Vivemos em uma época em que temos centenas de contatos no celular e nas redes sociais. Acompanhamos a vida de tantas pessoas, trocamos mensagens, curtimos fotos e mantemos conversas diariamente. Mas, em meio a tantas conexões, será que temos construído vínculos verdadeiros?
Recentemente, enquanto lia a parábola do amigo insistente, registrada em Lucas 11:5-8, parei para refletir sobre essa questão.
A história nos apresenta um homem que, ao receber uma visita inesperada durante a noite, percebe que não tem o que oferecer ao visitante e decide recorrer a um amigo. Mesmo diante do horário inconveniente e da resistência inicial daquele que estava dentro de casa, ele insiste até conseguir o que precisava.
Nessa passagem, Jesus nos ensina sobre a importância de pedir, buscar e perseverar. Há muito a aprender sobre até onde estamos dispostos a ir na busca por aquilo de que precisamos. Mas, dessa vez, ao ler essa história, algo mais me chamou a atenção: antes de insistir em seu pedido, aquele homem precisou saber a quem procurar.
E sua escolha foi um amigo.
Todos nós estamos sujeitos a enfrentar situações em que não conseguiremos resolver tudo sozinhos ou simplesmente precisaremos de alguém que nos estenda a mão.
Em alguns momentos, seremos aqueles que recebem um pedido de ajuda. Em outros, seremos os que precisarão bater à porta de alguém.
E, quando esse momento chegar, em meio a tantos contatos, mensagens e relacionamentos, a quem recorreremos? O que, de fato, teremos construído com as pessoas ao nosso redor?
Quantos contatos possuímos, mas, na hora do aperto, ficamos sem saber com quem contar porque nos falta intimidade? Acompanhar a vida de uma pessoa não significa conhecer suas dores. Trocar mensagens diariamente não significa que exista liberdade suficiente para compartilhar uma preocupação ou admitir que não estamos bem.
A conexão pode até ser real, mas isso não significa que exista um vínculo de confiança, disponibilidade e cuidado mútuo.
Construir relacionamentos verdadeiros exige mais do que presença nas redes sociais. Exige tempo, escuta, interesse genuíno e disposição para estar presente também quando não há nada a celebrar. É fácil compartilhar alegrias, comentar conquistas e estar por perto nos dias bons. O desafio está em permanecer quando a conversa deixa de ser leve, quando o outro precisa desabafar ou quando ajudar exige abrir mão da própria comodidade.
Em Provérbios 17:17, lemos: “Em todo o tempo ama o amigo”.
A amizade verdadeira não é construída apenas nos momentos extraordinários, mas também nos gestos cotidianos, na confiança que se desenvolve aos poucos e na segurança de saber que podemos nos aproximar sem precisar fingir que está tudo bem.
A riqueza dos nossos relacionamentos não deve estar na quantidade de pessoas que conhecemos, mas na profundidade dos vínculos que cultivamos.
Porque chegará o dia em que não precisaremos de mais um contato no celular, de uma curtida ou de uma mensagem automática. Precisaremos de alguém a quem possamos recorrer, alguém diante de quem possamos reconhecer nossas fragilidades e pedir ajuda.
E, quando esse dia chegar, fica a pergunta: quando você precisar, saberá a quem procurar? E, quando alguém precisar, saberá que pode procurar você?
Paula Passos é pedagoga, pós-graduada em Educação Parental e MBA em Psicologia Organizacional e Gestão de Pessoas (em andamento).