Tenho que começar deixando claro que tenho ciência de que a dor é algo desconfortável. Sei também que sustentar um estado de dor é muito desgastante e como é importante fazer uso da nossa tecnologia médica e farmacológica (expressa em remédios e procedimentos) para aliviar esta dor, ou, falando de maneira mais simples e direta, dor é algo que “ninguém merece”.
Além disso, devo ressaltar também que, antes de ser médico, eu sou uma pessoa comum, portador dos mesmos desconfortos e medos acerca de dor, doença e mortalidade, como todas as pessoas que procuro ajudar com a minha medicina.
Assim posto, posso compartilhar com vocês, caros leitores(as) uma pergunta que sempre me causou alguma angústia, desde os primeiros anos da minha faculdade: “o que é verdadeiramente ajudar uma pessoa diante de uma dor”?
Já naquela época, pensava que para alguém que se queixa de dores de cabeça, prescrever um analgésico é uma forma de ajuda, mas não me parece ela “toda”. Promover um alívio rápido no incômodo é bom, mas dura pouco e geralmente a dor reaparece. Assim, nunca me senti completo e realizado restringindo a minha prática neste ponto, pois parecia que ficava preso na superfície do processo todo. Como proceder então?
“Qual o gatilho oculto para o processo que se repete?” – um dos motivos para que eu estudasse “outras medicinas” foi a procura de uma resposta mais definitiva para esta pergunta. A cada curso e especialização que eu fazia, me sentia mais perto da resposta, mas ... continuava procurando por “peças do quebra-cabeça” que pareciam faltar.
Depois de duas décadas de atendimento clínico, aprendi que uma abordagem melhor seria reformular a pergunta, procurando ver o quadro todo sob outros ângulos e, por isso, comecei a me perguntar em cada caso que batia na minha porta: “Para onde essa dor me aponta?”.
A mudança teve um efeito importante: deixei de ver a dor simplesmente como um erro, um acidente de percurso ou mesmo um “ponto final” no fluxo de vida. Ela passou a ser mais uma “vírgula”, ou seja, um apontamento que recupera a relevância de algo que estava sendo perdido na jornada e cuja negligência acabou por atravancar a caminhada toda ... e alertava-me sob a forma de dor.
Claro, é um alerta desagradável. Como falei no começo, (quase) ninguém gosta de sentir dor. No entanto, vista assim, a dor tornava-se um agente que desperta para a dinâmica oculta do que ocorria na vida do paciente, tal como uma lanterna que é acesa na noite escura. O que mais me impressionava é que muitas vezes ela trazia para a luz algo que era mais apavorante de lidar do que a própria dor. Isto soa estranho para você?
Bem, no começo soou estranho para mim. Contudo, observei (aqui vai um pequeno exemplo prático) o quão fácil pode ser lidar com a dor de uma fibromialgia do que conviver com o antagonismo de sentimentos de afeto e raiva, direcionados para a mesma pessoa, que é uma dinâmica comum neste tipo de doença.
Afetos interrompidos na infância, traumas, abusos... são processos que preferimos “varrer” para debaixo de um tapete tecido com dor e medo, deixando com o corpo parte do problema, enquanto outra parte espera dormente, no inconsciente, a oportunidade de se manifestar.
O alívio para o desconforto da dor continua sendo minha “tarefa” mais básica como médico, mas confesso que hoje me sinto bem mais aliviado por também dar ouvidos ao simbólico que a acompanha.
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica.