05 de novembro de 2026
OPINIÃO

Grande sertão: veredas


| Tempo de leitura: 3 min

O monumento completa 70 anos. Em 1956, o mundo literário ganhou obra tão grandiosa quanto singular: “Grande sertão: veredas”, obra-prima de João Guimarães Rosa. Em mais de 500 páginas, sem divisão em capítulos e por meio de um fluxo contínuo, o ex-jagunço Riobaldo, envelhecido, conta a um presumível interlocutor a sua vida de cangaceiro pelo sertão, pelos “campos gerais”. São inúmeras aventuras em meio a conflitos e batalhas, narradas sem ordem cronológica. A tônica da narrativa recai sobre as guerras travadas nesse fim de mundo e também sobre o amor impossível de Riobaldo por Diadorim, companheiro de façanhas. “Em Diadorim penso também, mas Diadorim é minha neblina”, diz Riobaldo. Barranqueiro vivendo às margens do rio São Francisco, o agora velho Riobaldo relembra suas histórias, dentre as quais um possível pacto com o diabo: “Vendi minha alma a quem não existe?”, pergunta-se. “Deus é paciência. O contrário é o diabo” – afirma o ex-pistoleiro.

Longe de criar o sertanejo “exótico”, para ser visto com complacência pelo leitor urbano e refinado, o que Rosa fez foi recriar um sertão mítico, transcendente – e um sertanejo encucado com questões existenciais. O refinamento fica do lado do narrador, sujeito semiletrado, mas de uma inteligência rara, repleta de inquietações: “Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa”, afirma.

O sertão de Rosa está geograficamente limitado entre o interior de Minas Gerais, de Goiás e da Bahia. Mas o narrador adverte que “o sertão é do tamanho do mundo”. Nesse espaço amplo, Riobaldo reconta sua vida de garoto pobre que ascendeu socialmente. Agora, próximo do fim, dono de um pedaço de chão, continua a indagar o sentido de sua vida. Ao longo de sua prosa envolvente, leitores percebemos a admiração do narrador pelo conhecimento alheio. Riobaldo não queria apenas ser o guerreiro grandioso e afamado. Ele admira, por exemplo, a sabedoria dos chefes de bando Joca Ramiro e Zé Bebelo. E a sabedoria é esse “lugar ou estado” aonde ele quer chegar.

A recriação da linguagem, com a incorporação de neologismos, arcaísmos, regionalismos e coloquialismos marcam a obra do autor. Poliglota, estudioso de idiomas, Rosa inventou muito a partir da matriz de um português oral e brasileiro – mas não só. E topamos com trocentos exemplos: “agredimento de boi brabo”, “desideia”, “luzluziu a faca”, “no seu desvoo”, “eu desmudei logo”. Tais invenções dão vida a um universo único. Sua linguagem não veio para afastar o leitor, mas para encantá-lo.

João Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais. Formou-se em medicina, e trabalhou como oficial médico do Exército, no interior mineiro. Prestou concurso e ingressou no serviço diplomático, em 1934. Foi vice-cônsul em Hamburgo, na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Quando o Brasil declarou guerra à Alemanha, em 1942, ficou detido em Baden Baden, e posteriormente foi trocado, junto com outros diplomatas brasileiros, pelos colegas alemães que serviam no Brasil. De volta à América do Sul, participou de inúmeras missões diplomáticas, como, por exemplo, as negociações a respeito da fronteira oeste brasileira, envolvendo a Bolívia, o Paraguai e a Colômbia.

Seu primeiro livro, “Sagarana”, saiu em 1946 e reuniu nove contos longos. Eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1963, adiou quanto pode a posse, por achar que ficaria por demais emocionado. Assumiu a cadeira da ABL em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, em um domingo, morreu vitimado por ataque cardíaco.

Mas voltemos ao “Grande Sertão...”. Para finalizar, cito trecho que ganhou vida própria: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Salve, mestre Guimarães Rosa.

 

Fernando Bandini é professor de Literatura