23 de outubro de 2026
OPINIÃO

A alegria é uma necessidade biológica


| Tempo de leitura: 3 min

Passamos boa parte da vida adulta aprendendo tudo o que precisamos fazer para ter saúde: comer melhor, dormir bem, praticar exercícios, controlar o estresse, acompanhar exames. Mas talvez estejamos esquecendo de algo muito mais simples: rir, cantar, abraçar, dançar e permitir-se sentir.

A alegria não acontece apenas “na cabeça”. Quando vivemos experiências de prazer, afeto e conexão, o cérebro, o sistema nervoso, o coração, a respiração e nossa química corporal participam dessa experiência. Em outras palavras, a alegria também acontece no corpo.

Rir é um bom exemplo. Uma gargalhada modifica a respiração, movimenta o diafragma, altera momentaneamente a frequência cardíaca e pode contribuir para reduzir a resposta fisiológica ao estresse. Talvez por isso exista aquela sensação tão conhecida de relaxamento depois de rir de verdade. O corpo parece soltar o que estava segurando.

O abraço também tem sua fisiologia. O toque afetivo e seguro transmite ao cérebro informações relacionadas a vínculo e segurança, podendo influenciar mecanismos envolvidos na resposta ao estresse. Não é por acaso que, em determinados momentos, um abraço consegue dizer ao corpo aquilo que nenhuma palavra consegue explicar.

E existe uma prática particularmente interessante quando falamos em sistema nervoso: cantar.

O nervo vago é uma das principais vias do sistema nervoso parassimpático e participa da comunicação entre o cérebro e diferentes órgãos, incluindo coração, pulmões e sistema digestório. Ele está profundamente envolvido na capacidade do organismo de modular suas respostas e retornar ao equilíbrio depois de situações de maior ativação.

Quando cantamos precisamos controlar a saída do ar, prolongando a expiração, o ritmo respiratório pode diminuir e a relação entre respiração e batimentos cardíacos se modifica. A vocalização e a vibração ainda produzem vibrações perceptíveis na garganta, face e tórax, o que favorece a modulação parassimpática e vagal. A ciência investiga quanto desse efeito se deve especificamente à vibração e quanto decorre do padrão respiratório, mas sabemos que vocalização, respiração lenta e variabilidade da frequência cardíaca estão intimamente relacionadas.

Poucas atividades reúnem tantos estímulos simultâneos como a dança. Movimento, ritmo, coordenação, memória, equilíbrio, percepção corporal, emoção e interação social. Ainda está associada à liberação de substâncias envolvidas na saúde cerebral, dentre elas, o BDNF, uma proteína relacionada à plasticidade neural. Dançar, portanto, não movimenta apenas músculos, mas desafia e alimenta o cérebro com múltiplas experiências.

Até o choro merece espaço nessa conversa. Nem toda emoção precisa ser rapidamente controlada ou silenciada. Chorar pode acompanhar diferentes processos emocionais e, dependendo do contexto, ser seguido por sensação de alívio. Somos seres biológicos, mas também afetivos e sociais. Sentir faz parte da experiência humana.

Nós precisamos de vínculos, movimento prazeroso, contato, música, encontros e momentos em que o organismo possa sair do estado permanente de alerta. Então ria sempre que puder. Abrace quem você ama. Cante mesmo que seja desafinado. Coloque uma música e dance. Permita-se sentir.

A alegria não significa viver sem problemas, tristeza ou dificuldades. Significa permitir que, mesmo em meio a tudo isso, o corpo também experimente prazer, segurança, conexão e presença.

Porque saúde não é apenas aquilo que fazemos para evitar a doença. É também aquilo que fazemos para nos sentirmos vivos. A alegria não é um luxo. É uma necessidade biológica. Muita saúde a todos.

 

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo. Pioneira do método ELDOA no Brasil