08 de julho de 2026

Tira-gosto de jiló


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Aperitivo crocante e bonito surpreende até os que renegam o fruto amargo

Algumas coisas consideradas meras coincidências têm explicação para a semelhança. Dois conhecidos títulos do nosso cancioneiro usam a palavra jiló como metáfora para a saudade. O primeiro, Qui nem jiló, traz a assinatura de Luiz Gonzaga: ‘ Ai quem me dera voltar/ Pros braços do meu xodó/ Saudade assim faz doer/ E amarga qui nem jiló’. O segundo, Guarânia da lua nova, é um poema composto por Luiz Vieira: ‘Saudade, bichinha danada/ Que em mim fez morada/ E não quer se mudar/ Tem gosto de jiló verdinho/ Plantado na lua nova do penar’. Onde as identificações? No fato de ambos os compositores serem nordestinos. Luiz Gonzaga é pernambucano do Recife; Luiz Vieira é cearense de Iguatu. Se não sabe, tome conhecimento de que foi no nordeste que o jiló começou sua história brasileira, trazido por africanos. Ali se aclimatou bem, e continuou uma tradição de ingrediente de pratos muito consumidos. Como o molho nagô, feito com frutos cozidos, esmagados, temperados com camarões secos, pimentas malaguetas e servido com caldo de peixe e farinha. Quase um pirão. Não é de se estranhar que comparecendo com frequência na dieta dos nordestinos, o jiló entrasse para o mundo das imagens poéticas, por seu intrínseco gosto amargo. O que acontece é que este não deveria servir como parâmetro para balizar qualidade. Por acaso a alcachofra também não se caracteriza pelo amargor? E no entanto ela é considerada ingrediente nobre enquanto o jiló não consegue alçar voo, fica sempre na categoria de plebeu. Não concordo. Talvez o descaso derive do excesso, uma das leis controladoras do mercado. Tudo o que se oferece demais é desvalorizado. Contrário à alcachofra, jiló nasce em qualquer lugar, não pede cuidados, um pé alimenta uma família durante meses. Seguindo pelo caminho de colocar ênfase nos produtos nacionais, a chef Mara Salles, também professora do Curso de Gastronomia da Faculdade Anhembi-Morumbi, e pesquisadora de Cozinha Brasileira, insere o jiló no cardápio de seu restaurante, o Tordesilhas, em São Paulo. Ele é servido frito, como acompanhamento de carne seca. Mas há outros modos de o preparar, alguns deles indicados pela própria Mara: empanado no fubá, recheado com carne moída, virado na farinha de mandioca, cozido inteiro no meio do arrroz, grelhado e com fígado, em conservas e saladas. Já tinha experimentado todas essas versões, e até doce de jiló, uma iguaria dos goianos de Pirenópolis, quando fui surpreendida com a receita de um churrasqueiro chamado Alex Douglas Machado, que o preparou como tira-gosto num almoço oferecido por Oliveira Beef Shop. Jiló cru e temperado, nunca imaginei que ficassse bom. Pois fica, pode testar, caso você não faça parte dos que viram o nariz à simples menção da palavra. Simples, bonito, gostoso, com o traço amargo bem disfarçado, o tira-gosto de jiló é prova da criatividade do brasileiro. Escolha jilós novos, frescos, de casca bem lisa. Lave, enxugue, retire os cabinhos. Corte em rodelas bem finas e deixe na água gelada enquanto durar o processo. Faça um molho com o limão, o azeite e o tempero Sazon para legumes, que é aquele verdinho. Enxugue as rodelas, coloque no molho e deixe na geladeira por um mínimo de duas horas . Antes de servir, disponha numa travessa rasa. Eu enfeitei cada rodela com um pedacinho de tomate para dar um tom vivaz. Moa por cima a pimenta-do-reino. Importante: não use sal ou outros temperos. Alex me alertou que é o Sazon quem garante a aparência e o sabor. Deve ser o propalado fator divulgado pela propaganda. Pois então, é o amor... Veja passo a passo abaixo