Quem disse que bom gosto se dissocia de improvisação ou a esta se opõe não assistiu ao filme Coco Antes de Chanel, onde Mademoiselle, então uma anônima mocinha recém-saída do orfanato, tem uma ideia ao ver o incômodo e apertado vestido da irmã: literalmente o rasga e o reconfigura para permitir respirar com liberdade. Nas biografias do grande ícone da moda francesa em todos os tempos, os autores somam vários ímpetos parecidos. Criar muitas vezes pede coragem de ousar a partir dos elementos disponíveis no momento.
Como na moda, na cozinha isto acontece também. Há ocasiões em que a dona de casa é desafiada a preparar um prato com um mínimo de ingredientes. Se houver uma vocação para formas e cores, pode-se fazer muito com pouco. Algumas frutas, uma faca, uma colher, um liquidificador e um buquezinho de flores é tudo de que se precisa para montar uma sobremesa muito gostosa, levíssima e linda como esta da foto. As frutas no caso colaboram com 90%. A cor do morango, o formato do papaya, a textura do kiwi são decisivos na composição desta mistura fina e vitaminada.
O kiwi, que os dicionaristas já aportuguesam para quiuí, é fruto relativamente novo entre os brasileiros. Chegou há uns dez anos da Nova Zelândia, onde o nome designa também um pássaro, e rapidamente conquistou o paladar de muita gente. No início esteve confinado à clientela dos grandes hotéis e restaurantes classe A . Produto importado e caro, precisou mostrar suas qualidades para ganhar o mercado. Hoje é encontrado com facilidade, consumido in natura, em saladas e coquetéis, também decorando assados como o peru de Natal ou o chester de Ano Novo. Refrescante até na cor de sua polpa, um verde cítrico pontilhado de minúsculas sementes negras, presta-se com perfeição a pratos festivos ou aos criados especialmente para o verão.
O papaya, mamão que disputa com o formosa a doçura mas na forma é campeão por aclamação, tem consumo certo na mesa de brasileiros de todas as classes sociais, pois se conhecem os muitos benefícios de sua ingestão. Estudos científicos frequentes comprovam o que o povo há muito tempo intuía: o papaya, nativo na América Central, tem efeitos benéficos para a digestão e a pele.
Do morango a tradição já sedimentou as qualidades nutritivas e os chefs vêm fazendo há séculos o elogio. A beleza desta fruta tida até como afrodisíaca, não se sabe se pela cor, pelo formato ou pelas substâncias intrínsecas, motiva com frequência os designers da publicidade. É a fruta da sedução, ora pois.
Todas três, morango, kiwi e papaya, têm alto teor de vitamina C, essencial ao bom funcionamento de nosso organismo. Bastaria misturá-las e batê-las no liquidificador para obter a mesma quantidade de substâncias contidas no prato que ilustra esta página. Mas humanos elegem também a beleza quando se sentam a uma mesa para comer. Para esses vai a sobremesa desta página, que pode ser feita em quinze minutos. Prepare primeiro a calda de morangos, batendo-os no liquidificador com um pouquinho de champanhe (se você não precisa cortar calorias) ou de guaraná diet. Reserve. Corte ao meio o papaya e retire as sementes.
Apare a base para que fique firme no prato. Faça ziguezagues na borda, usando uma faquinha. Descasque os kiwis e corte-os em fatias. Ajeite-as no côncavo do mamão. No meio disponha um morango inteiro, sem o cabinho. Cubra o fundo de um prato com a calda de morango. Coloque em cima o mamão. Leve à geladeira por meia hora e sirva enfeitado com uma folha de papaya e um ramo de flores que você tiver mais à mão.