Voto do idoso cresce, mas há longo caminho contra o etarismo
A eleição presidencial no Brasil se tornou um marco da força política da população mais velha. Vídeos com idosos indo às urnas inundaram as redes sociais, e o presidente Lula (PT), no discurso de vitória, reconheceu o papel desses eleitores em sua virada histórica do primeiro para o segundo turno.
A criação de um Ministério do Idoso já está em pauta, e o petista tomará posse aos 81 anos, quebrando o próprio recorde de presidente mais velho da história do país. Ainda assim, há um longo caminho de combate ao etarismo para que esse momento represente, de fato, "um salto" no debate sobre a longevidade, e não "um voo de galinha".
A análise é de Sérgio Serapião, 52, empreendedor social que há mais de duas décadas atua no debate e desenvolvimento de soluções para os desafios da longevidade. Fellow da Ashoka, rede internacional de empreendedorismo social, ele lidera o Fórum & Festival Longevidade, realizado anualmente em São Paulo, que teve sua oitava edição em setembro deste ano no Pavilhão da Bienal, com uma participação estimada de 15 mil pessoas em três dias de programação.
Nesta entrevista à Folha, Serapião analisa o papel desta eleição no debate sobre a longevidade. Para ter uma ideia do peso que essa população adquiriu nos rumos políticos, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, os 60+ representam quase 25% do eleitorado brasileiro, passando de 32,9 milhões em 2022 para 37,4 milhões agora. E o número de eleitores 70+, não obrigados a votar, cresceu 15% em relação a 2022: são quase 17 milhões, mais de 10% do eleitorado.
A participação desses eleitores, acredita Serapião, ajuda a superar a visão de que os idosos estão ligados apenas ao passado. "O voto é uma afirmação de futuro", argumenta.
Que significado as últimas eleições presidenciais tiveram para o debate sobre a longevidade, considerando a mobilização das pessoas mais velhas para votar, o discurso de vitória de Lula prometendo priorizar os idosos e o próprio fato de o presidente reeleito iniciar a nova gestão aos 81 anos?
Sérgio Serapião - Parece que foi o começo de um despertar, em que se jogou luz na invisibilidade histórica da população mais velha. Ninguém coloca o foco nos mais velhos, especialmente do ponto de vista cívico. O nível de participação cívica dessa população é muito baixo. Nos EUA, por exemplo, há uma associação de aposentados com cerca de 38 milhões de membros. Eles têm presença no Congresso, debatem leis. Estamos longe disso no Brasil.
O movimento Voto 70+, que surgiu neste ano, liderado pelo data8 [polo de pesquisa especializado em longevidade], fez campanha para reverter a alta taxa de abstenção dos eleitores brasileiros a partir dos 70 anos [girava em torno de 60% em 2022]. Eles não são convidados para a festa, então não vão. As pessoas mais velhas, quando falam que têm um plano de trabalho ou para a vida social, costumam ouvir que "já não têm idade para isso". Assim, o vínculo do idoso acaba sendo com o passado, e não com o futuro. E o voto é uma afirmação de futuro.
Nós demos um salto, mas precisamos dar vários outros para que isso seja persistente, se não vai ser um voo de galinha. Vivemos em uma cultura "jovencêntrica", em que todo mundo fica fingindo que é mais jovem. Mas, quando você vê, nessas últimas eleições, que quase 25% dos eleitores são 60+, começa a falar: "Opa! Como é que eu estou me esquecendo disso?".
Sérgio Serapião - Esse número era ignorado nas pautas e nos programas dos principais candidatos. No segundo turno, a esquerda precisava virar o jogo e começou a chamar os mais velhos para votar. E as pessoas invisibilizadas, quando são chamadas para a festa, elas vão. Grupos, seja o exército do Janones [deputado federal André Janones, da Rede-MG, que criou no WhatsApp o "Exército do Lula"] ou vários outros que surgiram, entenderam isso.
A eleição evidenciou que é preciso capturar o eleitor mais velho, a importância desse voto. E o governo reeleito, logo na primeira semana, divulgou a intenção de criar o Ministério do Idoso. Ainda não é o Ministério da Longevidade, que poderia olhar o tema de uma forma mais ampla, então temos um longo caminho a percorrer. Mas já é algo que demonstra um olhar para os mais velhos.
