempo em que foi assim batizado, era ainda alimento líquido e não a massa sólida que hoje saboreamos e está mais próxima da fusão de leite e arroz que os chineses aprenderam a congelar em potes de barro enterrados na neve dois séculos depois. 
 
O Ocidente conheceu o precursor do sorvete quando Marcopolo (quem tiver chance, que assista à série sobre este homem destemido no Netflix) retornou de sua viagem à China em 1292 e trouxe consigo diversas novidades que viriam a modificar o perfil da mesa veneziana e, a partir dela, surpreender o mundo gastronômico. Evoluindo com as gerações, a novidade chegou a Florença no século XVI, mas neste período somente a aristocracia tinha acesso a ela, preparada por cozinheiros de grande tradição. Em 1670, o pequeno negociante François Procope abriu em Paris um pequeno café, depois tornado espaço onde se ofereciam refeições, no bairro de Saint Germain des Près. O lugar, que até hoje continua funcionando, atualmente com decoração em veludo vinho e mesas de ferro, passou com o tempo a vender também sorvetes. Foi o primeiro restaurante europeu nos moldes como o temos hoje, e também a primeira sorveteria de que se tem notícia. O sucesso da guloseima gelada foi tanto que seis anos mais tarde já se totalizavam 250 fabricantes de sorvetes na capital francesa. Durante o último quartel do século XVII a receita para se produzi-lo tinha se espalhado rapidamente e surgiam vários sorveteiros famosos também em Nápoles, Palermo e Veneza. No final do século XVIII, o produto havia se democratizado e todas as camadas da sociedade tinham acesso a ele. 
 
Apesar do avassalador sucesso, sua fabricação continuou em ritmo artesanal. Quando em 1846 a norte-americana Nancy Johnson inventou o congelador, um leiteiro chamado Jacob Fussel viu futuro na máquina e cinco anos depois abriu a primeva fábrica de sorvetes do mundo, tornando-se o primeiro produtor em larga escala. 
 
A partir deste momento os Estados Unidos se firmaram na crescente produção pautada pelo consumo e criaram três das mais famosas receitas de sorvete: o sundae, a banana split e o ice cream soda.
 
Ao Brasil o sorvete chegou em 1834, trazido pelo navio americano Madagascar, que atracou no Rio de Janeiro carregado de novidades alimentícias, destacando-se uma carga de aproximadamente 200 toneladas de gelo.
 
Comprado por dois imigrantes lusitanos que já conheciam a técnica de fazer sorvete, o gelo mal deu para o gasto. O imperador Pedro II, que adorava sorvetes, cuidou de lançar a moda na Corte, e pouco tempo depois a plebe já replicava os hábitos da nobreza.
 
Mas como na época não havia meios de conservar o sorvete gelado, o consumo era feito logo após o término do preparo. Uma solução criativa para o problema foi anunciar a hora certa para tomá-lo. No dia 4 de janeiro de 1878, num jornal da cidade de São Paulo, apareceu o primeiro anúncio com a seguinte mensagem: “Sorvetes Todos os dias às 15 horas, na Rua Direita nº 44”. Uma multidão passou a se formar na frente do imóvel no horário determinado, para tomar o sorvete, antes que derretesse. 
 
Demorou quase um século para que a máquina dos gringos chegasse ao Brasil. Isso aconteceu em 1941, quando surgiram os primeiros sorvetes industrializados em nosso país. 
 
O sorvete foi servido inicialmente em taças. As casquinhas de beiju apareceram na primeira década do século passado. Esse horror chamado isopor é coisa mais recente. 
 
Estamos mostrando hoje um novo jeito de oferecer o sorvete: numa cestinha que será devorada ao final. Veja como é fácil.
 
Coloque no liquidificador as bolachas e bata até obter uma farofa. Despeje numa tigela funda e misture margarina, açúcar, claras, coco ralado. Cubra com papel alumínio e leve à geladeira por duas horas. Retire porções e molde as cestinhas utilizando forminhas de empada. A receita é suficiente para seis cestinhas. Coloque em assadeira e leve ao forno preaquecido por 20 minutos. Retire, deixe esfriar, desenforme e reserve. Prepare a farofa para cobrir o sorvete quebrando entre duas folhas de papel filme as castanhas de caju. Acomode as cestinhas em pratos individuais. Recheie-as com sorvete de sua preferência, polvilhe a farofa de castanha e decore com folhinha de hortelã. 
 
 
INGREDIENTES
 
Para as cestinhas
 1 pacote de biscoitos Maisena 
 4 colheres (sopa) de margarina
 30 gramas de açúcar
 2 claras
 1 xícara (chá) de coco ralado
 
Para a farofa
 50 gramas de castanha de caju
 
Recheio
 Sorvete de morango (ou outro de sua preferência)
 Folhinhas de hortelã
 
porção: 4 pessoas
dificuldade: fácil
preço: econômico