Ainda vivemos em um regime democrático que assegura a liberdade de manifestação. O poeta Fernando Pessoa celebrou a máxima “Navegar é preciso; viver não é preciso”, sintetizando que a navegação exige exatidão, rigor e certeza, ao passo que a vida é imprecisão, imperfeição e mutabilidade contínua.
A par dessa reflexão, sobressai a estonteante velocidade do tempo e a incerteza de nossa permanência. Já nos encontramos às portas das festividades de fim de ano, tomado pela incômoda sensação de que o ciclo anterior mal se encerrou. Diante da brevidade dos dias, o imperativo ético seria vivermos cada instante com plenitude, superando pequenezas e cultivando momentos de afeto e solidariedade.
Lamentavelmente, a realidade caminha no sentido oposto. Testemunhamos o desperdício de tempo precioso na exaltação da violência, do sensacionalismo e de ofensas gratuitas. Multiplicam-se os atos de discriminação e intolerância, alimentados pelo distanciamento do que verdadeiramente significa empatia.
Os índices de feminicídio, homofobia e intolerância religiosa escalaram consideravelmente. Esse avanço não é fortuito: é fruto da difusão irresponsável de discursos que pregam a submissão feminina e autorizam o domínio do homem sobre a vida da mulher — uma atualização trágica do Coronel Jesuíno, personagem icônico de Jorge Amado, na novela Gabriela, Cravo e Canela, que personifica o machismo truculento e a dominação violenta.
A recente campanha eleitoral ofereceu provas ricas dessa degradação moral. Postulantes a cargos públicos não mediram escrúpulos na defesa de seus interesses, abandonando propostas factíveis para converter o debate em uma arena de agressões pessoais e distorções da verdade.
Entretanto, o aspecto mais doloroso desse processo reside na incompreensível atração da vítima pelo seu agressor. Vimos cidadãos historicamente discriminados entregarem voluntariamente seu sufrágio àqueles que promovem o seu próprio apagamento. O fenômeno evoca a preciosa análise do Prof. Hélio Santos: o Brasil é o único lugar onde parcelas expressivas da população concedem o voto ao seu próprio inimigo, deixando transparecer que o elevado número de votantes se alinham no mesmo modo de pensar e agir.
Até determinado tempo se imaginava “lavagem cerebral” de grande parte da população e, após análise mais atenta dos casos apresentados, autorizou mudança de diagnóstico, confirmando que se trata de identificação com o que passaram a apregoar no processo eleitoral somado ao ódio instituído contra um dos concorrentes transformando a verdade em uma nuvem de fumaça e aceitação cega do ódio gratuito.
A democracia resiste enquanto houver capacidade de indignação e discernimento. Que a velocidade do tempo não nos anestesie e que, nas urnas e na vida cotidiana, saibamos navegar com a precisão da razão, ou mais próximos delas, escolhendo a empatia, a verdade e o respeito fundamental à dignidade humana.
Eginaldo Honório é advogado, comendador e atual presidente da Comissão da Igualdade Racial OAB/Jundiaí