Por que o novo ministério deveria ser "da longevidade" em vez de "do idoso"?
Sérgio Serapião - Historicamente, a gente falava de envelhecimento. E, quando falamos de envelhecimento, normalmente associamos ao que acontece quando o nosso corpo vai ficando mais velho, vai perdendo capacidades. Então, a pauta do envelhecimento é a que fala de minimizar perdas, da atenção ao cuidado, à saúde. São medidas importantes, mas o prisma mudou, e começamos a falar de longevidade, que não é sinônimo de envelhecimento.
Falar de longevidade engloba entender que o curso da vida se transformou. Não é mais uma sequência linear "jovem-adulto-velho", "estudo-trabalho-aposentadoria". Ganhamos muitos anos de vida, as tecnologias estão mudando a sociedade, os modelos de família mudaram. Posso começar um relacionamento aos 60, uma nova profissão aos 70.
Olhar para a longevidade é entender isso e pensar em um redesenho dos sistemas, do que é uma vida saudável, uma vida financeiramente equilibrada. Envolve pensar em como manter a empregabilidade ao longo da vida. O envelhecimento é um problema? Não, o problema é manter nossas estruturas com uma organização ultrapassada. Temos que repensar a moradia, as cidades, a educação, o mercado de trabalho, tudo.
Lula, no discurso da vitória, disse que era preciso olhar para "os velhinhos". Embora ele mesmo tenha 81 anos, o uso desse termo é um problema?
Sérgio Serapião - Ainda temos um desafio, uma mudança cultural a ser feita para evitar o idadismo. Por mais que tenhamos um lado carinhoso nisso, do uso que o brasileiro faz do diminutivo, é preciso cuidado com o termo, porque ele pode levar a uma diminuição daquelas pessoas. Mesmo partindo de alguém de 81 anos.
Lula, por sua vez, também enfrentou o idadismo, com Flávio Bolsonaro (PL) zombando, no debate, de sua dicção e de que o petista não estaria escutando direito. Depois do que aconteceu com o Biden [em 2024, o presidente dos EUA, aos 81, foi pressionado a abrir mão da candidatura à reeleição por ser considerado velho], Lula incorporou ações preventivas nesse sentido, como o vídeo em que aparece correndo, para construir uma imagem juvenil.
Então, quando o Lula corre, dizemos que parece um jovem, que tem espírito jovem. Por que não considerar que ele é um idoso de 81 anos que está bem preparado, conseguindo correr e tocando uma campanha eleitoral dessa forma? É algo incrível mesmo, mas não precisamos dizer que ele parece mais novo por isso.
Mesmo os debates de TV partem de uma cultura jovem-centrada, porque os políticos ficam em pé, em um enfrentamento que considera a linguagem corporal, de chegar perto do outro e se mostrar forte, se impor com o corpo. E, quando ficamos velhos, nossos corpos se tornam mais flácidos, os músculos diminuem, alguns ficam mais encurvados, andamos mais devagar e podemos precisar de uma bengala.
Na nossa cultura, isso quer dizer que a pessoa é pior. Mas por que, para liderar o Brasil, alguém assim seria pior do que uma pessoa que corre?
Sérgio Serapião - As redes sociais foram inundadas com imagens de pessoas mais velhas votando. Por um lado, isso mostrou a inclusão dessa população em um movimento de participação cívica. Por outro, os mais velhos aparecem sendo levados às urnas por jovens. Não há aí um paradoxo simbólico, considerando o debate da longevidade e a valorização da autonomia dessas pessoas?
Em uma sociedade "jovencêntrica", o herói é sempre o jovem. Essas são as imagens que a gente, sem se dar conta, vai construindo. Precisamos fazer o exercício de observar esses aspectos, para evitar uma imagem depreciativa.
Mas, sim, temos que reconhecer que essa população, que não é legalmente obrigada a votar, resolveu ir às urnas. E há um aspecto geracional nesse voto. Foram eles que viveram o tempo das trevas da ditadura militar, das prisões, da tortura, sabem o que é ter seus direitos limitados, não poder votar.
