Nosso brasileiríssimo maracujá, nome que é pura metáfora criada pelos tupis para significar “alimento que se serve”, obviamente porque o de comer já vem prontinho na cuia, inspirou muitos poetas, especialmente os cordelistas. Mas são de Fagundes Varela os versos mais bonitos entre os ainda lembrados: “Pelas rosas, pelos lírios/ Pelas abelhas, sinhá/ Pelas notas mais chorosas/ Do canto do sabiá/ Pelo cálice de angústias/ Da flor do maracujá.” A flor é realmente linda. Não bastassem as cores, roxos sobre verdes, e o formato da corola, o fato de entreabrir no começo do outono a associou à coroa de espinhos do martírio de Cristo, portanto à Paixão.
Desde séculos tido como calmante, o fruto entrou para a lista dos fármacos: a substância Passiflora é muito usada em compostos medicinais. Nos últimos tempos passou a fazer parte das fórmulas empregadas na indústria de cosméticos. Mas foi pela via culinária que o maracujá ganhou o mundo, tornou-se internacional. Fruit de la passion, como é conhecido pelos de língua francesa, passion fruit, segundo os ingleses, o maracujá entra em combinações doces e salgadas, em formas sólidas e líquidas, e vai ganhando espaços cada vez maiores na alta gastronomia. Muitos chefs tiram vantagens de seu perfume, de seu sabor agridoce, de sua cor ímpar. E sofisticam nos nomes apostos nos menus, como a Salada de catalonha, crocante de cupim, gelatina de pato e maracujá doce, de Alex Atalla.
Não alçamos vôos tão altos. Vamos de Bicolor de maracujá e chocolate, que você pode improvisar em dois tempos. A combinação dos sabores é muito interessante, o contraste de cores faz a sobremesa bonita, o custo é baixo, especialmente se você vai empregar os pedaços de chocolate que fatalmente sobejam em toda Páscoa. Veja que fácil. Derreta o chocolate em banho-maria, deixe amornar, junte o creme de leite, misture bem e forre os fundos das taças. Espere esfriar e leve à geladeira. Em seguida, passe a polpa dos frutos pela peneira, reservando as sementes. Coloque a gelatina em uma xícara de água quente, mexa para dissolver, espere amornar. No copo do liquidificador reúna suco, leite condensado, creme de leite, gelatina. Bata bem. Verifique se o chocolate se firmou e derrube sobre ele a mistura de maracujá. Leve a gelar. Enquanto isso faça uma calda com as sementes, usando meia xícara (chá) de açúcar e uma de água. À medida que se formar uma espuma amarelo-ouro, vá retirando para enfeitar a borda da taça. Outra opção é inverter os cremes: a mousse de maracujá por baixo e o chocolate em cima, como na ilustração do passo 6. Você pode usar as cumbuquinhas da própria fruta como suporte. Dê asas à sua imaginação.
Saboreie com estes versos do poema de Varela: “Não te enojem teus ouvidos/ De tantas rimas em -a/ Mas ouve meus juramentos/ Meus cantos ouve, sinhá/ Te peço pelos mistérios/ Da flor do maracujá.”