Ruas monta Governo do RJ tentando sair da sombra de Flávio
O governador eleito do Rio de Janeiro, Douglas Ruas (PL), iniciou a montagem de seu secretariado buscando preservar da influência de aliados, em especial do senador Flávio Bolsonaro (PL), áreas-chave da futura gestão.
Eleito no primeiro turno embalado pela vitória de Flávio naquela fase, Ruas viu o senador perder a disputa pela Presidência e fugir do país, deixando em aberto o espaço a ser reivindicado pelo aliado no novo governo.
Ruas já escolheu nomes ligados ao seu grupo político para pastas da "cozinha" do Palácio Guanabara, como Casa Civil, Governo e Relações Institucionais. Ele ainda enfrenta resistências dentro do PL para tornar as Polícias Civil e Militar subordinadas a uma Secretaria de Segurança, acabando com um modelo de independência total das corporações instituído desde o governo Wilson Witzel.
A intenção é que outras pastas consideradas chave na administração, como Educação e Saúde, sejam escolhas diretas de Ruas. O objetivo é evitar o fatiamento de todo o governo por deputados, como ocorrido na gestão do ex-governador Cláudio Castro (PL).
O presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) acompanhou a apuração dos votos do segundo turno ao lado de Flávio Bolsonaro. Estava no pronunciamento em que o senador não reconheceu o resultado que reelegeu o presidente Lula (PT) e classificou como "sacanagem" a atuação da Justiça durante o processo eleitoral.
Na segunda-feira (26), o governador eleito reconheceu a derrota do aliado. "Infelizmente não vencemos", disse.
Ele não comentou a carta golpista em que o senador se autoproclamou "líder" do país, depois de na primeira versão do documento dizer se considerar o "presidente eleito".
Ruas permaneceu em Brasília para se apresentar a lideranças do Congresso e construir pontes com ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). O objetivo é evitar que avance na corte a tentativa do ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) de realizar um segundo turno da eleição fluminense.
O gabinete de transição vai se instalar nesta semana na Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), no centro da capital fluminense.
Ruas já escolheu para a Casa Civil a socióloga Maria Gabriela Bessa, atual secretária estadual das Cidades, cargo que assumiu em substituição ao próprio governador eleito. Vista como um perfil técnico, ela mantém vínculos com o presidente da Alerj desde sua atuação na Prefeitura de São Gonçalo.
A Secretaria de Governo será destinada ao deputado estadual Jair Bittencourt (PL). Em 2023, ele tentou construir uma candidatura contra Rodrigo Bacellar (União Brasil) pela presidência da Alerj, estimulado pelo grupo do PL ligado ao deputado federal Altineu Côrtes (PL), padrinho político de Ruas.
A pasta de Comunicação e Relações Institucionais ficará sob responsabilidade de Bruno Bonetti (PL), primeiro-suplente do senador Romário também ligado ao grupo de Altineu.
A vice-governadora eleita Fernanda Louback (PL) assumirá a Secretaria de Inclusão e da Mulher.
Ruas pretende apoiar Anderson Moraes (PL) na disputa pela presidência da Alerj na próxima Legislatura. O deputado é um dos mais próximos a Flávio Bolsonaro no estado, tendo inclusive nomeado a mãe do senador, Rogéria Bolsonaro (PL), como sua assessora. A escolha de Ruas, porém, não é atribuída ao senador, mas à relação construída por ambos na Alerj.
Um dos primeiros embates de Ruas na composição de seu governo é o fim das secretarias de Polícia Civil e Polícia Militar. O governador eleito classificou como "uma confusão" o atual modelo com três secretarias (Polícia Civil, Polícia Militar e Segurança) e prometeu retomar a subordinação das duas corporações a um secretário de Segurança, cujo nome ainda não está definido.
Aliados do presidente da Alerj vêm pressionando para que Ruas recue da decisão, descrita por alguns nomes próximos a ele como tomada. Ruas vem argumentando que a retomada do modelo, que existia até 2018, não impede a autonomia administrativa e financeira das duas corporações, como defendem delegados e oficiais da PM.
A segurança pública foi uma das prioridades durante sua campanha, na qual defendeu a realização de operações policiais e a retirada da letalidade policial das metas do setor. Nesta sexta-feira (30), ele manteve o tom de campanha ao comentar o sequestro de ônibus na zona norte da cidade.
"Os criminosos estão numa guerra, mas é uma guerra contra a sociedade, contra todos nós. E o governo do Rio vai entrar nessa guerra com inteligência, planejamento e respeito às leis, mas também com toda a sua força e determinação. Se é guerra que eles querem, é guerra que eles terão", disse Ruas.