É preciso sair do isolamento, não ficar restrito às redes sociais e ao que chega no WhatsApp. Não vão ser os jovens que vão lutar por mais direitos para os velhos. É preciso que os mais velhos sejam ouvidos, tenham ambientes mais evidentes de participação no debate público. Então, a iniciativa do ministério é incrível. E, claro, o fato de o presidente ter 81 anos faz com que tenha uma sensibilidade diferente para essas questões, estando ou não letrado sobre a longevidade.
Como o sr. avalia a política previdenciária de Lula, inclusive a proposta de estender o benefício a motoristas e entregadores de aplicativo, considerando o envelhecimento da população e a pressão desse gasto no Orçamento?
Sérgio Serapião - Para pensar sobre a Previdência, temos que rediscutir o trabalho. Os modelos antigos, da carteira de trabalho, foram desenhados para um mundo que era estável. O mundo está se transformando, e as pessoas podem trabalhar por mais tempo se tiverem uma saúde melhor e capacidade para se reinventar.
Isso pode tirar o peso da Previdência. Mas também é preciso considerar que os trabalhadores que surgiram com as novas tecnologias, como o Uber, devem ter os mesmos direitos que aqueles que têm contrato de trabalho nos moldes antigos. Sabemos que a sociedade ainda é muito idadista, que os mais velhos tendem a ser excluídos do mercado de trabalho e acabam indo para esses aplicativos que abrem espaço para eles, de entrega, de motorista. E esses novos modelos de trabalho têm que dar garantia para as pessoas envelhecerem.
Parece mais saudável para a sociedade dar mais estrutura para esses trabalhos e repensar modelos históricos, inclusive de grupos que têm muitas garantias, como os militares. Temos que repensar os direitos de forma geral. Por exemplo, há licença-maternidade, mas nada na legislação para amparar quem precisa se afastar para cuidados com os pais. Logo haverá mais velhos do que crianças no Brasil [o IBGE projeta que em 2030 o Brasil terá mais idosos do que crianças].
É preciso adotar uma visão sistêmica ou vamos continuar na discussão eterna de aumentar a idade mínima para a aposentadoria e de reduzir as taxas de reajuste desses pagamentos. Isso é enxugar gelo, não vai nos levar a nada.
Não podemos considerar o idoso como um beneficiário que deve algo à sociedade por receber aposentadoria. Mas temos que abrir espaço para novos modelos. Por exemplo, para que essa pessoa trabalhe poucas horas por semana do lado da casa dela. A legislação precisa se flexibilizar, oferecer benefícios tributários a quem emprega os mais velhos. Um aposentado não precisaria pagar o INSS se continuasse trabalhando, nem a empresa que o contrata teria que fazer esse recolhimento. Construir incentivos de contratação para os mais velhos pode ampliar a capacidade produtiva do país e reduzir gastos com saúde.
O modelo atual acaba aprofundando desigualdades, porque não considera a diversidade. A idade para um homem branco que mora no Jardim Paulista [bairro de elite de São Paulo] se aposentar deveria ser mais alta porque sua expectativa de vida é mais alta do que de um homem preto de Paraisópolis [periferia de São Paulo]. A discussão deveria ir mais pelo caminho de ampliar o tempo de vida saudável das pessoas, o que tem a ver com ampliar o tempo de empregabilidade. Porque isso significa estar conectado com a sociedade, se sentir importante para um processo produtivo, para uma rede, um grupo. Se sentir parte.
- Paulistano, é fellow Ashoka, rede internacional de empreendedorismo social. Atua há mais de duas décadas no debate sobre a longevidade. Fundou a Labora, plataforma para a inclusão de profissionais 50+ reconhecida como pioneira pelo Centro Internacional de Longevidade do Reino Unido, e o Movimento LABoo (ex-LAB60+), que desenvolve debates sobre o aumento da expectativa de vida. Lidera o Fórum & Festival Longevidade, realizado anualmente em São Paulo. É graduado em administração de empresas pela FGV-SP, possui MBA pelo Ibmec-RJ e pós-graduação em transdisciplinaridade pela Unifesp.