05 de novembro de 2026
OPINIÃO

Brasileiro não tem ideologia


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O brasileiro não acorda pensando se é de direita ou de esquerda. Acorda preocupado com o boleto que vence, com a prestação do financiamento, com o preço dos alimentos e com o dinheiro que precisa durar até o fim do mês. Enquanto políticos e militantes travam batalhas ideológicas nas redes sociais, milhões de brasileiros enfrentam uma realidade muito menos filosófica e infinitamente mais urgente: fazer a vida funcionar. E é justamente essa distância entre o discurso político e a realidade das famílias que ajuda a explicar o comportamento do eleitor nas urnas, independentemente do TikTok político.

É evidente que existem brasileiros profundamente identificados com determinadas correntes ideológicas. Há conservadores convictos, progressistas engajados e militantes que defendem seus líderes independentemente dos resultados de suas administrações. Mas há também uma parcela expressiva da sociedade que não se enquadra nessa lógica. São pessoas que trabalham, pagam impostos, criam filhos e esperam que o poder público cumpra suas obrigações. Para elas, a política não é uma questão de identidade, mas de resultados.

Um trabalhador endividado, que vê os juros inviabilizarem a compra da casa própria, dificilmente encontrará conforto em discursos sobre modelos econômicos. Uma mãe que chega à escola e descobre que o uniforme do filho não foi entregue não quer saber qual partido governa a cidade. O cidadão que passa horas esperando atendimento em um hospital público não pergunta se o prefeito é conservador ou progressista. Quer ser atendido. E, quando essas necessidades não são satisfeitas, a insatisfação pode se transformar em voto contrário a quem está no poder.

O problema é que parte da classe política parece ter perdido a capacidade de compreender essa simplicidade. Prefere discutir narrativas, alimentar antagonismos e transformar adversários em inimigos. Lula e Bolsonaro, com seus respectivos seguidores, tornaram-se símbolos de uma polarização que frequentemente impede qualquer avaliação racional dos resultados. O eleitor deixa de ser cidadão para se transformar em integrante de uma torcida, como se governar fosse vencer uma partida de futebol.

As eleições deste ano também mostram a força de discursos que encontram terreno fértil no medo, no cansaço e na frustração. Não basta condenar determinadas escolhas eleitorais ou classificar seus eleitores como ignorantes. É necessário compreender por que essas mensagens encontram receptividade. Muitas vezes, o que parece adesão a uma ideologia é, na realidade, a busca por alguma resposta a problemas que ninguém conseguiu resolver.

A política brasileira precisa abandonar a confortável ilusão de que uma boa estratégia de comunicação substitui uma boa administração. Não adianta produzir vídeos emocionantes sobre educação quando faltam professores e materiais nas escolas. Tampouco adianta anunciar investimentos bilionários se o cidadão continua enfrentando filas para realizar um exame. A propaganda pode construir percepções, mas a experiência cotidiana tem uma capacidade extraordinária de desmontá-las.

Isso não significa que valores, princípios e convicções sejam irrelevantes. Significa reconhecer que a sobrevivência e a qualidade de vida têm enorme influência sobre as decisões políticas. Quem perde poder de compra, segurança e perspectiva de futuro tende a procurar alternativas. E essa mudança não representa necessariamente incoerência. Pode representar uma cobrança legítima por resultados.

Talvez o maior equívoco dos partidos seja acreditar que possuem eleitores por direito adquirido. Não possuem. O voto não é uma escritura definitiva de propriedade. É uma concessão temporária de confiança, sujeita à avaliação permanente de quem governa.

O Brasil precisa de políticas públicas consistentes, capazes de sobreviver aos mandatos e às disputas partidárias. Educação, saúde, habitação, segurança e equilíbrio econômico não deveriam pertencer à direita ou à esquerda. São responsabilidades de Estado, financiadas por uma sociedade que trabalha muito e recebe serviços frequentemente incompatíveis com os impostos que paga.

No fim das contas, o brasileiro pode até escolher um lado no debate ideológico. Mas, quando a conta chega, o salário acaba e o serviço público falha, é a realidade que cobra explicações. A ideologia pode conquistar o eleitor. É a capacidade de governar que deveria merecer a permanência do seu voto.

 

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