31 de outubro de 2026
OPINIÃO

Podemos ser a primeira?


| Tempo de leitura: 3 min

Pela terceira vez consecutiva, a pequena Gavião Peixoto, município com quatro mil habitantes, é a primeira em qualidade de vida. Fica próxima a Araraquara e sua evidente vantagem é sediar a fábrica de aviões Embraer, que deu impulso ao assentamento rural formado por imigrantes que fugiram da Revolução Russa de 1917.

Mas a nossa Jundiaí está em segundo lugar. Enquanto Gavião Peixoto obteve o índice 73,10 de Progresso Social – o máximo é 100 – Jundiaí conseguiu obter 71,80. É uma façanha. Mas será que podemos chegar a ser a primeira?

O grande problema das cidades brasileiras é o saneamento básico e desigualdade social. Não é suficiente o nível de riqueza para explicar a qualidade de vida nas urbes tupiniquins. É preciso contemplar a saúde, a educação, a segurança e a inclusão social.

De que adianta um município sediar grandes e poderosas empresas, se não oferece a seus habitantes aquele mínimo existencial que justifica a observância do princípio da dignidade humana?

Basta olhar em volta, em qualquer dos 5.571 municípios brasileiros, para constatar que há moradores de rua, há falta de esgoto tratado, há falta de água, há falta de moradia, há falta de educação de qualidade.

Falhamos na inclusão social, porque ainda não acordamos para a realidade contemporânea. O mundo mudou completamente, com a internet e a explosão das redes sociais. As informações estão disponíveis, acessíveis e em quantidade ilimitada. E a educação convencional continua a fazer o educando decorar dados dos quais não vai precisar para sobreviver.

A escola se esqueceu de que as habilidades socioemocionais são muito mais importantes do que o “decoreba” tradicional. Infelizmente, essa memorização prevalece em todos os recrutamentos, em todos os concursos públicos, em todas as seleções para preencher quadros estatais e também na maior parte dos negócios particulares.

Se o Estado brasileiro tivesse acordado, teria investido em professores que saibam explorar as competências dos estudantes. Saber comunicar-se, ter sensibilidade, capacidade de se adaptar ao inesperado, condições de enxergar cada ser humano como um igual, tudo isso é muito mais importante do que decorar equações, conjugar verbos e saber a diferença entre oração adverbial ou subordinada.

O principal ingrediente para fazer alguém progredir se chama curiosidade. Uma curiosidade invencível. A vontade de aprender tudo o que for possível. A determinação de enfrentar a dura realidade virtual e de nela encontrar fórmulas de empreendedorismo, para exercer atividades compatíveis com as mais avançadas tecnologias. Os empregos estão acabando e as profissões que a IA exige ainda sequer têm nome.

Quando Jundiaí descobrir como faz para avançar no seu Índice de Progresso Social, principalmente no atendimento das necessidades humanas básicas e nos fundamentos do bem-estar, não será difícil superar Gavião Peixoto. A inclusão social precisa ser o objetivo permanente de qualquer cidade e isso se faz mediante políticas públicas em parceria com a iniciativa privada.

Reduzir a violência, multiplicar as áreas verdes, tirar as pessoas da rua e da miséria, tudo isso ajudará Jundiaí a ser a primeira no ranking de qualidade de vida do Brasil. Isso não é inviável. É plenamente possível. Mas precisa de todos, não apenas do Poder Público.

 

 

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.