A falta de relações humanas no cotidiano se agravou com a pandemia e o isolamento social, principalmente com a reprodução exacerbada de discursos de ódio pelas redes sociais. Segundo levantamento realizado em 2020 pela Safernet Brasil, Ong que monitora violações de direitos humanos na internet, em parceria com a Unicef Brasil e com o Google.org, as redes sociais registraram um crescimento de 5.000% de crimes de ódio durante a pandemia.
Os dados apontaram quase três vezes mais denúncias de racismo em 2020 do que em 2019, a maior parte no Facebook. Já os casos de violência contra a mulher dobraram. A maioria no Twitter.
Para a cientista social Aline Carla Alves Carvalho, é importante que as pessoas entendam o que é o discurso de ódio. Ele não pode ser confundido com 'liberdade de expressão'.
"O discurso de ódio é uma forma de fala, por meio de um posicionamento social, que acaba incentivando e ditando a violência. Nessa violência, há os 'objetos próprios', identificados com minorias sociais", ressalta.
De acordo com Aline, o Brasil possui uma sociedade em que as relações sociais e culturais foram pautadas, principalmente por causa do período colonial, na discriminação racial e na xenofobia. "Temos isso muito enraizado culturalmente, dentro do povo brasileiro. A pessoa que reproduz esse tipo de discurso foi ensinado a achar que a sua forma de comportamento é superior e mais correto em relação aos outros", afirma.
Segundo Aline, as redes sociais podem acabar fomentando os discursos de ódio. "Dentro da internet há uma falsa sensação de impunidade, portanto 'liberdade de expressão' não pode ser vista como uma liberdade de ofender o outro e de diminuí-lo. Se o seu direito invade o direito e a vida do outro, ele não é mais um direito, é um discurso de ódio", completa.
MUNDOS DIFERENTES
A doutora em Psicologia Clínica, Rita Nicioli Cerioni, explica que é necessário fazer uma distinção no que é dito no mundo real e no virtual.
"O mundo virtual possui algumas características específicas que possibilitam uma maior propagação do discurso de ódio, enquanto no real as consequências são diferentes. No anonimato, por exemplo, é possível o usuário criar um perfil fake ou um 'robô'", explica.
Outro fator importante que a psicóloga destaca é a questão da corporeidade. "O corpo não participa amplamente dos debates e das discussões acaloradas. Não tem, por exemplo, o olho no olho ou a resistência corporal do outro. Podemos perceber que em forma de vídeos há menos discurso de ódio do que em texto, pois em texto parece que o corpo está protegido, deixando o campo mais fértil para os discursos de ódio", pontua.
De acordo com Rita, na internet as pessoas escrevem o que elas pensam e, muitas vezes, do mesmo jeito que elas pensam. "Não tem uma interlocução direta, ou seja, você fala e o outro não está se interpelando, no sentido de debater com você. Como não há confronto direto de ideias, cria-se um abismo entre a vida real e a vida virtual", afirma.
CAMINHOS
Lucia Maria Nabão, psicóloga e facilitadora de Comunicação Não Violenta (CNV), apresenta uma abordagem de abertura de diálogo e de compreensão profunda do ser humano. "A proposta da CNV é cultivar maneiras respeitosas e cuidadosas de estarmos em nossas relações, na relação comigo mesmo (intrapessoal), no 'eu e o outro' (interpessoal) e também no 'eu e o sistema', que são os grupos, a comunidade e a sociedade. A CNV busca promover o diálogo e a colaboração no lugar da disputa e da discussão, construindo boas conexões humanas. E para isso, nós vamos além dos pensamentos cartesianos e duais do 'certo e errado', 'bom e mal', 'recompensa e punição', para buscar uma compreensão mais ampla do ser humano", ressalta.
Segundo Lucia, um fator muito específico da CNV é a ideia de olhar para aquilo que os seres humanos têm em comum. "Quando uma pessoa realiza um gesto, uma fala ou um ato que em nossa ética não concordamos que seja bom e que achamos ser desrespeitoso, precisamos abrir o campo da compreensão profunda e perguntar à pessoa os motivos que levaram ela a falar tal coisa, tentando entender o que ela queria com isso", afirma.
Para a psicóloga, a CNV consegue desembaralhar o "concordou ou não concordo", com a possibilidade da compreensão do outro. "Nós usamos o 'falar em primeira pessoa', em que eu falo de mim mesma, primeiro, sobre o que eu penso e o que eu quero em determinada situação de conflito e depois perguntar se a pessoa está disposta a conversar comigo sobre. Se formos olhar a nível de necessidades humanas, nós estamos no mesmo barco. Não precisamos concordar, mas sim compreender e isso é um processo de humanização", explica.
De acordo com Lucia, a CNV pode ser aplicada na internet. "Eu posso estar nas redes sociais falando na primeira pessoa também e não apontando o dedo. Às vezes, nós vamos para uma conversa, seja na rede social ou não, armados, ou atacando ou se defendendo. E com a CNV, nós aprendemos a deixar as armas de lado, se vulnerabilizando e fortalecendo a importância da equidade, da igualdade, do cuidado, do respeito e da verdade. Quando sobre meus sentimentos e minhas necessidades, eu não estou armado, muito pelo contrário, estou me expondo naquilo que é mais subjetivo em mim. Então, a tendência é que o outro me escute e se desarme, mas não é nada garantido", afirma.