Salma é a protagonista de Lemon Tree, do diretor Eran Riklis, que traz para a tela a temática do conflito árabe, em mais uma história a compor a série de outras com o mesmo teor político-ideológico. Leva à reflexão sobre espaços sociais e individuais, públicos e privados, bélicos e bíblicos. Salma é uma viúva palestina que tem um pequeno pomar de limoeiros nos fundos de sua casa. Sua vida segue solitária mas tranquila na fronteira entre Cisjordânia e Israel até que se muda para o lado de sua propriedade um ministro israelita. Com o novo vizinho começa o drama da mulher que até então gastava suas horas fazendo conservas com seus limões-sicilianos. Logo que a vi na sua cozinha acanhada, me bateu uma grande vontade de repetir a experiência. Para isso assisti ao filme duas vezes. Queria aprender como é mesmo que Salma fazia.
As imagens a mostram cortando os limões em rodelas grossas, sem descascá-los. Ela os coloca em vidros transparentes. Junta folhas de louro, dente de alho, pimenta vermelha, do tipo da nossa dedo-de-moça, só duas, apenas para um toque, a gente fica imaginando que o sabor cítrico é que deve prevalecer. Salga, mas não muito. Deixa cair sobre os limões, até metade do vidro, azeite que parece ser de oliva. Completa com água. Tampa bem. Reúne o vidro que acabou de fechar a outros que estão numa prateleira. Ali devem permanecer algumas semanas até estarem prontos para o consumo. Leituras extra-culinárias interpretam a mistura de água e óleo como uma metáfora do território de Israel. Até pode ser.
A banqueteira Nina Horta, que tem um dos melhores textos jornalísticos do Brasil quando o gênero é a crônica, também ficou estimulada a reproduzir a conserva de Salma. Cortou os limões em quatro e não em rodelas, salgou, deixou desidratar por uma hora, reuniu no vidro páprica e pimenta, completou com azeite. A chef Neide Rigo buscou num livro de seus tempos de estudante em Paris uma receita parecida. Os ingredientes são os mesmos, mas a proporção de sal varia. O famoso Claude Troigros faz a receita intercalando limões e sal, muito sal, depois veda bem o vidro, sem acrescentar água ou azeite, e o esquece na geladeira por três meses. Hummm... Será que dá certo?
De minha parte misturei as várias receitas e criei a minha. Em primeiro lugar lavei bem o vidro e esterilizei no microondas. Depois cortei os limões em quatro. Salguei e deixei escorrer por uma noite dentro da geladeira. No dia seguinte, descartei o líquido e coloquei os limões no vidro. Adicione três folhas de louro, os dentes de alho e as pimentas. Preenchi com o azeite de oliva extravirgem e tampei. Guardei em lugar escuro e ontem, decorridas três semanas, experimentei. Achei o sabor delicado e a cor muito bonita. É bom para comer com filé de frango ou carne de cordeiro. De forma geral, use em receitas que peçam picles.
Se é fácil achar limão-siciliano? Não, é difícil. Os meus foram conseguidos pelo amigo Walter Ferraro, motorista do GCN há muitos anos, que conhecia um lugar onde existiam alguns pés: o Sítio Santa Rita, em Cristais Paulista, do Geraldo e da Rita. Agradeço aos três.
Veja os quadros abaixo: