23 de outubro de 2026
OPINIÃO

O preço do perdão


| Tempo de leitura: 3 min

Caro leitor, O perdão é uma das palavras mais pronunciadas com leveza e, paradoxalmente, uma das virtudes mais difíceis de exercitar. Costumamos tratar o ato de perdoar como um gesto mágico de nobreza moral, uma espécie de passe livre que nos alça a um patamar espiritual superior. O que pouca gente discute, no entanto, é a etiqueta oculta dessa transação emocional: perdoar não é gratuito. Há uma conta alta a ser paga, e ela é integralmente cobrada de quem decide concedê-lo.

Quando alguém nos fere, seja por uma traição, uma quebra de confiança ou uma injustiça banal, a reação instintiva da mente humana é a busca por retribuição. A mágoa constrói uma narrativa na qual somos a vítima lesada e o outro é o devedor insolvente. O rancor funciona como um contrato de dívida permanente: mantemos a dor viva para lembrar ao mundo e ao ofensor que ele nos deve algo. É um mecanismo amargo, porém confortável, pois nos protege do confronto com a nossa própria vulnerabilidade.

 O preço do perdão começa exatamente no momento em que decidimos rasgar esse contrato de dívida. Perdoar exige abrir mão do direito à vingança, do prazer sombrio de jogar a culpa na cara do outro e do status de vítima inocente. Significa aceitar que o passado não pode ser reescrito, que o dano já foi causado e que nenhuma desculpa, por mais sincera que seja, restaurará perfeitamente o estado original das coisas. É o ato consciente de absorver o prejuízo emocional em vez de repassá-lo adiante.

Existe também um equívoco perigoso sobre a natureza desse processo: confunde-se frequentemente o perdão com a reconciliação ou com a amnésia. Perdoar não significa fingir que nada aconteceu, tampouco obriga a manutenção de quem nos feriu em nossa rotina. O esquecimento é uma ilusão biológica, já que o cérebro preserva as cicatrizes como um mecanismo de sobrevivência. O perdão maduro não apaga a memória, mas retira dela a carga venenosa. É olhar para a ferida antiga e constatar que ela deixou de sangrar.

Por isso, o valor cobrado pelo perdão é tão elevado. Ele exige um trabalho árduo de desmonte do próprio ego. Exige reconhecer que o ser humano que nos magoou é falho e limitado e que nós também estamos sujeitos aos mesmos tropeços. Quando pagamos essa conta, contudo, descobrimos a verdadeira função da transação: perdoar não é um favor prestado a quem nos ofendeu, mas um resgate de nossa própria liberdade. Quem não perdoa continua preso, por correntes invisíveis, à pessoa e ao evento que o machucaram. O ódio nos torna reféns do agressor.

No balanço final das contas da vida, o perdão se mostra um investimento doloroso na própria paz. O custo imediato pode parecer excessivo, afinal, exige engolir o orgulho, abandonar certezas e aceitar perdas indesejadas, mas o juro cobrado pelo rancor a longo prazo é infinitamente mais devastador. O preço do perdão é alto, sim, mas o preço de carregar uma mágoa pela vida inteira é, sem dúvida, incalculável. Pense nisso!

 

Miceia Izidoro é psicopedagoga clínica e institucional, neuropsicopedagoga clínica e pós-graduada em ABA