15 de outubro de 2026
OPINIÃO

Brincar na lama faz bem


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Antigamente, as crianças brincavam com terra, com areia, subiam em árvores, corriam na enxurrada após à chuva. Hoje, por uma série de razões, elas não experimentam a vida livre e solta de outros tempos. Na megalópole bandeirante, elas são confinadas em espaços impermeabilizados, já não têm árvores para escalar, nem pensar em caminhar na correnteza. Tudo mudou e, para muitos, piorou.

E se alguém disser que brincar com lama é um ato político suficiente para combater o racismo ambiental?

Essa foi a constatação de Elena Castello, ao elaborar dissertação de Mestrado cujo nome reproduz frase de uma criança de cinco anos, aluna da Escola Municipal de Educação Infantil “Nelson Mandela”, na Zona Norte da capital. O título da Dissertação defendida na Faculdade de Educação da USP é “Eu moro no Brasil e a África que eu sou é no Bairro do Limão”.

Para elaborar o trabalho, a pesquisadora acompanhou por dez meses uma turma de alunos na escola onde o contato com a natureza é livre. Esse convívio com a natureza, aliado à pedagogia antirracista, representa valiosa ferramenta para enfrentar o racismo ambiental na educação infantil.

A Escola “Nelson Mandela” ocupa o espaço de um antigo Parque Infantil idealizado por Mário de Andrade na década de 1950. Possui grandes árvores, propiciando ao alunado um contato direto com o ambiente natural, que oferece práticas hoje quase esquecidas, como o jogo de bolinhas de vidro, com as pequenas “caçapas” cavadas no solo.

De certa forma, as crianças participaram da construção do texto aprovado pela Banca de arguição, pois o registro fotográfico da pesquisa e das conversas ficou disponibilizado para as crianças. Por isso, diz Eliana, “A socialização dos dados desloca parte da autoridade interpretativa do pesquisador para uma construção efetivamente compartilhada com aquelas que colaboram com a pesquisa”. A satisfação da autora foi constatar que as crianças assumiram rapidamente o processo. Diziam o que se deveria escrever, escolhiam o enquadramento das fotos. Enfatizavam os acontecimentos mais importantes.

Essa experiência é louvável. Estimula-se naquela escola a amizade entre espécies, “um contraponto direto à lógica sanitarista que domina a maior parte das escolas urbanas. O senso comum adulto enxerga sujeira ou perigo e a criançada, espontaneamente, criou vínculos. Exemplo a ser seguido. Afinal, as construções baseadas no concreto, no aço, no ferro e no vidro não são a melhor resposta humana para o aquecimento global. É preciso redescobrir o encanto das coisas genuínas. O contato com a terra, o destemor em relação à água, o respeito para com o verde e a amizade com a fauna desta esplendorosa biodiversidade brasileira.

A terra serve para a moldagem de brinquedos de barro. A água não pode servir apenas para dessedentar e para a limpeza. Pode-se brincar com a terra, com a água, com as folhas que caem naturalmente das árvores. Os insetos prestam enorme serviço ecossistêmico. Abelhas e borboletas polinizam. São essenciais à garantia do ciclo vital de todas as espécies.

Como foi que nos tornamos seres artificiais, robôs manipulados por IA – Inteligência Artificial, com a mania histérica de limpeza que desenha um ambiente hostil e portador de ameaças. Todos os seres, animais e vegetais, precisam se relacionar de forma amiga, com cuidado, com curiosidade e convivência. Mudar o foco da transmissão de conteúdos para edificar vínculos afetivos é muito mais útil e saudável do que forçar a memorização de informações.

É normal tentar proteger as crianças. Mas isso não significa afastá-las da natureza da qual fazem parte, mas criar condições para que vivam tais encontros em liberdade.

 

 

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, Docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.