05 de novembro de 2026
OPINIÃO

A paz que o Brasil precisa cultivar


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Encerrado o processo eleitoral, o Brasil se encontra diante de uma tarefa que exige a participação de todos: cuidar dos vínculos que sustentam a nossa convivência. A campanha despertou esperanças, intensificou divergências e deixou marcas nas relações entre familiares, amigos e vizinhos. Passada a votação, permanecem as necessidades concretas de milhões de brasileiros, sobretudo daqueles que enfrentam a pobreza, a insegurança e a falta de oportunidades. É a partir desse compromisso com a dignidade de cada pessoa que devemos encontrar caminhos para reconstruir a confiança, exercitar o diálogo e trabalhar pelo bem comum.

Vivemos em um Estado Democrático de Direito, cuja solidez depende do respeito à Constituição, às instituições e à vontade manifestada nas urnas. O resultado eleitoral integra um processo legítimo de escolha dos representantes, e cada cidadão conserva o direito de acompanhar, participar, propor e cobrar com responsabilidade. Os governantes eleitos receberam a missão de servir a toda a população, inclusive aqueles que fizeram escolhas diferentes. Somos chamados a reconhecer a dignidade de quem pensa de maneira diversa, zelando para que a discussão política jamais destrua as relações humanas. Uma sociedade amadurece quando compreende que seu futuro está ligado ao destino de todos.

Para nós, cristãos, há ainda um compromisso que deve acompanhar cada tempo da vida nacional: a oração por nosso país e por aqueles que o governam. A Primeira Carta a Timóteo recomenda orações por todos os que exercem autoridade (cf. 1Tm 2,1-2). Essa orientação permanece profundamente atual. Rezemos pelos eleitos, pelas lideranças políticas, pelas instituições e por cada brasileiro, para que prevaleçam a prudência, a honestidade, o senso de justiça e a disposição de ouvir. Que o exercício do poder seja sempre iluminado pela consciência de que a autoridade encontra sua maior expressão no serviço, especialmente aos mais vulneráveis.

No mês de outubro, recordamos os oitocentos anos da morte de São Francisco de Assis (cerca de 1182 a 1226), cuja vida foi um testemunho da força transformadora da fraternidade e da paz. Há quarenta anos, São João Paulo II (1920 a 2005) reunia líderes religiosos em Assis para rezar pela paz. A conhecida oração pela paz, tradicionalmente associada a São Francisco, expressa com beleza um programa de vida: “Onde houver ódio, que eu leve o amor”. Ela também nos recorda que “é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado”. Essas palavras ganham força quando se tornam atitudes concretas dentro de casa, nas redes sociais, em nossas comunidades e nos espaços de participação pública.

Que este novo momento da vida brasileira seja marcado pela coragem de reaproximar pessoas, reconhecer feridas, buscar o entendimento e defender a paz com gestos cotidianos. Peço a Deus que conceda sabedoria aos governantes, serenidade aos cidadãos e esperança às famílias. Que Nossa Senhora Aparecida interceda por nossa nação e nos ajude a compreender que a paz se constrói com justiça, respeito e misericórdia. O Brasil precisa das mãos, da inteligência e do coração de todos os seus filhos.

 

 

Dom Arnaldo Carvalheiro Neto é bispo diocesano de Jundiaí