A rotina de Brunna Ukachinski, de 38 anos, exige força dentro e fora da academia. Policial operacional, ela divide os dias entre o trabalho na segurança pública e a preparação para competições de fisiculturismo, uma modalidade que exige disciplina, constância e dedicação. O esforço mais recente foi recompensado com o vice-campeonato do Mr. Olympia Brasil 2026, na categoria Women’s Physique.
A história com os treinos começou em 2013, em uma pequena academia de bairro. Na época, o objetivo era apenas tonificar os músculos, sem imaginar até onde poderia chegar no esporte. A mudança veio quando conheceu Marcão, que trabalhava com levantamento de peso e puxava caminhões. Com ele, Brunna passou a treinar de maneira mais intensa e a descobrir novas possibilidades para o próprio desempenho.
“Fui ficando mais forte e maior e me apaixonando pelo esporte”, conta. Antes de chegar ao fisiculturismo, ela competiu no levantamento de peso, experiência que ajudou a consolidar sua relação com os treinos intensos e com a busca constante por superação.
A entrada no fisiculturismo aconteceu há cerca de quatro anos, quando foi descoberta pelo treinador Roger. Brunna começou na categoria Women’s Bodybuilding, mas, com o amadurecimento do físico e a evolução do condicionamento, passou a buscar espaço na Women’s Physique. A mudança representou uma nova etapa na carreira, com o objetivo de apresentar um físico cada vez mais desenvolvido e condicionado.
Para ela, competir significa ir além da preparação física. A capacidade de suportar a pressão e continuar trabalhando mesmo diante das dificuldades tem peso decisivo. “Quando percebi até onde eu conseguia chegar, e a superação do fisiculturismo é diferente. 80% mental. Resiliência pura”, afirma.
A caminhada, no entanto, nunca aconteceu em condições simples. Diferentemente de atletas que conseguem se dedicar integralmente ao esporte, Brunna precisa conciliar os treinos com a rotina de policial operacional. Além das horas de trabalho, há a dieta, a suplementação, as inscrições nas competições e os demais custos de uma preparação de alto rendimento.
“Eu não tive as vantagens de uma atleta que vive disso e pra isso. Mas, mesmo assim, competia contra elas. Então tinha que lutar com as ferramentas que eu tinha e me desdobrar para fazer esse sonho tornar realidade”, relata.
Sem patrocínio que bancasse toda a trajetória, ela assumiu os gastos para continuar competindo. A dedicação financeira se soma ao esforço físico e à necessidade de encaixar cada etapa da preparação na agenda profissional. Para Brunna, não é possível simplesmente deixar o trabalho de lado: o esporte faz parte de sua vida, mas não é sua fonte de sustento.
A rotina mostra o tamanho desse desafio. Depois de cumprir 12 horas de serviço equipada, ela ainda reserva tempo para o treinamento. “Após isso, duas horas de cardio e uma hora e meia de musculação”, conta. É uma programação que exige planejamento e disposição, mesmo depois de um expediente intenso.
Nos períodos que antecedem as competições, a organização fica ainda mais rigorosa. O descanso, o sono e os compromissos pessoais acabam afetados para que o planejamento seja cumprido. Brunna sabe que, no palco, o resultado apresentado é o que será avaliado, independentemente das dificuldades enfrentadas durante a preparação.
“Lá no palco, os árbitros não querem saber da minha história, e sim do físico que eu estou apresentando para eles”, explica. A cobrança faz com que ela procure manter a concentração mesmo quando a rotina se torna mais pesada.
O impacto também chega à vida pessoal. Durante a preparação, Brunna já precisou abrir mão de reuniões familiares, jantares e momentos de lazer com o marido. A rotina competitiva altera os hábitos de quem está ao redor, que acaba acompanhando de perto as exigências e restrições necessárias para chegar ao palco.
“Infelizmente, sua família e quem está mais próximo de você passa pelo processo junto. O preço de competir é muito mais alto do que as pessoas imaginam, e não me refiro a dinheiro”, afirma.
Em meio a tantos desafios, a possibilidade de desistir também fez parte do caminho. Brunna conta que, em diversos momentos, questionou se valia a pena continuar, especialmente ao se comparar com atletas patrocinadas e com mais condições de se dedicar exclusivamente ao esporte. A sensação de não ser boa o suficiente também apareceu durante a trajetória.
Ainda assim, a exigência que impõe a si mesma se transformou em combustível para continuar evoluindo. A busca por um resultado melhor, mesmo diante das limitações, faz parte da maneira como encara a modalidade e a própria vida.
O vice-campeonato no Mr. Olympia Brasil 2026 representa mais um resultado importante nessa caminhada. Para além da colocação, a conquista evidencia a trajetória de uma atleta que precisou conciliar duas rotinas exigentes para continuar competindo em alto nível. Entre a farda e o palco, Brunna segue em busca de evolução, sustentada pela disciplina e pela disposição de superar os próprios limites.